As verdades nada secretas de Verdades Secretas

Entre acertos e erros, trama de Walcyr Carrasco salva ano ruim da teledramaturgia global; modelo enxuto crava o óbvio: o público tem interesse por novelas curtas

(com sempre precisos prints de @RealitySocial e @revistaabsurda, lá do Twitter. Sem eles, este texto não seria o mesmo. É pra seguir agora!)

Atualização em 28/9, às 12h37: Depois do último capítulo, pipocaram análises, assim como esta. Entre elas, questionamentos a respeito da “inconclusão” de tramas, como a reação de Pia (Guilhermina Guinle) e Giovanna (Agatha Moreira) em relação à morte de Alex (Rodrigo Lombardi), perícia no barco, Fanny (Marieta Severo) e o book rosa, enfim…

Mania do telespectador brasileiro, parece que a conclusão de tramas deve ser obrigatória. Discordo. Acho mais interessante ficar no imaginário: Fanny pode ou não ter continuado com o book rosa (mesmo depois da morte de uma modelo); Angel (Camila Queiroz) terminou casada, mas livrou-se de qualquer acusação (pensando nas incongruências da justiça brasileira), e por aí vai. Desses “finais conclusivos”, o único que não me agradou foi Larissa (Grazi Massafera) ter virado missionária. Seria mais interessante (aí, uma opinião estritamente pessoal) continuar vê-la vagando na Cracolândia, sem rumo, como muitos que se afundam no crack.

Outro detalhe interessante de Verdades Secretas diz respeito à sua audiência. Esta, ultimamente tão volúvel (rejeitou o beijo gay de Babilônia, aceitou os temas de Verdades Secretas, comprou a trama simples de Os Dez Mandamentos), rendeu à trama de Walcyr Carrasco a melhor média geral entre as tramas das onze, exibidas desde 2011, com 20 pontos. Antes remakes de novelas que marcaram época, Verdades Secretas inaugurou o ineditismo no horário.

É mais uma contundente prova de que o público aceita — e quer — novelas mais enxutas, com menos capítulos e personagens. Ainda que Verdades Secretas tenha apelado para uma infinidade de temas que geraram mais buzz que reflexão ou profundidade, a trama aponta (novamente, assim como O Astro em 2011), o caminho sem volta para a produção de teledramaturgia no Brasil.

Direção. Todo o mérito da qualidade e do buzz gerado por Verdades Secretas deve ser creditado a Mauro Mendonça Filho. O diretor, que inaugurou o horário das onze com O Astro, mostrou um novo caminho para o futuro das novelas no Brasil: mais curtas, enxutas e com qualidade/ritmo de série. Agora, com a primeira novela inédita no horário (as anteriores foram remakes de tramas históricas), Mendonça marca novamente seu nome e coloca mais um tijolo para um modelo que deve ser consolidado em todos os outros horários.

A direção precisa conseguiu contornar os problemas do produto, como o texto por vezes impreciso e exagerado do autor Walcyr Carrasco. Ainda que a trama mantenha características fundamentais da carpintaria da telenovela, Mendonça deu nova cara e vigor a um produto que, atualmente, passa por uma crise de identidade. Mas cometeu erros, como o uso excessivo de trilhas incidentais. No afã de transmitir emoção, acaba por mascarar, por vezes, a pobreza de uma cena; ou passar uma sensação forçada ao telespectador, quando o silêncio — a TV brasileira não sabe o valor que isso tem — seria muito mais eficiente. E até mais emocionante.

Elenco. Os grandes nomes não precisam de mais comentários. Marieta Severo (Fanny), Eva Wilma (Fábia), Ana Lúcia Torre (Hilda) e, sobretudo, Drica Moraes, não precisam provar seus talentos. A cena em que Carolina se suicida só não é antológica por conta da trilha incidental (como disse acima). Mas é histórica. Suicídios são raros na TV.

Já a estreante Camila Queiroz (Arlete/Angel), segurou a pressão e será figura fácil nas próximas produções. As cenas finais — em que Angel, depois de assassinar Alex (o inconstante e, por vezes, canastrão Rodrigo Lombardi), se casa com Gui (Gabriel Leone) com a cara mais sórdida possível — vão ficar na memória de quem acompanhou a trama.

Por fim, Grazi Massafera. Larissa, modelo decadente que tornou-se uma viciada em crack, foi de uma entrega total ao papel. Ainda que a direção e a maquiagem tenham contribuído bastante para o buzz gerado, Grazi mostrou sua evolução de forma precisa. Aqui, um porém — e volto às imprecisões da direção: as cenas na Cracolândia, muito bem produzidas, pecaram algumas vezes pelo exagero nas trilhas.

Um tom excessivamente dramático que não precisaria. As cenas foram chocantes e emocionantes por si sós. Apenas o final — torna-se uma missionária evangélica — não me agradou. Gostaria de vê-la na Cracolândia, sem um “final”. Mas, é novela, e faz parte da essência do produto. Uma pena que Grazi contracenou com um parceiro sem potencial dramático. Roy (Flávio Tolezani) foi mecânico demais. Impressionou apenas em sua última cena — graças à maquiagem.

