por André Barroso — especial para a parceria LabJor FAAP/New Order

As pedras no caminho do audiovisual brasileiro

Ilustração: Rafaella Milani

É preciso “ter sangue nos olhos” para atuar no audiovisual brasileiro. Quem atua no meio sabe da batalha que é a distribuição de um filme no Brasil, e como é difícil competir com o mercado americano.

Segundo o Anuário Estatístico do Cinema Brasileiro 2017 do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA), 74 dos 303 filmes exibidos nos cinemas eram brasileiros e os filmes nacionais representavam 19,1% do público em 2010. Em 2017, apesar do aumento do número de filmes brasileiros lançados (160 de 463 filmes ao todo), a participação do público caiu para 9,6%.

E as perspectivas para 2019 não são as melhores. Em novembro de 2018, a Sexta Turma do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3) acolheu apelação do Sindicato das Empresas Exibidoras Cinematográficas no Estado de São Paulo e suspendeu a aplicação da chamada “cota de tela”, que limitava em 30% o número de salas de cinema em que um filme, nacional ou estrangeiro, poderia ser exibido. A decisão havia sido tomada em 2015 após o lançamento de Jogos Vorazes: a Esperança — Parte 1 ter ocupado aproximadamente 46% de todas as salas de cinema. Na semana passada, a Os Vingadores: Ultimato estreou com a estimativa de ter ocupado 80% de todas as salas de cinemas do Brasil. Fato é que, de acordo com o Box Office Mojo, portal que coleta dados estatísticos internacionais sobre bilheterias de cinema, o filme já arrecadou mais de US$ 34 milhões de dólares em salas brasileiras, até o último 26 de abril.

Considerando todo o setor, o último estudo divulgado pela Ancine em 2016, Valor Adicionado pelo Setor Audiovisual (Ano-base 2014), o audiovisual brasileiro gerou R$ 24,5 bilhões em 2014. O estudo revelou uma tendência de crescimento do audiovisual desde 2007, quando o setor injetou US$ 8,7 bilhões na economia. No fechamento daquele ano, pela primeira vez, a TV fechada foi responsável por mais de 50% do valor adicionado pelo audiovisual na economia, com tendência de crescimento, conforme o gráfico abaixo.

“Segundo esta medição, o setor cresceu 66% entre 2007 e 2013, o que equivale a uma expansão contínua de 8,8% ao ano no período. Este percentual é significativamente superior à média de todos os setores da economia no período observado”, diz o relatório da Ancine.

E o segmento das atividades de exibição cinematográfica dobrou sua participação no período, passando de 1,6%, registrado em 2007, para 3,1% do total do valor adicionado do setor em 2013. Também as salas de cinema, em todo o território nacional, vinham crescendo de forma consistente. Em 2002, o número de salas de exibição era restrito à 1.635, segundo a Ancine. Em 2016, o número saltou para 3.160 salas. Já em 2018 foram registradas 3.356 salas, o maior número de salas desde 1975, que era de 3.276.

Segundo o Relatório de Gestão de 2018 da Ancine, publicado em 1º de abril desse ano, “a indústria do cinema e do audiovisual no Brasil movimenta mais de 25 bilhões de reais por ano e emprega, hoje, cerca de 335 mil profissionais direta e indiretamente”. Esse crescimento sustentado — e o impacto positivo na economia — foi sem dúvida impulsionado pelas políticas públicas de fomento ao setor. Os investimentos via Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) em 2009 foram de R$ 29 milhões. Em 2017, o número havia saltado para R$ 534 milhões, segundo a OCA.

Mas, o setor considera que seu crescimento e desenvolvimento estão ameaçados com medidas do governo que podem alterar a metodologia de trabalho do audiovisual brasileiro como um todo.

Laís Bodanzky, cineasta e diretora-presidente da SP-CINE, publicou, no último dia 23 de abril, uma “Carta Aberta em defesa do Audiovisual Brasileiro”: “Diante do cenário alarmante, a Spcine manifesta seu repúdio ao que considera o desmonte da política audiovisual brasileira”, diz a cineasta. “Os acontecimentos recentes — pedido do Tribunal de Contas da União para suspender novos contratos da Ancine e paralisação nos repasses da agência — põem em risco um setor responsável por alavancar anualmente mais de R$ 20 bilhões no PIB do país e empregar mais de 330 mil trabalhadores. Em São Paulo, região de atuação direta da Spcine, nos últimos três anos foram 57,2 mil postos de trabalho gerados e mais de R$ 1,1 bilhão movimentados pelas produções que passaram pela cidade” , diz a cineasta.

