Até logo

Fiz oitenta e dois anos recentemente. Perdi o amor da minha vida há quinze e desde essa época minha rotina é a mesma. Acordo dez da manhã, tomo meu café com pão e leio o jornal. Gosto de ler as notícias do meu Flamengo na seção de Esportes que ainda sobrevive no jornal impresso que só emagrece. Sou do tempo que o jornal era gordo e os dedos ficavam pretos ao final da leitura. Adorava ler o Millor. Depois de ler o jornal, limpo a gaiola do Zico, meu canarinho que também já está velho e não canta mais.

Após o almoço, pego um livro e continuo minha leitura. O médico me aconselhou ler diariamente para evitar as doenças da cabeça. Estou lendo um livro que ganhei do meu filho. Todos os meses ele me dá um novo. Esse que estou lendo é ótimo, foi um menino da favela quem escreveu. Me divirto! Lembro da minha juventude e do tempo que morava em Inhaúma e frequentava o Cacique de Ramos. Tempo bom. Hoje moro com minha filha mais velha. Quem diria que um dia sairia do meu canto para morar com um filho. Costumo dormir cedo para não incomodar, exceto nos dias de jogos na TV.

Hoje foi diferente. Minha filha ligou e pediu para que eu buscasse meu bisneto na escola, que fica na mesma rua onde moro. Estava chovendo e frio. Por volta de cinco da tarde minha sensação era de que fazia cinco graus. Impossível para o Rio de Janeiro, mas com o passar do tempo, sinto cada vez mais frio. Sair com chuva, ao escurecer e com tanto frio, para um velho como eu, é uma aventura. Mas não consigo dizer não, nem para ela e muito menos para minhas netas.

Me agasalhei, peguei meu gorro, meu guarda chuva e coloquei no bolso o chocolate que sempre levo quando pego ele na escola. Peguei o elevador com medo como de costume, cumprimentei os porteiros e saí do prédio. O som alto das buzinas estridentes me deram as boas vindas e um vento frio entrou pelo meu casaco. Caminhava tranquilo em direção a escola esperando que uma leve tontura passasse. Me acostumei com tonturas. Sempre que saio de casa, elas aparecem. Engraçado que quando bebia e fumava não sentia nada e agora que não bebo e nem fumo, fico tonto. Ficar velho é uma merda! Andei por vinte metros e nada da tontura passar. Parei para respirar fundo, o vento parecia congelar meus pulmões. Voltei a andar um pouco mais depressa por causa do horário, escorreguei e caí.

Não deu tempo de colocar as mãos no chão para diminuir o impacto. Meu reflexo já não é mais o mesmo. Bati com a cabeça. Tentei me levantar e não tive forças. Me virei e fiquei com a barriga para cima. Abri os olhos e vi umas cinco pessoas me olhando aflitas. Percebi que falavam alguma coisa, mas eu não conseguia escutar. Senti algo quente embaixo de mim. Era sangue que saía da minha cabeça, escorria por baixo do meu corpo e esquentava minhas costas. Mais pessoas se amontoaram. Acredito que eu estava a uns dez metros da escola do meu bisneto. O porteiro da escola me conhecia e eu torcia para que ele me visse ali caído e avisasse meu netinho para que não me esperasse chegar. Dessa vez eu não ia conseguir pega-lo e sei como ele ficaria triste em não ver ninguém lá. O chocolate dele estava molhado no meu bolso. Acho que isso tudo aconteceu em menos de cinco minutos.

Deitado, notei que a porta da escola enchia de gente. As crianças que saíam me olhavam assustadas. Outras desviavam o olhar. Eu tentava pedir ajuda para levantar, mas não conseguia falar. Era uma sensação estranha de impedimento que eu nunca tinha sentido. Interrompendo o barulho intenso das buzinas, ouvi o som de uma sirene que aumentava a medida que se aproximava. Notei que era pra mim. A noite chegou e com ela fechei os olhos.

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