Bolsonaro x Haddad: um panorama sobre o cenário digital nas eleições de 2018

Fonte: Meu Político de Estimação, a melhor aberturas de anime sobre as eleições que eu tive o prazer de encontrar.

Nos últimos dias antes das eleições, muitos dos meus amigos e amigas decidiram declarar abertamente seus votos no Facebook. Não sei se não declarar o meu voto publicamente (na internet, para pessoas que eu conheço pouco) foi o certo, mas certamente me deu muito no que pensar.

E, conversando com a Olivia (minha namorada), eu achei que eu contribuiria mais escrevendo um texto (e um programa pro podcast) sobre a minha impressão dessas eleições.

Não que eu me envergonhe das minhas escolhas: acredito que Haddad seria uma alternativa muito melhor para nosso país (estou aberto para conversar com quem discordar disso, inclusive). Mas, tentei colocar minhas preferências políticas de lado para analisar como a internet e as novas mídias impactaram nos resultados dessa eleição e o que mudará no país daqui para frente.

São ao todo 9 tendências ou acontecimentos em destaque neste artigo, que podem ser lidos e debatidos separadamente. Certamente eu não conseguirei fazer uma análise profunda sobre os temas abordados, pois cada um é digno de um trabalho acadêmico próprio. Mas, se você estiver buscando entender mais sobre o cenário digital nessas eleições, aqui é um ótimo começo.

A narrativa Bolsonaro antes das eleições

Fato: a imagem que Bolsonaro construiu na internet se cristalizou e perpetuou por todo o Brasil.

A imagem de uma figura pública é uma coisa meio engraçada, porque ela se transforma tão rapidamente e de maneira tão forte, que a memória coletiva meio que se desfalece.

Pensemos, por exemplo, no Alexandre Frota, que conseguiu — em um período razoavelmente curto de tempo — transformar sua imagem de ator pornô irreverente em representante político de conservadores no estado de São Paulo.

Dilma Rousseff também teve sua imagem ressignificada pelo imaginário popular: quando eleita a primeira presidente mulher do país, sua imagem pública era de governante rígida e extremamente técnica. No começo do seu segundo mandato, sua imagem se tornou algo muito mais… bem, isso:

Bolsonaro, como os dois exemplos acima, também teve sua imagem transformada ao longo do tempo. Durante os anos de ouro do CQC, Bolsonaro era lembrado por suas constantes polêmicas, que ressoavam (por alguma razão) com jovens da classe média e baixa, hardusers da internet e redes sociais.

E foi principalmente através da voz desses jovens que a narrativa Bolsonaro foi ganhando tração suficiente para ser considerado como candidato a Presidência da República.

De lá pra cá, Bolsonaro conseguiu expandir e tornar mais complexa sua imagem, se tornando este fenômeno político que é hoje, graças à sua capacidade de alguma forma representar os “valores conservadores”, as preocupações econômicas dos liberais, as pautas religiosas dos cristãos e evangélicos, a indignação com a falta de segurança e até mesmo o antipetismo.

Não é por menos que sua popularização foi tão marcante neste ano. Para você ter noção deste crescimento, veja esse gráfico do Google que mostra o percentual de pessoas que pesquisaram apenas por seu nome no buscador da empresa:

Número de buscas pelo termo “Jair Bolsonaro” (em azul) nos últimos 3 meses. O 100 representa o dia que teve o maior número de buscas registradas.

#Elenão e #PTnão

Fato: o movimento #Elenão foi responsável pela maior mobilização política protagonizada por mulheres na história do Brasil.

#Elenão foi uma mensagem/ideia disseminada na internet por meio de hashtags, que culminou no que ficou conhecido como a maior manifestação política liderada por mulheres na história do Brasil.

A propagação de mensagens ideológicas por meio hashtags e — claro, o conteúdo que normalmente a acompanha — já são práticas comuns na internet, inclusive quando falamos especificamente de campanhas feministas. É só lembrar do #meuamigosecreto, que contava a experiência de mulheres com homens machistas.

No entanto, esta foi a primeira vez que um movimento liderado majoritariamente por mulheres expandiu suas ações para fora da internet e gerou uma mobilização nacional.

O poder de influência na hashtag, gerou novos símbolos, próprios dessa comunidade, que serviu como uma identificação da causa. E dentre essas imagens, a mais marcante foi a seguinte:

O que não se esperava é que, em uma manobra cultural que não acredito que tenha sido intencional, eleitores de Bolsonaro ou antipetistas se apropriaram deste mesmo símbolo para significar sua indignação com o Partido dos Trabalhadores: o #PTnão.

Como consequência, essa adaptação transformou um símbolo que representava o repúdio das mulheres com os posicionamentos e falas de uma figura pública, em uma espécie de protesto partidário ou ideológico, principalmente para pessoas que desconheciam a causa e os objetivos de cada movimento.


Os influenciadores isentões

Quem se lembra das eleições de 2014 sabe que muitos músicos, atores, esportistas e influenciadores em geral, foram muito mais ativos e expressivos sobre seu apoio aos presidenciáveis. Eu me lembro bem sobre como a Dilma e o Aécio disputavam o apoio dos artistas e os colocavam em posição de destaque em suas campanhas.

Só que nessas eleições, as coisas foram BEM diferentes. Em geral, poucas figuras públicas divulgaram os partidos que “apoiariam”, até mesmo quando seus fãs demandavam uma posição partidária.