O “cenário alarmante”, mencionado por Bodansky, refere-se a um conjunto de fatos, entre eles, podemos citar:

  • Extinção do Ministério da Cultura e sua anexação ao Ministério da Cidadania, como uma das primeiras medidas do governo Bolsonaro.
  • Perda do patrocínio do Banco Caixa na Caixa Belas Artes, em fevereiro desse ano, que foi renomeada Cine Belas Artes, e corre o risco de ter suas portas fechadas a qualquer momento. Foi anunciado no dia dois de maio que cerveja Petra irá patrocinar o Belas Ates.
  • O envio de uma nota do Tribunal de Contas da União (TCU) no dia 27 de abril para a Ancine, determinando que seja suspenso o repasse de recursos públicos para o setor audiovisual, podendo interromper toda a produção deste no Brasil. [Entenda na entrevista com a professora Luciana Rodrigues, ao final dessa reportagem]
  • Mais recentemente, o corte de apoio e patrocínio da Petrobras em treze projetos culturais, número que já reduzia ano por ano.

E não se pode deixar de citar a nova Instrução Normativa da Lei Rouanet, publicada pelo Diário Oficial da União em 24 de abril de 2019, e que alterou alguns procedimentos e abordagens da lei para projetos culturais. O que mais se destaca nesta nova IN é o novo teto para projetos que forem aprovados pela Lei Rouanet, que caiu de R$ 60 milhões, para R$ 1 milhão — o que gerará problemas de investimentos em outros setores culturais, tais como museus, peças de teatro, orquestras e produções literárias. [Saiba mais na entrevista com a professora Luciana Rodrigues, ao final dessa reportagem[

Além disso, no dia 15 de abril, conforme citado acima, foi anunciado que a Petrobras cortará o seu apoio e patrocínio de mais de treze projetos culturais. Entre eles, a Mostra Internacional de São Paulo e o Anima Mundi, o maior festival de animação da América Latina.

Um dos diretores do Anima Mundi, César Coelho, expressou a sua preocupação com o futuro do festival em entrevista à Folha de São Paulo: “É um buraco no orçamento que a gente vai ter que cobrir de algum jeito. Mas há a questão do timing. O festival já é em julho, temos poucos meses para tapar [o buraco]. Um festival do tamanho do Anima Mundi demora mais de um ano em produção”, disse.
Segundo os dados apurados pela reportagem do jornal, a estatal já representou 50% do orçamento total do evento voltado para animação e, desde 2011, reduziu drasticamente o patrocínio no setor cultural. “Se considerarmos apenas o dinheiro investido em cultura, ele foi R$ 153 milhões em 2011 e, no ano passado, foi de R$ 38 milhões. No ano do auge, a estatal chegou a financiar 336 projetos culturais. No ano passado, elegeu só 30”, diz a reportagem.

O mais alarmante para o audiovisual — em especial à animação — é a nota enviada pelo Tribunal de Contas da União para a Ancine, onde se questionou a análise de prestação de contas estabelecida pela agência há anos. No entanto, as normas não se encaixavam no molde estabelecido pelo TCU e todos os investimentos da Ancine em projetos audiovisuais foram congelados, podendo causar efeitos imediatos nas produções. A medida permanece um impasse entre a agência e TCU.

Essas e outras novas medidas estabelecidas pela equipe de Jair Bolsonaro produzem um clima de insegurança e desprestígio à área cultural. Em sua proposta de plano de governo divulgada durante as eleições de 2018, a palavra “cultura” é citada apenas três vezes nas oitenta e uma páginas do documento: referente ao “marxismo cultural” que “mina os valores da Nação e da família brasileira”, outra a uma “rápida transformação cultural, onde a impunidade, a corrupção, o crime, a vantagem, a esperteza, deixarão de ser aceitos como parte de nossa identidade nacional, POIS NÃO MAIS ENCONTRARÃO GUARIDA NO GOVERNO” [a caixa alta é do documento original], e a última referente ao plano Novo Itamaraty do Ministério das Relações Exteriores. A palavra “arma’ é citada oito vezes em toda a extensão do documento, e “Forças Armadas” é citado sete vezes. Não há uma única citação de proposta de preservação e incentivo à produção e consumo de cultura.


