Bandido bom é bandido morto?

Por que negro pobre é bandido, mas branco rico é influenciado?

PARTE 1: O PROBLEMA DESSE PENSAMENTO

Engraçado né. Quando é um jovem, branco, rico, que sai dirigindo embriagado e mata inocentes, sobra empatia: “Quem nunca bebeu um pouco antes de dirigir? Estava estressado. Más companhias. Separação dos pais…”

Quando um jovem norte americano entra em uma universidade e transforma uma tarde de estudos em um massacre — notícia corriqueira nos Estados Unidos — a mídia encobre: “Ele estava passando por depressão. Foi influenciado pelo Estado Islâmico. Foram os jogos de videogame violentos…”. Não faltam desculpas para amenizar o crime.

Agora, quando um negro pobre comete um crime: “bandido bom é bandido morto”. Sobra amargura e raiva na boca da mídia. Para eles, não pode ter sido a influência negativa do tráfico na favela, a falta de oportunidades na vida, a violência vivenciada todos os dias.


PARTE 2: A SOLUÇÃO DA MAIORIA:

“Vá trabalhar”, diz o raivoso. Porque para a maioria, o homem está cometendo crimes porque não tem mais nada para fazer. Então a solução é simples, ocupá-lo com algum emprego. Mas não se pensa na dificuldade que é encontrar um emprego quando não se teve educação, mora longe demais, não tem as roupas, vocabulário, nem a aparência adequada.

Achar um emprego é mais difícil para quem não tem a mesma vida de quem já tem um bom emprego. Você se lembra como conseguiu o seu emprego? Leu a oportunidade em um jornal? Algum amigo ou familiar indicou? Achou um anúncio na internet? Agora pense como seria difícil se você não tivesse aprendido a ler, não tivesse família, ou internet.

Os caminhos ficam mais estreitos para quem não tem as mesmas oportunidades.

Outra solução simples e eficaz trazida pela massa é a rigidez.

Rigidez. Muitos dizem que o homem é ruim mesmo, que se não colocar limites ele vai cometer crimes. A velha desculpa baseada em Hobbes, “o homem é o lobo do homem”. Fala-se que a falta de severidade nas leis faz com que os criminosos se sintam à vontade para cometer seus delitos. A solução simples seria colocar medo nos possíveis criminosos. Para que eles pensem antes de cometer cada crime e percebam que pode não valer a pena.

Prisão perpétua e pena de morte. São alternativas que constantemente escuto junto com o discurso de rigidez. E eu entendo esse sentimento de revolta. A mídia mostra uma sociedade extremamente violenta, com casos chocantes que nos fazem ter medo de sair na rua. O Brasil vem a cada ano superando seu número absoluto de homicídios. A população quer uma resposta rápida e eficiente para se sentir segura. O discurso coercitivo parece englobar todas as soluções de uma maneira muito simples. É aí que você cai.

Observe: nos Estados Unidos, o número de casos de homicídios em massa não é menor nos estados em que existe pena de morte. O que acontece é o inverso e você pode checar isso aqui ou aqui.

Nos últimos 15 anos, o estado de São Paulo vem reduzindo os casos de homicídio. Mas além do erro do governo na forma de contagem dos casos, Camila Nunes Dias, pesquisadora e autora do livro PCC — Hegemonia Nas Prisões e Monopólio da Violência, vê que as ações repressivas do governo não têm nada a ver com isso. Não é a “integração da polícia” nem o “investimento em armamento” apontado pelo governo Alckmin.

A queda no número de homicídios é justificada pelo monopólio organizado das atividades criminosas do Primeiro Comando da Capital (PCC), com isso, não existe disputa de facções criminosas. “Como em São Paulo não tem disputas, ou há muito pouco, porque o Primeiro Comando da Capital (PCC) domina esse comércio e outras atividades ilícitas também, essa redução dos homicídios está vinculada a isso” — diz a pesquisadora.

Então, a tática de coação sempre feita pelo governo como uma mensagem para a população que “temos tudo sob controle”, não vem resultando em uma diminuição nos índices de violência.

É uma vergonha pensar que o número de homicídios diminuiu porque uma facção criminosa está maior do que nunca.


