Qualquer texto é menor que a vida de qualquer pessoa

Um ano após sua morte, a obra de Belchior continua dando aulas sobre sua época

1.

Eu não lembro com exatidão o primeiro contato dos meus ouvidos com o Belchior.

Lembro que, alguns anos atrás, sendo levado ao aeroporto Galeão pelos meus avós, Apenas um rapaz latino-americano tocava no rádio do carro enquanto meu avô e minha avó discutiam algo trivial. A música indefinível ficou marcada pra sempre nos meus ouvidos — e parecia já estar marcada antes.

Vó, quem é esse cara?

Ela me disse o nome da música e resumiu dizendo que o cantor havia desaparecido; que deixara pra trás tudo que tinha, toda a carreira, toda a família e fazia o possível para não ser sequer entrevistado, já que não sabiam nem o local de sua residência, pois estava sendo procurado por problemas com a justiça.

Eu já havia escutado alusões a isso. Ainda me parecia absurda a ideia de um cantor aparentemente tão famoso desaparecer, sumir, escafeder-se e fugir de todas as mídias e obrigações a ele atribuídas.

Eu não lembrava onde havia escutado a música nem se já havia de fato escutado. Mas a sensação de familiaridade à que o som me remetia era permanente — e eu só fui entender a grandiosidade da obra que eu escutava um bom tempo depois.

2.

Quem me conhece sabe que sou fã incondicional da banda Los Hermanos. A admiração foi começar pra valer em janeiro de 2015, quando passei uma semana em Florianópolis só com quatro músicas deles na playlist, que me acordavam, me acompanhavam durante o dia e me faziam dormir.

Quando comecei a ouvir Belchior, conhecendo músicas como Medo de Avião e À palo seco, logo me tornei fã daquele cantor recluso cuja breguice carregava a jovialidade dos anos 70.

Marcelo Camelo e Belchior no Altas Horas

Encontrar a participação do Belchior com Los Hermanos no programa Altas Horas, em 2000 e alguma coisa, cantando À palo seco, foi pra mim uma das maiores satisfações possíveis. Um grande achado da minha adolescência. Me senti aqueles pré-adolescentes roqueiros falando “eu nasci na época errada” por não ter visto aquela pérola ao vivo.

Ainda hoje, me indigna a reação indiferente da plateia do Altas Horas, que parecia não entender que aquele encontro que presenciavam era histórico.

3.

Sem mais lenga-lenga, vamos ao assunto: Belchior marcou a história da música brasileira. E sequer recebe os créditos pelo que fez.

Bob Dylan brasileiro? Não. Bob Dylan que é o Belchior norte-americano.

Digo isso de forma figurativa, mas há nessa afirmação uma literalidade — Como nossos pais, uma de suas melhores canções, tem autoria normalmente atribuída à sua contemporânea Elis Regina. O mesmo acontece com Velha roupa colorida, atribuída também a Elis. O mesmo acontece com outras, como Mucuripe, parceria com Fagner, que é normalmente atribuída a este último.

E o interessante é que o próprio Belchior se identificou em seu maior sucesso como apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior. Total oposto ao Chico Buarque, por exemplo.

Alucinação, do Belchior, e Construção, do Chico Buarque, foram lançados no mesmo ano. Ambos com críticas ao regime militar. Ambos foram os melhores de suas respectivas carreiras. Mas só um é lembrado como um dos melhores discos da música brasileira. Só um foi aclamado pela crítica já naquela época.

A mídia parece ter resumido o álbum às duas músicas regravadas pela Elis Regina, inclusive.

E, enquanto a MPB do período de regime militar costuma ser lembrada pelas vozes do Chico, Caetano e Gil, seria uma grande injustiça ignorar algo que poderia ter sido um hino de resistência à censura e à coerção: a faixa Como o diabo gosta, do álbum Alucinação, que não foi sequer censurada.

Não é de se admirar que a crítica tenha ignorado o cantor nordestino pobre e desconhecido.

4.

No álbum Alucinação, Belchior dá um fiel retrato da realidade de quem saía do nordeste pra morar nas capitais do sudeste.