A professora Luciana Rodrigues / VAV Audiovisual

Para compreender o cenário atual e alcance do seu impacto no setor, o LabJor FAAP entrevistou Luciana Rodrigues — professora titular doutora e coordenadora da Pós-graduação em Gestão de Produção e Negócios Audiovisuais da FAAP, e que foi fundadora e presidenta do Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual (Forcine) entre 2012 e 2016. A professora se deteve nos aspectos da Lei e nos possíveis impactos no mercado de trabalho.

O animador Marão / Anima Mundi

Também entrevistamos Marão, um dos mais renomados e premiados animadores do Brasil, cujos principais trabalhos incluem os curtas Até a China (vendedor do prêmio de Melhor Filme Brasileiro do Anima Mundi e Melhor curta-metragem pelo júri popular no Festival do Rio de 2015), Eu Queria Ser Monstro (vencedor de Melhor Animação Brasileira no Anima Mundi/Rio de Janeiro de 2010), Chifre de Camaleão (vencedor de Melhor Filme Brasileiro do Anima Mundi e Melhor Filme de Animação no Festival Cine Video — Brasil de 2000) e Engolervilha (vencedor de Melhor Filme Brasileiro no Anima Mundi, Melhor Filme de Animação no Festival de Cinema de Vitória de 2003 e Melhor Filme de Animação no Festival Guarnicê — Brasil de 2004). Atualmente, por sua produtora Marão Filmes, o animador está dirigindo o seu primeiro longa-metragem. Ele nos falou sobre as dificuldades do setor e de como o clima de perseguição pode afetar, inclusive, as próximas gerações de animadores.

Confira abaixo as entrevistas:

Como um animador capta recursos para realizar um projeto de animação? Quais as maiores dificuldades e como elas poderiam ser solucionadas?

Luciana: Existem várias formas de captação. Uma delas é o animador procurar diretamente as empresas que queiram colaborar com o projeto. É uma forma de captar recursos, mas não passa por nenhum projeto público, é dinheiro privado. As outras possibilidades são incentivos indiretos via leis de incentivo fiscal: você aprova o seu projeto e, a partir daí, o governo autoriza o realizador a procurar pessoas jurídicas que façam declaração sobre o lucro real, ou pessoas físicas que vão dedicar uma parcela do seu imposto.

O artigo original 1º da lei 8.685 de 1993, também conhecida como Lei do Audiovisual, prevê a figura do investidor (alguém que compra certificados de investimento do filme) que pode abater do imposto de renda devido desde que não ultrapasse o valor de 1% para pessoas jurídicas, e 3% de pessoa física, e ele ainda pode lançar como despesa operacional. O artigo 1ºA foi criado em 2006 e é igual ao artigo 18 da Lei Rouanet — esse tem a figura do patrocinador, a pessoa pode dar dinheiro para o projeto e abater do que ela tem de pagar de imposto de renda, desde que não ultrapasse o valor de 4% para pessoa jurídica, e 6% para pessoa física.

Para a Lei Rouanet — que não inclui séries muito longas nem longas de ficção — , seria para curtas e médias, e séries de poucos capítulos, e, nesse caso, o teto seria pelo artigo 18 da Lei Rouanet, igual ao artigo do 1º A. Existem ainda as possibilidades de fazer via investimento ou financiamento através do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual), onde o fundo empresta o dinheiro e você devolve em um prazo, com juros (na forma de financiamento). Ou via investimento, quando o FSA vira um investidor do seu projeto. Se o seu projeto ou obra render dinheiro, ele dará lucro para o FSA, e esse dinheiro retorna para outros projetos, o que é muito bom. Em termos de governo do Estado de São Paulo, temos as duas linhas do ProAc, que é tanto a linha do ICMS e a linha de concurso, onde, respectivamente, você pode procurar empresas prestadoras de serviço e circulação de mercadorias, que podem através da autorização do governo estadual, dedicar um pedaço do ICMS devido delas para um projeto, ou via concursos públicos como o Prêmio Estímulo.

