As veias abertas do mundo — O que faremos nessa insana Guerra?

Guernica (1937) — Pablo Picasso (1881–1973)

A arma está em suas mãos, faltam munições e seu comandante não sabe o que fazer, confuso, não tem noção do próximo passo, sua vida, sua vida está diante dessa imensidão desértica em que escuta ao fundo gritos das vítimas no chão. Seu pensamento vacila, tontura, desespero e choro. Apenas imagina por um momento como seria a paz, te prometeram prosperidade, uma praia com o barulho de ondas e uma infindável tranquilidade.

Te prometeram o paraíso, mas todos os dias te entregam o inferno.

Essa Guerra começou tempos atrás, travada nas sombras de outras guerras, com homens e mulheres, com milhares de mortos. A insana Guerra… Ninguém sabe quando vai terminar, mas o século XXI experimenta um tenebroso capítulo dessa investida bélica, estamos diante de um curioso espetáculo de destruição das potências humanas e da ideia progressista da liberdade individual. Um pequeno grupo de terríveis buscam dois ativos: poder e manutenção.

A fórmula é simples, evita-se tudo aquilo que tem som de evolução e apenas se separa o joio do trigo.

A determinação desses grupos na investida desse projeto começou — como eu disse -, anos atrás, quando de repente perceberam que o poder era algo importante demais para ficar na mão de muitos. Esses tinham a noção exata da dimensão falha da humanidade, do homem. Apesar da evolução rápida da espécie dominante, a evolução marcada através de uma distinção de caça e fúria, um rápido rasgo na pele de qualquer outro animal e o homem era escolhido automaticamente como espécie topo — Foi um acidente? Narrativa talvez sem pé nem cabeça para alguns, principalmente aqueles que buscam um revisionismo histórico, tudo está sob julgamento dos que agora contam a história, os vencedores.

O século XXI é simplesmente incrível dentro dessa história universal, Ele que ainda é escrito, condensa certamente a maior barbárie técnica de todas, pois com racionalidade quer de todas as formas justificar mortes, torturas e demais violências.

O pensamento pode vacilar nesses momentos, é normal que tantos argumentos comecem a fazer sentido depois de tanta repetição, mas nessa hora é necessário um golpe de lucidez, por mais que seja difícil. As batalhas são travadas no silêncio da noite, quando seus agentes repressores não podem mais observar, não é preciso câmeras e qualquer outro aparato para uma sociedade distópica, é necessário apenas pessoas. Os outros nesse caso são o inferno.

Diante desse arsenal, é preciso estratégia, porém a Guerra está na metade e perdemos praticamente todas as batalhas até agora — Digo ‘perdemos’, pois já tomei um lado, e certamente não é o lado dos vencedores.

A Guerra atualmente está em avançado estágio, e tem como objetivo central determinar rumos para a educação. É um processo delicado, que requer paciência e tempo, não é o objetivo principal, mas certamente um dos mais importantes. A Guerra continua em outros lados, ela tem que atacar outros front’s. É especificamente aqui que entramos no terreno mais sombrio da Guerra, o cenário devastado dos adultos com problemas, dos poderosos, dos trabalhadores, consumidores e tudo o mais que for classificado acima da idade mínima.

A estratégia atual é tão confusa que dá certo, começou faz pouco tempo e tem produzido excelentes resultados. Os alvos? Tudo que foi produzido da década de 60 até agora. Não foi propriamente nenhum dos polos ideológicos que tomou para si as lutas de classe e gênero, mas sim uma imposição particular e mais ou menos organizada de um anseio comum, um sentimento intenso de mudança no cotidiano que tinha como referência máxima a destruição do símbolo masculino como detentor da sabedoria, força e coragem — e leia-se: o masculino branco.

O masculino branco sentiu-se rapidamente ofendido por três instâncias: mulheres, negros e homossexuais.

Não se admitia para um branco hétero católico ser sub-gênero. Sua posição era o topo, e era preciso legitimar de todas as maneiras esse pensamento. A supremacia branca surgiu como uma das maiores forças no século XX, era preciso exterminar, humilhar, massacrar, menosprezar e dizimar aqueles que fossem contra esse ideário.

A figura ideal era: homem, branco, meia-idade, bom emprego, possuir bens e dinheiro, ser casado e ter filhos, moral e ética, religioso, fiel aos desígnios e mistérios do universo. Seguir o curso dessa vida até sua morte, não trair e nem mesmo regredir. Essa figura ideal caiu por terra, mas os seus seguidores não admitiram esse revés.

De 1960 até 2018, foram mortos milhares de negros, milhares de mulheres, milhares de índios e milhares de homossexuais. Tudo que fosse avesso ao masculino branco teria que ser destruído.

As figuras posteriores de resistência foram surgindo, sobrevivendo ao holocausto particular e diário. Vozes de resistência surgiam e eram caladas, lutavam contra essa percepção absurda de um mundo branco com apenas um gênero, mas devemos lembrar que esse antigo grupo conquistou o poder e a manutenção, e essas duas coisas fazem uma diferença enorme.

Toda a forma de cultura produzida nesse meio tempo tem como objetivo destruir essa lógica, mas a resistência ao avanço e progresso é tão grande que pequenas vitórias são sentenciadas, e é preciso o passar do tempo para que esse avanços sejam sentidos: quantos negros ganharam um oscar? quantas diretores mulheres ganharam um oscar? quantos homossexuais são representados no cinema e na arte?

A resposta para essas perguntas são tão pequenas comparadas a contra-partida do modelo de identidade de gênero padrão. E o atual momento dessa Guerra está em computar todas as artes e culturas como um demoníaco símbolo de perversão, como se todo esse avanço fosse obra de alguma entidade maligna. Nada que não seja padrão merece reconhecimento, a opinião e expressão contrária é suspensa, a atitude maior dessa Guerra é calar e censurar minorias e diferentes, num exercício diário de um abismo que acumula almas destruídas e talentos desperdiçados.

O Brasil é um desses campos de batalha, e tem uma relativa importância. A meta? Destruir aqueles que não vão se adaptar e escravizar os que conseguem se adaptar. A resistência é confusa e sem nexo, muitos não entenderam que estamos na Guerra. Esse texto é apenas um alerta, um convite para a reflexão daqueles que ainda estão perdidos. Essa Guerra é absurda e diária, e tem como único objetivo uma escalada global diante de um pensamento de mundo atrasado e surreal. A necessidade aqui é conter o avanço desse atraso e explicar aos surdos, cegos e mudos o que o progresso é.