Fonte: giphy

Até que ponto vamos permitir a avaliação dos outros?

Seu like de hoje é a moeda de amanhã

No mês passado tivemos a brilhante estreia de uma nova temporada da série “Black Mirror” na Netflix, que já vem há alguns anos simulando situações limite provenientes da relação raça humana-tecnologia. O primeiro episódio desta nova leva, nos traz uma discussão relevante quanto às classificações que vamos distribuindo (sem nenhum peso na consciência) pela internet à fora.

Temos como grande exemplo: a Uber (acredito eu que deve ter sido uma das grandes inspirações pra esse episódio), que instituiu um sistema de classificações dos motoristas feito pelos próprios usuários, onde baixas classificações podem significar menos prestígio, o que acarreta em menos corridas e às vezes até na exclusão do motorista da plataforma.

Essa é uma “feature” muito elogiada e criticada pois ao mesmo tempo que observamos um resumo da opinião da comunidade sobre uma pessoa, não estamos dispostos a ouvir os “porquês” das notas, que podem ser as mais diversas razões (uma vez um motorista do Uber me contou que uma senhora de idade dava uma estrela pra todos os motoristas por que achava que era a nota máxima, quem trocou cinco minutos de conversa com alguém que trabalhe com a Uber sabe que isso prejudica MUITO).

Isso é só uma das esferas em que a avaliação acaba sendo crucial para definir a qualidade e perpetuação de qualquer empreendimento nos dias de hoje (quem vai pra algum lugar se hospedar sem antes dar uma checada no trip*dvisor? “Será que aquela loja online é confiável? Vou dar uma olhada no reclam*aqui”).


O cenário desenhado pelo diretor é completamente assustador, elevando as avaliações para um nível extremamente pessoal, mudando a maneira como as pessoas se relacionam umas com as outras e o que elas são capazes de fazer para continuarem incluídas no grupo seleto das 5 estrelas.

Mas, quão distantes estamos dessa realidade? Fazer uma ação desesperada por relevância é realmente uma coisa exclusiva da ficção científica?

Acho que todos nós (escritores, leitores, usuários de mídias sociais, produtores de conteúdo…) sabemos a resposta pra essa pergunta. Não que isso seja um segredo, ser relevante é importante e imagino que seja o objetivo de todos. Então o real questionamento aqui é: onde vamos parar?

Vamos ficar só nos likes inocentes ou o futuro nos reserva uma versão bizarra steampunk do coliseu?

Fonte: giphy

Antes que eu me esqueça, precisamos falar sobre a Bryce.

EXISTEM SPOILERS DO s03e01 DE BLACK MIRROR À PARTIR DAQUI!

Bryce Dallas Howard interpreta Lacie, uma jovem ambiciosa que no final acaba percebendo que a avaliação não é importante. No caminho ela se depara com pessoas que não estão interessadas em como o dia dela está sendo ruim, o quanto de esforço está fazendo pra ser agradável, o que conseguir ser um “4.5” realmente significa, eles só vêem uma menina que por algum motivo não agradou, e quem não agrada não é prestigiado, não é lembrado e acaba sendo esquecido.

Dando um ponto de vista muito pessoal sobre essa questão, o que mais me impressionou nesse episódio foi a representação visual que foi inserida através do figurino da personagem (eu não sou, nem de longe, algum tipo de crítico de cinema mas gosto de tentar interpretar as coisas da minha maneira e ver se fazem algum sentido).

# No começo, Lacie usava roupas que cobriam praticamente todo o seu corpo, escondendo sua “forma” e apresentando uma imagem perfeita, esperando receber feedbacks positivos da sociedade:

Fonte: atorrentofthoughts

# Quando acontece a primeira mudança no seu estilo de se vestir, vemos o vestido do casamento. Lacie invade a festa e seu objetivo principal claramente não é mais conseguir boas avaliações, ou pelo menos foi o que eu pude deduzir, pela maneira que a personagem se apresenta naquele meio (como ela realmente é — fora dos padrões daquela sociedade fictícia — e como ela realmente se sentia — completamente perdida e descontrolada). O discurso final, completamente passional e fora de controle me disse muito sobre a intenção daquela ação, ela só queria ser uma pessoa real. Uma pessoa real que passou por um problema sério de transtorno alimentar e uma pessoa real que teve uma amiga que ajudou ela a superar essa fase, e essa foi a única maneira dela conseguir isso.

(EU ESTOU AQUI! EU EXISTO! EU TENHO SENTIMENTOS!) Fonte: screenertv

# Na última sequência ela se encontra completamente vulnerável, presa em uma cela de vido sem a maioria das roupas, sendo obrigada a expor todos os seus ““““““““defeitos””””””””””, mas daí vem a virada sensacional, quando Lacie percebe que talvez dessa forma seja melhor.

(F*CK YOOOU!) Fonte: neondystopia

Dar o poder de aprovação, dessa forma tão espontânea, para estranhos talvez possa ser uma das piores escolhas que alguém pode fazer. Quem transita no Medium com mais frequência sabe das tantas histórias pessoais de relacionamentos que foram por caminhos trágicos quando a felicidade do parceiro se torna responsabilidade exclusivamente sua — ou vice-versa — (ok, isso é assunto pra outra hora), ninguém possui tal poder pra dizer se o que você faz é realmente bom ou ruim.

Somente quem vive uma situação x ou y sabe o que ela representa na sua vida e por quê faz o que faz. Para nós que estamos de fora basta apenas aceitar, nada de pitaco nem de biscoito scooby.

Se você realmente achar que a sua interferência vai ser válida, busque sempre saber os motivos por trás da ação, empatia é sempre bem-vinda.