Em contraponto à canção Divino Maravilhoso, onde Caetano — de quem Belchior era admirador — cantava que tudo é divino e maravilhoso, Alucinação veio pra dizer que não, “nada é divino, nada, nada é maravilhoso, nada”. (E, apesar de tal verso do Caetano ser por si só bem irônico, tendo em vista os versos que o sucedem, sabemos que Belchior tinha grande afinidade com o universo poético, tranformando o que parece ser um erro interpretativo numa proposital ressignificação.)

Em Fotografia 3x4, inclusive, ele faz uma referência mais direta ao antigo compositor baiano ao dizer: “Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do norte e vai viver na rua”. Dessa forma, ao invés de seguir o caminho de dar uma roupagem alegre à sua mensagem para tornar o sofrimento e a melancolia palatáveis, Belchior diz a verdade nua e crua.

Sons, palavras são navalhas
E eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém

Mas, ao mesmo tempo em que se dissocia dessa visão de mundo jovem e rebelde trazida pelo tropicalismo, Belchior gera identificação com seus iguais mostrando a verdade sem perder a rebeldia — nordestinos saindo de sua terra natal pra tentar a vida no sul do país.

No fim da faixa, após narrar sua vinda para o sudeste, ele canta: “A minha história é talvez igual à tua/ Jovem que desceu do norte/ E que no sul viveu na rua/ E que ficou desnorteado/ Como é comum no seu tempo”.

Belchior, como tantos outros imigrantes nordestinos, perdeu o norte. No sul, no entanto, tampouco o encontrou. E Alucinação é o perfeito retrato de uma desilusão que anos depois seria refletida no abandono aos seus compromissos e na mudança pro Uruguai.
Capa do álbum Alucinação.

5.

Conhecendo a obra do cara mais a fundo você percebe que os indícios da reclusão estão lá desde seus primeiros trabalhos. Em Alucinação, por exemplo, Belchior já flertava com o isolamento falando sobre “a solidão das pessoas nessas capitais”.

Não é de se admirar que Belchior se sentisse sozinho e deslocado numa capital do sudeste do país. A ditadura não contribuía. O preconceito com relação ao lugar de onde vinha também não contribuía.

Em cada esquina que eu passava
Um guarda me parava
Pedia os meus documentos e depois sorria
Examinando o 3x4 da fotografia
Estranhando o nome do lugar de onde eu vinha

A pobreza e o fracasso comercial também não contribuíam — foi difícil encontrar uma gravadora que apostasse no Belchior.

6.

Anos depois, após largar seu casamento de 35 anos, juntou-se com a produtora cultural Edna Prometheu e sumiu de vez. Reflexo do que idealizava há muito tempo? Uniram, ele e Edna, suas utopias?

Como diria Kelly Key: sinceramente, eu não sei. Talvez ninguém saiba. Essa é só a visão idealizada sobre o Belchior. Ele mesmo disse, em Rock romance de um robô Goliardo:

Mas não confiem em mim
Eu não existo
Sou apenas um personagem que diz isto

7.

Mortes de pessoas fora do meu círculo de convivência não costumam me comover. Não sou hipócrita a ponto de fingir uma profunda tristeza ao receber a notícia da morte do Avicii, por exemplo. Mas um ano atrás, quando soube do falecimento do Belchior, eu fiquei, pela primeira vez, triste de verdade. Acho que algo presente na maioria dos fãs era a esperança de que ele voltasse aos palcos — e essa esperança era alimentada mesmo que soubéssemos que ele nunca voltaria.

Acho que eu preferia não ficar sabendo da morte dele. Ficaríamos todos, dessa forma, com a presença figurativa do cantor. Naquele suspense no ar à espera de seu retorno enquanto sentíamos sua presença marcante por meio de sua obra.

Meu pai, nordestino que, jovem, desceu do Ceará pro sudeste, assim como meus avós e tios, ouviu Belchior desde o berço. E é pra todos nós que ele faz falta.

De uma forma ou de outra, Belchior morreu. E Fotografia 3x4 toca em loop na minha cabeça enquanto digito esse texto.