O que precisamos observar é que não temos uma auto sustentabilidade para o audiovisual como um todo, que seria com o dinheiro que você ganha com um projeto, seguiria-se a possibilidade de fazer outros. Isso não é uma realidade no Brasil, são raríssimos os casos em que isso acontece. Na realidade brasileira, o animador vai precisar de alguém que vá atrás da captação de recursos, a não ser que ele faça parte dessa exceção que não depende de incentivo direto, ou incentivo público.

Não basta ser apenas um profissional criativo. E para ir atrás desses recursos — considerando que você lida com verba pública — você precisa ter uma série de responsabilidades e cumprir uma série de pré-requisitos. Talvez a dificuldade, em termos de projeto, seja realmente alguém que pense o projeto num ponto de vista mais formal, mais dentro do que as leis determinam.

E realmente, dentro desta guerra que o governo federal estabeleceu com relação às leis de incentivo, você começa a ter problemas de empresas que não querem nem ouvir falar de ter o seu nome associado. Mesmo que tenham o desconto do imposto de renda, elas não querem se sujeitar a serem queimadas publicamente por conta de uma guerra que o governo federal estabeleceu com os artistas no geral.

Você já fez uso de alguma lei de incentivo, ou patrocínio de empresa privada para realizar algum projeto? Como foi a experiência?

Marão: Fiz 14 curtas até hoje, e um pouco mais de 300 trabalhos encomendados de comerciais e esse seria o meu primeiro longa, que, pelo andar da carruagem, imagino que seja o último. E cinco tiveram apoio e fomento e patrocínio, o restante não.

A grande diferença é que quando você tem algum tipo e apoio — que, de novo, não é uma mamata, nem o que vai deixar você rico. Na verdade, em geral, é sempre proporcionalmente muito menos do que você receberia para fazer publicidade e propaganda — em que eu podia finalmente pagar as pessoas. Podia pagar pelo trabalho que elas estavam fazendo. [Mas] é tão importante passar por essa experiência [da realização dos curtas]. O resto do mundo inteiro e o Brasil durante duas décadas entenderam isso também. E um monte de estúdios grandes, como a Pixar, entendem isso e estimulam a produção dos curtas porque isso faz toda a diferença para o que for produzido depois.

Por que você acha que os recursos de incentivo são tão mal vistos pela classe política e por determinados grupos da sociedade?

Luciana: A arte para essas pessoas é perigosa, historicamente sabemos que os primeiros atacados são os artistas — além dos trabalhadores em geral. Então, se criou com uma série de mentiras e desinformações: uma raiva com relação aos artistas como se eles não trabalhassem, como se eles não produzissem para o país. Isso não se sustenta. Além da discussão do valor simbólico, com políticas públicas que garantam o valor simbólico do nosso povo, [os artistas produzem]a ideia de quem nós somos, as perspectivas, é tanta coisa que a arte cria.

Mas, além disso, do ponto de vista econômico: o audiovisual brasileiro tem rendido em termos de Produto Interno Bruto mais de 2%! Isso é muito acima do que a indústria farmacêutica e a indústria têxtil fazem. Nós estamos crescendo 9% ao ano, apesar de todas as crises. Então, nem economicamente é possível dizer que não deve ter incentivo, porque a gente retorna para o país. São 330.000 empregos!

O que esse governo está fazendo agora é destruir toda a cultura do Brasil em termos de revanchismo, de medo que não vamos aceitar calados todas as mentiras e a opressão. Porque artista não vai aceitar calado. Eles querem nos destruir por conta disso. E eles conseguiram gerar na opinião pública uma raiva com relação à cultura, como se fôssemos responsáveis pela educação não ser boa no país, como se a cultura não fosse boa. Isso é de um cinismo atroz. As mesmas pessoas que dizem que não precisam de arte e de cultura são as que assistem seriados o tempo inteiro, que assistem novelas. É impossível ter alguém que esteja alijado de assistir alguma coisa ligada à arte. Eles trabalham com a ignorância, a raiva deles vem do fato de não aceitarmos as coisas calados.

O que você acha que o governo Bolsonaro não está levando em conta nestas novas medidas como novo teto da Lei Rouanet e cortes de bolsas de estudo?

Luciana: Primeiro, vamos deixar claro: eles não estão alterando a Lei Rouanet. Isso é uma mentira. A lei não foi mexida em nada. O que se lançou foi uma nova Instrução Normativa, que todos os governos normalmente lançam. Já teve várias em relação à Lei Rouanet, por exemplo, que são as formas de procedimento. Então, o que essa Instrução Normativa está fazendo é mudar algumas formas de procedimento e mudar o teto. E, realmente, essa mudança de teto vai prejudicar muita gente mesmo. Porque são tetos extremamente baixos.