PARTE 3: COMO EU VEJO OS CRIMES

Dentro de cada sociedade existem direitos e deveres. Esses direitos e deveres são aqueles que constam em nossa constituição. Estão lá para garantir que vivamos harmoniosamente e que todos sejam parte da sociedade. Direito de ir e vir, direito de uma saúde de qualidade, direito de votar. Em contrapartida temos nossos deveres. Dever de pagar nossos impostos, não roubar, não agredir o outro.

São as regras do jogo. Cada sociedade tem regras que se adequam às necessidades de sua população (ou pelo menos deveria). Ao longo do tempo essas regras tendem a mudar para se ajustar às necessidades de seus participantes (ou pelo menos deveria).

Então, por que ocorrem os crimes?

Você faz parte de uma sociedade e sabe disso. Não é a primeira coisa que pensamos quando acordamos, mas lá no fundo nos sentimos parte dessa sociedade. Sabemos que recebemos os direitos que estão dispostos na constituição. Inclusive, quando não recebemos ou quando algo/alguém os fere, recorremos a um advogado para reivindica-los.

Portanto, seguimos as regras do jogo porque sabemos que fazemos parte desta sociedade.

Mas, a partir do momento em que um indivíduo não se sente parte desta sociedade porque não se vê recebendo os mesmos direitos, porque cumprir com seus deveres? O homem não segue as regras do jogo quando não se sente parte do jogo. Se não recebo os mesmos direitos, não preciso exercer os mesmos deveres, pois, não sou parte dessa sociedade, então as regras não se aplicam a mim.

Não é como se um criminoso falasse isso antes de dormir, ou para justificar seus atos. Mas é esse o sentimento que se traduz em crimes.

E essa explicação não serve apenas para o indivíduo que está na periferia, ela também serve para os afortunados. O pobre não comete mais crimes que o rico. A diferença é que, quando há infração, os ricos têm bons advogados e os pobres não.

Alguns pobres, por não se sentirem parte da sociedade, não seguem suas regras. Mas a mesma coisa vale para alguns ricos que aceleram no sinal vermelho com suas Ferraris pois se sentem superiores — e não parte — daquele mar de carros populares. Evasão fiscal também é crime, suborno, fraude, extorsão, corrupção. Crimes de colarinho branco que pouco se fala e pune.

E eles estão por aí. Enquanto o pobre espera para responder seu crime na cadeia, o rico paga sua fiança ou seu habeas corpus— que custa cerca de 12.000 reais — e responde seus crimes em liberdade. E eu nem estou falando na quantidade de crimes que é resolvida por baixo dos panos comprando policiais, delegados, juízes.

Bom, não estou aqui para defender bandidos. Nem medir que um crime é maior do que o outro. Eu estou aqui para lhe dizer que na próxima vez que você for noticiado de um crime, não coloque seus preconceitos na frente do problema. O buraco é mais em baixo.


CONCLUINDO…

Lá no começo eu falei sobre as diferenças de julgamento para com quem comete os crimes. Essa diferença acontece pela falta de empatia. Você, de classe média, só consegue imaginar a vida que um criminoso teve que levar. E quando imagina, imagina por 30 segundos e acha que é o suficiente. Esquece que o dia a dia é sempre mais duro.

É muito mais fácil amortecer o crime de alguém que vive uma vida parecida com a sua.

O problema não é apenas a impunidade, a falta de controle ou falta de rigidez das leis. O problema maior é a injustiça social. Essa sim nos coloca distante dos outros e nos faz julgar cada um de forma diferente. Sempre colocando na frente a raça, a classe social, o local aonde mora.

Sua sociedade não vai mudar se você não colocar todos os indivíduos para dentro dela. Não vai ser uma polícia repressiva ou leis mais rígidas que farão melhorias duradouras e sustentáveis.

Esqueça os discursos opressores. Não existe fórmula mágica e fácil para diminuir a criminalidade. Não adianta mudar as leis dessa sociedade querendo punir mais os criminosos -que são pegos-. Ao invés disso deve-se expandir os direitos e oportunidades de forma igualitária, e exigir que todos cumpram os deveres.

Agora respondendo as duas perguntas do início:

Bandido bom é bandido morto? 
Não! Bandido bom é aquele reintegrado na sociedade.

E você e a mídia conseguem ter mais empatia pelo jovem de classe média porque ele está na mesma sociedade que você. É por isso que temos mais compreensão com suas atitudes.

A intenção aqui é mostrar que não podemos fragmentar mais a nossa sociedade. Porque os crimes não acontecem por quem está na sociedade, os crimes são cometidos por aqueles que não estão nela.