Atentado em Paris vs Rompimento de barragem em Mariana: a imbecilidade de quem polariza a desgraça humana

Entenda o caso

Dez meses após o atentado ao semanário Charlie Hebdo, Paris registra mais de 140 mortes em ataques terroristas orquestrados pelo EI (Estado Islâmico), no que já é considerado o pior ato de violência na França desde a Segunda Guerra Mundial.

Antes disso, em Mariana, município de Minas Gerais, um rompimento de barragem deixou um número indeterminado de vítimas fatais e centenas de desabrigados, além dos vários prejuízos ambientais imediatos e outros tantos que estão se revelando gradativamente.

Bento Rodrigues, distrito mais afetado pela catástrofe, desapareceu do mapa. Das 180 casas existentes no local, 158 ficaram destruídas.

Se no caso da França os culpados são evidentemente membros do Estado Islâmico, no Brasil os danos foram provocados por um empreendimento legalmente estabelecido no país.

Dando nome aos bois, a empresa em questão é a Samarco, que, segundo o prefeito de Mariana, responde por 80% da arrecadação tributária da cidade, através do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). Com a paralisação após o “acidente”, a estimativa é que essa arrecadação caia para 30%.

Para maiores informações sobre os dois eventos: Ataques coordenados aterrorizam Paris e deixam ao menos 127 mortos (Folha de S. Paulo); Rompimento de barragens em Mariana: perguntas e respostas (G1); Sobre os danos irreversíveis causados ao Rio Doce (Revista Galileu).

A polarização da tragédia: aspectos da imbecilidade humana

Tão logo surgiram as primeiras notícias sobre o atentado em Paris, os usuários de redes sociais começaram um processo de solidarização para com as vítimas da tragédia e seus familiares, algo inicialmente normal e até mesmo louvável.

No entanto, não demorou muito para que ativistas e críticos em geral se rebelassem contra a comoção pública, já que o noticiário nacional pouco ou nada havia comentado sobre a catástrofe em Minas Gerais — e de fato o assunto vem sendo mantido abafado desde o rompimento da barragem.

A polarização passou a ocupar um terceiro lugar nisso tudo: a tragédia em Minas, o atentado em Paris e, numa zona de indefinição, a polêmica sobre a solidarização seletiva.

Afinal de contas, não deveríamos nos preocupar primeiramente com o que está acontecendo aqui, bem debaixo do nosso nariz?

Outra questão levantada foi no sentido de que a Síria sofre ataques constantemente, de modo que a comoção pública quanto ao ataque recente negligencia todo um histórico de violência sofrido por aquele país.

Por que é que só agora a população se mostrou indignada?

Como se vê, a humanidade chegou em um estado tão precário que já começa a relativizar o sofrimento humano, como se tudo não passasse de uma disputa (política, de futebol ou de egos, escolha o exemplo que achar mais adequado).

É preciso escolher um lado?

Não. Dor é dor, meu caro. A morte é igual para todos, o que muda é a forma, a localização geográfica e as consequências práticas para os sobreviventes. No Brasil, essas consequências são sociais, econômicas e ambientais. Na França são, principalmente, sociais e diplomáticas.

Devemos sim desconstruir “essa tal de indignação seletiva”, mas não podemos fazer disso uma guerrinha imbecil, não em um momento como esse.

O papel da mídia e os interesses envolvidos (ainda que implicitamente)

No caso brasileiro, estamos experimentando um dos maiores desastres ambientais de MG, com danos irreversíveis e grandes consequências, principalmente no que concerne ao abastecimento de água potável em diversas cidades, que dependiam dos rios locais para captação deste recurso.

No caso francês, estávamos já com o botão de alerta ativo, após o que aconteceu ao Charlie Hebdo, mas a tragédia veio em grande escala e, como todo ato de violência brutal, causou indignação e comoção geral.

Dois casos, dois tratamentos distintos pela mídia nacional. Pouco ou nada foi debatido no noticiário brasileiro sobre o rompimento da barragem em Mariana, suas consequências e os possíveis culpados. Tal não foi o posicionamento quanto aos eventos ocorridos em Paris, por uma série de fatores.

Um deles é a questão dos imigrantes.

O Presidente da França, François Hollande, tomou algumas medidas após o atentado, incluindo o fechamento das fronteiras e estabelecimento de estado de alerta, mobilizando as forças de segurança.

Plano Sequência — cinegrafista húngara derruba imigrante

Todos sabemos que a questão dos imigrantes sírios é bastante sensível e que nem todos os países recebem o fluxo de imigrantes de portas abertas (veja o caso da cinegrafista húngara que passou uma rasteira em um imigrante que carregava uma criança — G1).

Se na França a tendência é que a notícia se espalhe o mais rápido possível, para criar um estado de insegurança e reforçar a imagem de um inimigo externo muitíssimo perigoso, capaz de causar dano no mundo inteiro, no Brasil a tendência é inversa: voto de silêncio.

Não se pode condenar o empreendimento minerário, uma vez que ele já domina o município afetado, por meio do poder econômico (80% DA ARRECADAÇÃO TRIBUTÁRIA).

Ou seja, a banda deve continuar tocando.

É interessante para a manutenção da ordem que essa notícia morra o mais rápido possível. E a tragédia em Paris está sendo utilizada nesse sentido.

Mas…

Nos dois casos, morreram pessoas. Gente igual a gente. E não podemos ponderar, relativizar e escolher um lado.

Muito pelo contrário, a atitude correta é lutar para que essas atrocidades não se repitam, nem lá, nem cá.

Polarizar o sofrimento humano é desumano. E ponto.