Marão: A maioria das pessoas que trabalha com audiovisual e animação no Brasil sobrevive recebendo $2500, $3000 reais por mês, trabalhando sem parar. Ao contrário do que é mentirosamente e equivocadamente repetido: as pessoas não recebem um milhão de reais para não fazer nada. Para falar a verdade, a esmagadora maioria de todas as pessoas que trabalha com audiovisual trabalha muito, o tempo inteiro, e ganha muito pouco.

O que acontece, repetindo e compartilhando informações falsas e equivocadas sobre alguns nomes específicos, é essa perseguição totalmente errada de que somos todos vagabundos que estamos todos na “mamata”. Não vai acabar a “mamata”, não tem “mamata”. Vai acabar o trabalho. Ninguém que trabalha de domingo a domingo, sem parar, durante anos sem férias e sem fins de semana pra receber 2500, 3000 por mês durante décadas [está na “mamata”]. “Mamata” é outra coisa. O que vai acontecer é que 330 mil pessoas correm o risco de ficarem desempregadas num país que já está lotado de gente desempregada.

Quais são os efeitos que você prevê que estas novas medidas na indústria da animação? Acha que podemos encontrar novas formas de financiamento?

Luciana: Acho que precisa separar algumas coisas nessa história. Primeiro: a indústria da animação não precisa da Lei Rouanet diretamente. A Lei Rouanet indiretamente influencia porque ela abre caminho para novos atores da animação entrarem no mercado e se tornarem conhecidos, como em mostrais e festivais,que também dependem de políticas públicas. Mas estamos nos referindo a curtas e médias. Ela não altera a indústria da animação que vive de séries e longas metragens. Ela não altera porque efetivamente não pode entrar com esses projetos na Lei Rouanet.

O que realmente está colocando em risco a indústria da animação e do audiovisual no Brasil é que o Tribunal de Contas da União questionou e condenou a Ancine por estar fazendo um tipo de análise de prestação de contas que ela vem fazendo há anos, e inclusive com acompanhamento da Corregedoria Geral da União com uma série de instruções normativas, com um decreto presidencial.

Ela começou a adotar o procedimento do “Ancine+Simples”, e agora o TCU disse que está tudo errado. E disse que a Ancine, enquanto ela não comprovar que consegue analisar as prestações de contas nos moldes que o TCU está pedindo — inclusive questionando uma série de práticas que são históricas como ter alimentação e transporte para a equipe — , ela não pode mais repassar nenhum dinheiro. Agora o TCU diz que “não é bem assim”, que não mandou suspender os repasses, e a diretoria da agência rebate,dizendo que não se sente segura em aprovar projetos cujos procedimentos estão sendo negados pelo TCU, que isso poderá prejudicar seriamente os servidores envolvidos.

[Nota da Redação: Conforme a própria Ancine, “a ANCINE + Simples é um plano de ações para a qualificação da gestão do financiamento público do audiovisual. A eliminação do retrabalho, a qualificação das análises e decisões da Agência, a redução dos prazos com aumento da produtividade, o aperfeiçoamento dos controles materiais e formais sobre as operações financeiras, a ampliação da transparência e do uso de ferramentas mais modernas de gestão são alguns dos elementos e objetivos que norteiam iniciativas pautadas pela simplificação.”]

Essa determinação de que a Ancine não tem condições de analisar a quantidade de prestação de contas significa basicamente que a indústria como um todo cresceu muito, e a Ancine não cresceu proporcionalmente. Ela não cresceu porque não pode mais abrir concurso público para servidores. Então, nem é culpa da Ancine ela não ter mais servidores. Isso está dentro de uma deliberação de política pública.

Ao mesmo tempo, cresceu o número de projetos, de produções, e isso é maravilhoso! Por isso que ela adotou esse procedimento do Ancine+Simples. Mas com o Acórdão do TCU, a Ancine interpretou que o correto é suspender os repasses com dinheiro indireto, via lei do audiovisual, ou direto através do FSA. Isso significa sim, matar a indústria do audiovisual, incluindo a da animação como um todo no Brasil. O que, novamente, é uma burrice. A gente rende muito dinheiro para o país. Sim, estamos sob ataque, sim, e ainda não sabemos o que fazer. Mas estamos todos nos mobilizando para tentar reverter esse quadro, porque o que o TCU está determinando é infactível.

