Baratas tontas

Provavelmente o leitor já teve esta visão: depois de espirrado o inseticida, aquele inseto que muitas mulheres — e por que não homens também? — têm por monstros do armário, rodam, rodam, batem na parede, voltam… parecem alcoolizados e finalmente param de pernas para o ar, finados.

Grosso modo, foi mais ou menos o que a Lava Jato fez aos políticos brasileiros e seus irmãos: os grandes empresários. Acostumados aos ralos e esgotos, locais em que as maracutaias eram desenvolvidas, esses insetos foram borrifados com certo espírito e certa virtude.

Certo espírito que parece contaminar a população, em todos os seus graus, e a dizer que já não é possível viver na fossa por mais tempo. Ora, vão bradar os que nos lembram os puritanos e angelicais e argumentarão sobre a corrupção da sociedade. Entendo, querem alvejar todo mundo de cocô para que os mais fedorentos desapareçam na multidão. É um conceito interessante de justiça: aquele que é impossível de ser praticado na realidade.

O juízo final do partidarismo, o armageddon da política nacional, parece inevitável. A Suprema Corte já deve estar pensando em escalar Ben Affleck, o militante. Salvar as instituições é sabotar a despensa e jogar no lixo o inseticida da Lava Jato, e o STF parece estar treinando para isso.

As baratas estão tontas por que não conseguem enxergar o borrifador, pensam que foi o partido de oposição, o fulano que é malvadinho, o Cunha. Quando se faz a piada de que a delação premiada do Sarney poderia comprometer a Cobra do Paraíso, é por que temos certeza de que estávamos afogados no esterco.

Certa virtude porque a tampa do bueiro se levanta e o ar se torna um pouco mais leve. E não significa que o tal gigante do Brasil sabe exatamente o que está fazendo. Ele ainda está tonto, mas não do inseticida, e sim desse ar puro e ainda rarefeito, quase inédito.

A brisa da Lava Jato, diferente da técnica de deixar todo mundo com o mesmo odor, vai pinçando os elementos fedorentos e, quem sabe, um dia poderá gozar daquela intenção dos angelicais de a todos os culpados condenar de acordo com seus graus de leviandade.

Não nego que até certo ponto é divertido olhar as baratas tontas se acusando umas as outras como se cada uma fosse a encarnação do mal. E se não for a hora de retomarmos o nosso Ethos ou o melhorarmos, pelo menos a diversão está garantida.

Quem liga para a saúde das baratas?