Bolsonaro também nos representa

fonte: jornal o globo

Tenho visto por aí muito choro e ranger de dentes diante da ascensão popular do candidato Jair Bolsonaro, cujo partido ninguém nem sabe direito qual é, inclusive, mas cuja principal característica é a defesa de ideias extremamente conservadoras, no sentido literal da palavra: conservar valores execráveis que trazemos na nossa sociedade, dentro de uma nação que se pretende moderna e principalmente, civilizada. Em contraponto, os setores mais progressistas ficam a arrancar os cabelos e travam batalhas épicas contra os fãs, vulgo eleitores, dessa figura tão peculiar.

Entendo a revolta, mas não o espanto. Há mais Bolsonaros espalhados por aí do que julga nossa vã filosofia. Ouso até a afirmar que a ala progressista está mais perto de ser minoritária que majoritária. Vivemos em um país violento, conservador, adepto de uma religiosidade castradora, homofóbico, racista, elitista e profundamente misógino. E não sou eu quem está dizendo, são as estatísticas. Há um esforço contínuo e árduo de arejar nossa sociedade com valores mais humanistas, mas é isso, vivemos em um lugar onde essa coisa de “direitos humanos” é discutida como se fosse um problema e não uma solução.

Posta a questão, mais fácil que brigar com as evidências que estapeiam nossa noção de humanidade é pensar o que é possível fazer com isso tudo que está aí. Porque Bolsonaro também nos representa. E muito. Esse pleito eleitoral, mais que uma disputa política entre direita e esquerda é uma disputa ideológica. É uma disputa sobre qual ética vai prevalecer, a dos “direitos humanos” ou a dos “humanos direitos”.

Mas eu vou dizer que também entendo as pessoas que se agarram nestes valores conservadores. Essas pessoas não são burras, ignorantes, ou desinformadas. A questão é de outra ordem. Há fãs do “mito” em todas as classes sociais, e em grande expressão, contraditoriamente, nas classes mais pobres. Fãs entre pessoas que são público-alvo do ódio velado e explícito que ele apregoa.

Essas pessoas não querem abrir mão do que elas têm de mais arraigado em termos de “valores morais”, coisas que muito visceralmente foram ensinadas a acreditar. Que dão sentido ao mundo que vivem. Colocam ordem na realidade que transitam. A nossa socialização é patriarcal, violenta, autoritária, nossos pais, a igreja, a escola, a mídia, tudo e todos nos passam valores extremamente tradicionais e a transgressão disso, no fim, é que vai desenhar os caminhos do progressismo. Não somos, enquanto sociedade, naturalmente educados em moldes mais modernos. Então, para muitas pessoas, romper é sair da sua zona de conforto e segurança de maneira muito drástica. É antagonizar grupos primários que lhe são muito caros, como a família ou a igreja. É abandonar uma série de crenças que moldaram o próprio caráter e decisões importantes de vida.

Então, por mais que se tenha criado um certo constrangimento social em admitir certas posições já entendidas como condenáveis, como a homofobia, ou o racismo, quando uma figura pública assume um posicionamento desses, ainda que polêmico, ele cala fundo em uma parcela expressiva da sociedade porque ele está tendo coragem justamente de falar aquilo que eles pensam, que aprenderam a pensar, mas que já não dizem. Ele é aquele aluno que enfrenta o diretor da escola, um herói, um mito. Alguém que está colocando o mundo de volta à sua ordem original.

E aí quando a gente fala com essas pessoas, precisamos ter em mente, que estamos falando na verdade com a socialização que eles receberam, com seus aprendizados primários, que formaram sua visão de mundo, trouxeram segurança e entendimento da realidade. Conceitos que eles cultivaram como plantas carnívoras e que não sabiam o que fazer com elas em uma sociedade que aos poucos vai mudando e podando esse tipo de pensamento. Conversar com um “bolsominion” não é um diálogo que terá frutos se dado em bases racionais porque estamos tratando na verdade de temas muito emocionais, estamos falando de mecanismos de proteção, sobrevivência, territorialidade. Estamos desconstruindo um mundo de promessas de supremacia e poder. Por isso que quase sempre esses diálogos são tão virulentos, porque a resposta ao medo do novo é a violência.

É preciso manter a firmeza, a serenidade e a vigilância. De certa forma o recrudescimento de visões mais conservadoras é um indicador importante de que uma pauta mais humanista está avançando e portanto sofrendo resistência. Visões conservadoras essas que vários movimentos — o feminismo como principal deles — vêm discutindo e combatendo. Um Bolsonaro da vida é a manifestação precisa dos valores do patriarcado e não é por acaso que seu séquito é formado em sua maioria por homens, brancos, heterossexuais. Combater o “mito” é combater suas ideias e crenças no seio da sociedade. Porque o motor dessas ideias é o ódio. O ódio de classes, o ódio de raça, o ódio de gênero. E o combustível desse motor é a violência. Sigamos firmes.

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