Temas. Se por um lado os temas levantados pela trama foram ousados, estes não levam a uma reflexão mais precisa. Na ânsia de abraçar o mundo — book rosa (o chamariz inicial, o “universo das modelos”), vício (o buzz de Larissa), alcoolismo, aborto, sexualidade, pedofilia (este pouquíssimo mencionado, quando Angel era uma menor de idade e se envolvia com Alex) — Verdades Secretas poderia ter funcionado com uma “limpa”.

A trama de Fábia (Eva Wilma) foi tratada, inicialmente, de maneira tacanha. Idosa e alcoolatra, o drama foi ganhando contornos mais sérios com o decorrer dos capítulos. Essa impressão inicial ficou ainda mais forte depois da emissora ter exibido a série Os Experientes (leia mais aqui). Mas, o alcoolismo é uma praga tão forte quanto as drogas: Fábia termina internada em uma clínica de repouso, e consegue bebida ilegalmente.

O book rosa, que foi o chamariz inicial, não é uma certa novidade. O mundo das modelos há muito já não é fascinante, não causa a mesma curiosidade de outrora. Passada a fase da prostituição, o book rosa tornou-se algo mais comum do que ousado. A espivetada Giovanna (Agahta Moreira, seguríssima) deu o tom, e finalizou sua história ao seu modo, que permeou toda a trama da garota: com Anthony e Maurice Argent. Uma relação à três?

O vício também permeou os mais jovens. E entregou, na minha modesta opinião, uma das cenas mais marcantes da trama: a overdose de Bruno (João Vitor Silva). Desiludido pelo pai, procura Sam (Felipe de Carolis), um traficante, e se joga na cocaína. Na cena, o silêncio. Sem os gritos de Pia (Guilhermina Guinle; a personagem abortou e, no final, se redime e deseja ter um filho), sem os grunhidos de Bruno. Uma cena exemplar:

No início de Verdades Secretas, o núcleo escolar pareceu uma emulação de Malhação. Enfadonha, não empolgava. Mas criou corpo, e retratou as verdades nada secretas de uma juventude tresloucada. Nesse bolo, ainda foi falado de obesidade, com Eziel (Felipe Hintze).

Os rótulos foram mostrados e quebrados. Mas usando estereótipos. Visky (Rainer Cadete, a libélula tresloucada) e Lourdeca (Dida Camero) mostraram que a sexualidade não aceita rótulos. Afinal, Visky é um gay que se relacionou várias vezes com uma mulher. E ela, afinal, também sentia-se atraída pela “libélula”.

Os rótulos caíram, em um exemplo que combate o preconceito. Mas, sem estereótipos — tão comuns nas novelas de Walcyr Carrasco — , o resultado poderia ter sido muito melhor e elucidante.

Nudez. Esta, de forma alguma, foi castigada. Verdades Secretas mostrou um arsenal de bundas (inclusive masculinas, tão raras em tempos conservadores) e peitos jamais visto na TV aberta. Um ponto positivo da trama e da direção, que soube conduzir com naturalidade todas as cenas com alta carga e tensão sexual.

A ousadia — que a mídia insistem em bater nessa tecla — deu lugar ao natural, ao comum. E rendeu cenas belíssimas, como o striptease de Angel. Outra cena — aí, sim, com certa ousadia — foi a dominação de Anthony (Reynaldo Gianechinni) sob Maurice Argent (Fernando Eiras). Sinceramente, é impossível descrever a cena.

Diálogos. Ainda que Walcyr Carrasco tenha apresentado sua melhor trama até então, o autor ainda mantém características que incomodam. Exageros e didatismos foram comuns, além de situações absurdas — mas, quem disse que elas não acontecem? O interesseiro pai de Angel (Rogério, de Tarcísio Filho) é um exemplo: no último capítulo, não se conteve e praticamente leiloou a filha, mesmo depois da morte de Carolina.

Ritmo. Graças à direção precisa, a trama de Verdades Secretas se desenrolou sem grandes sustos. Não criou barrigas, não se estendeu demais, nem acelerou demais — mesmo em seus últimos capítulos. Os 64 capítulos, com bons ganchos e tempo de arte menor do que as outras tradicionais novelas, mostram que este é um caminho sem volta e que pode — e deve — funcionar em outros horários. É a maneira de resgatar o interesse do público, que fugiu para as séries e minisséries. Estas, obviamente mais enxutas e com muito mais qualidade de produção e textual. Verdades Secretas é um exemplo de que o público ainda gosta de novelas — um sucesso, mesmo em um horário tardio — e que tem mais paciência, tempo e disponibilidade para acompanhar 64 capítulos do que 170. Ainda assim, terminada a trama, acredito que seria muito mais eficiente se fosse uma série. E com, pelo menos, duas temporadas.

Final. O último capítulo ficará na história da teledramaturgia por ser extremamente coeso e forte. Mortes, sangue, tensão. Temas que me agradam bastante, foram mostrados sem cerimônia.

E mostrou que a grande vilã de Verdades Secretas sempre foi aquela que nos enganou por 63 capítulos.


Guardem este rosto. Ele representa as verdades secretas que todos temos — ou aquelas que fingimos ter.

Angel.

Guardem este nome.


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