Beijar pessoas do mesmo sexo não te faz ser "moderno"

Te faz ser normal. Faz ser simplesmente humano.

Imagem: Fernando Favero/Pexels

Em um dia desses, no meio da lotação costumeira do metrô, fisguei a seguinte conversa no meio da multidão e do mar de barulhos:

“Eu beijei aquele menino só pelo momento”.
“Cara, você é muito moderno!”

Eram dois garotos skatistas que conversavam. Um contando ao outro que havia beijado um menino. Para isso, usava um claro tom de orgulho, de alguma vitória alcançada. O outro garoto, na resposta, um tom de admiração.

No cenário atual então, nos encontramos em um momento em que beijar pessoas do mesmo sexo se transformou, nos mais diversos casos, em exatamente isso: um símbolo da modernidade ou uma característica intrínseca caso você queira ser considerado “moderno”.

Ser gay, lésbica e bissexual, apesar disso, sempre foi, muito antes de ser visto como algo moderno, algo “humano”. Algo normal e natural, mas sempre visto como anômalo, em um sociedade onde impera ainda hoje uma moral heteronormativa que nos pisoteia a todo momento e nos mata todos os dias.

É até compreensível se entender que hoje muitos enxergam as pessoas que aceitam e respeitam a homossexualidade e a bissexualidade como seres avançados para o seu tempo, “modernas”. Não sejamos ingênuos: realmente, ainda hoje, não é comum uma atitude assim, embora a cada dia esteja melhor o cenário (ou eu me esforce para acreditar nisso todos os dias que levanto da cama).

Mas essa ideia está a muitos quilômetros de distância do que alguém ser moderno só porque a pessoa beijou uma pessoa do mesmo sexo. Isso porque, primeiramente, beijar não significa respeitar. Uma pessoa pode muito bem beijar agora e humilhar homossexuais no momento seguinte. A pessoa pode também beijar e fazer o que quiser, mas depois falar que foi “só pela zoeira”, só pelo momento.

Diante disso tudo, o que seria então “ser moderno”?

Nos acostumamos a considerar, nos dias de hoje, como modernos aqueles que praticam ações ou seguem padrões que ultimamente são identificados como não-tradicionais: ser homo ou bissexual, estar em um relacionamento poli-amoroso, fumar maconha, aceitar seu ou sua filha que é trans, etc.

Isso, porém, não devia ser sinônimo de ser moderno.

Poderia muito bem ser, sim, sinônimo de que somos abertos e compreensivos. Que entendemos que nós, humanos, somos múltiplos e que cada ser nesse planeta adota o modelo e prática de vida que bem entender, afinal, somos livres para viver da maneira que acharmos melhor (mesmo que a grande massa da sociedade ainda não nos aceite).

Imagem: Christian Sterk/Unplash

Quando eu beijo meu namorado, quando ando de mão dada na rua e quando contei para minha família que era homossexual, não estava sendo e nem tentando ser “moderno”. Muito menos tentando me destacar. Estava sendo eu.

Afinal, não podemos esquecer que estar com pessoas do mesmo sexo é algo que acontece há alguns milhares de anos.

Quando minha mãe, meu pai e outros familiares aceitam e compreendem hoje que namoro um menino, mesmo antes tendo namorado uma menina, eles estão sendo muitas coisas, mas penso que “modernos” não é um delas. Eles nos respeitam e nos acolhem. Ao menos para mim, isso é simplesmente ser humano. Um dos bons.

Nesse cenário ainda, ser homossexual hoje está muito longe de ser uma mera “modinha”, como virou moda se comentar por aí em tempos de conservadorismo exacerbado e anencéfalo. Não é porque agora, em pleno século XXI, o número de homo e bissexuais que têm a coragem de colocar a cara a tapa e assumir quem realmente somos é muito maior, que isso significa que ser gay e bi está na moda.

Você cruza agora com pessoas gays a todo momento nas ruas porque cansamos de nos esconder como fazíamos antes. Ainda que para isso, precisemos continuar apanhando e morrendo todo os dias.

Se uma menino em uma festa beija outro menino, mas mesmo assim não se considera gay, não significa que ele fez isso pela “modinha”. Significa que ele fez isso, simplesmente, porque quis. Nós, hoje, não temos tantos entraves com relação à nossa sexualidade como as gerações anteriores — embora, ainda tenhamos entraves em muito outros âmbitos e preconceitos diversos arraigados em nós que tentamos desconstruir todos os dias.

Beijar uma pessoa do mesmo sexo não é ser moderno. Beijar é um ato consciente. É um desejo e uma vontade, independente do que te levou a essa atitude.

Não podemos considerar “moderno” a aceitação de quem somos e o respeito pelo outro. Afinal, essas duas coisas deveriam ser a regra, não a exceção.