Marão: Se além da Petrobras, o BNDES e o FSA zerarem todo tipo de apoio ao audiovisual no Brasil, e se essas leis caírem também, será uma avalanche de empresas que vão fechar. Estou com 47 anos agora. Pela primeira vez estou vendo cursos de animação. Pessoas que prestam vestibular para cursos de animação e estudam animação. Se eu estou preocupado com o meu futuro imediato, estou arrasado com o que imagino que é a hipótese dessas pessoas que não saíram da faculdade ainda.

O que esse “desgoverno” está fazendo é dilacerar e destruir o mercado de trabalho antes dessas pessoas entrarem e começarem a trabalhar. Pela primeira vez, com muita alegria, estava vendo, nesses vinte e cinco anos de carreira com animação, uma faceta acadêmica da animação no Brasil. Pessoas que estudam animação, que desenvolvem teses de mestrado e doutorado sobre animação brasileira. E pessoas que estão trabalhando dentro do meio acadêmico dando aula. Se acaba o apoio, se acabam os mecanismos, se acaba a obrigatoriedade de exibição, se acaba a proteção ao que é feito aqui no Brasil, não tem mais trabalho. E essas pessoas que estão estudando não vão mais estudar, não terá mais interesse pelos cursos. E não terá mais trabalho para quem está trabalhando, dando aula, ensinando animação. O grande plano é eliminar tudo. Vão acabar com os filmes, com as produtoras, com os alunos, com os profissionais, com os professores, com as escolas.

A sua produção já está sendo afetada por essas medidas?

Marão: Tudo isso está afetando todo mundo. Estou trabalhando dia e noite, de domingo a domingo, sem parar. Estamos fazendo um longa de baixíssimo orçamento em relação a qualquer longa do Brasil, quem dirá fora do Brasil.

E, por exemplo, se o Acórdão do TCU for aprovado, eu tenho mais dois anos de trabalho, e não posso mais receber pelo meu trabalho, terei de trabalhar pelos próximos dois anos desenhando sem parar, estou acumulando diversas funções no filme, principalmente de animador.

Um dos itens do Acórdão do TCU é que um sócio da empresa proponente do projeto não pode receber por nenhuma função do projeto. É muito raro que um dos sócios da empresa proponente não seja o diretor ou o roteirista, ou tenha alguma função no projeto. Mas, se for aprovado, não posso receber nada, continuarei a trabalhar sem Páscoa, sem Natal, sem família, sem receber. Porque na cabeça deles, se eu sou sócio da empresa proponente, eu não posso receber por isso. E pior: se a retroatividade do Acórdão for aprovada, quer dizer que eu preciso devolver o dinheiro dos meus dois últimos anos de trabalho, corrigido. A proposta é acabar, falir todo mundo.

Como você acha que podemos responder à essas medidas do governo?

Marão: A maneira de responder é continuar a realizar, produzir. É o que está acontecendo hoje, que é essa movimentação de todo mundo da área tentando se manifestar. É tanta loucura que você conversa com 300 pessoas do país inteiro num grupo de WhatsApp formado para poder falar do que está acontecendo, prepara uma carta, prepara uma ação, e, no dia seguinte, antes de tudo estar encaminhado, já mudou tudo de novo.
Está tudo uma loucura muito grande. E tem esse monte de gente que está preocupadíssimo com o futuro imediato, gente que está indo embora do país. Mas a reação precisa ser ficar e brigar. Ir às ruas. Mas serão próximos quatro — ou oito — anos bem difíceis.

Esta é uma matéria especial para a parceria entre LabJor FAAP e NEW ORDER, no desenvolvimento da TEMÁTICA 03: ACESSO À CULTURA.

André Barroso é estudante do sétimo semestre do curso de Animação da FAAP e repórter do LabJor FAAP.

Rafaella Milani é estudante do sétimo semestre do curso de Animação da FAAP, ilustradora, animadora 2D e artista storyboard.

Colaborou na edição Larissa Rufato Tosi, editora do LabJor FAAP. Edição e supervisão por Edilamar Galvão, coordenadora do curso de Jornalismo da FAAP.

Nota: esta reportagem foi editada, e atualizada.