Acho que a principal razão para essa hesitação foram as experiências negativas que eles tiveram durante e após as últimas eleições. Isso, porque, ao apoiar um dos presidenciáveis em um país em processo de polarização política (que se iniciou na campanha Dilma x Aécio e escalonou até o momento atual) era um jogo impossível de ganhar.

Veja, aqueles que apoiaram a Dilma, perderam simpatia de seus fãs PSDBistas durante a campanha e, após a vitória dela foram, de certa forma, responsabilizados pela crise econômica que se sucedeu.

Já quem apoiou o candidato do PSDB, além de perder sua base de fãs petistas, tiveram que se justificar quando Aécio foi acusado de corrupção e foi afastado da liderança de seu partido.

Isso tudo sem, supostamente, receber verba alguma. Com essa experiência, e num cenário ainda mais polarizado, acredito que essas figuras públicas decidiram não fazer grandes apoios à candidatos para evitar conflitos desnecessários entre seu público e evitar responsabilidades políticas.

O que também levanta o questionamento: precisamos que todos, independente do setor de atuação, definam, esclareçam e justifiquem seus votos? O quão importante deve ser para minha decisão política, qual o partido de preferência do Scalene?

Claro que não há problema nenhum em exigir que seus ídolos tomem alguma posição política, especialmente quando um candidato parece desmerecer os valores celebrados pela comunidade que abraça sua arte. Mas será que é absolutamente necessário que todos tomem partido? E essa é uma decisão responsável, quando você reconhece sua capacidade de influência mas não sabe qual é a melhor decisão para o país?

Bancada de Youtubers

Se a maioria dos influenciadores preferiu não se posicionar abertamente sobre as eleições, alguns youtubers utilizaram do seu capital midiático para para conquistar uma vaga na Câmara dos Deputados.

Os influenciadores que melhor utilizaram as novas mídias para angariar votos foram aqueles com discursos conservadores, como o Arthur Mamãe Falei, a Joice Hasselman e Luiz Miranda.

Eleições do Zap zap

Eu não preciso nem falar sobre a importância do Whatsapp para os brasileiros, preciso? É só lembrar de 2015, quando o Zap foi bloqueado por 48h no Brasil e toda discussão jurídica, econômica e cultural que aquilo gerou.

Um dos maiores exemplos do poder da ferramenta para mobilizar e transformar a percepção pública sobre determinado assunto foram as greves dos caminhoneiros, ainda esse ano.

Os grupos e mensagens de Zap Zap serviam não só para a organização da classe, mas também como forma de desconstruir a narrativa da mídia tradicional sobre o que acontecia por lá.

Apenas com este vídeo é possível explicar para um gringo toda a cultura nacional, kkkk

Conhecendo esse potencial, campanhas políticas inteiras foram construídas para essa plataforma, que acabou por pautar muita das discussões políticas nessas eleições. E, sem dúvidas, Bolsonaro foi o que mais se beneficiou dessa mídia, apresentando crescimento de popularidade (entre mulheres!) mesmo durante o ápice do movimento #Elenão.

Uma reflexão sobre a televisão

Fato: Apesar de ter 6 zilhões de horas de tv, Geraldo Alckmin não alcançou 5% dos votos válidos

Essas eleições ficarão marcadas na história do país não só pelas mudanças no cenário político — com a maior renovação de deputados desde a redemocratização — mas também pela transformação da perspectiva dos brasileiros sobre a mídia tradicional e seu impacto sobre a decisão dos eleitores.

Neste ano, o tão disputado horário eleitoral foi completamente dominado pelo PSDB de Alckmin que tinha praticamente 50% do tempo só para ele. O Bolsonaro, por outro lado, tinha só 8 segundos.

Mas, como todos sabem, a eleição não acabou nada bem para o PSDB, especialmente para o Alckmin, e todo o impacto da televisão foi colocado em cheque por esse fracasso. O B9 fez um programa inteiro discutindo a irrelevância da TV (?).

Mas mesmo entre as emissoras de TV, houve certa mudança de protagonismo, que ainda tem que se confirmar. Quer dizer, o aceno do Bolsonaro à comunidade evangélica neopentecostal parece se materializar em certa preferência pela Record em detrimento da TV Globo (que aliás, se viu numa bela sinuca de bico nessas eleições).

Jair e as LIVES

Fato: Durante toda a campanha eleitoral, Bolsonaro preferiu falar diretamente com seus eleitores através das LIVES do Facebook.

Para o mundo corporativo, o consumo de mídia já se transformou e a migração da mídia tradicional para as novas mídias não é uma tendência e sim uma realidade. Para perceber isso, basta lembrar que a Netflix, empresa de 21 anos (mas que está no mercado digital há muito menos tempo), é a empresa de mídia com maior valor de mercado do mundo.

Mas parece que a classe política não entendeu essa mudança comportamental (mesmo depois das eleições de Trump nos EUA), já que Geraldo Alckmin, um dos maiores representantes dessa classe, se vangloriava graças ao tempo de TV que conseguiu conquistar.

A campanha de Bolsonaro, por outro lado, entendeu que a influência sobre as novas mídias seriam muito mais importantes do que os outros candidatos imaginavam.

De maneira quase que emblemática, o futuro presidente optou por não ir aos debates promovidos pelas principais redes de televisão do país, e oferecia para seus seguidores no Facebook, uma LIVE onde dava mais informações sobre seu eventual governo.

Isso despertou em mim uma estranha sensação sobre o que a internet é e como ela pode ser utilizada. Isso, porque a LIVE (seja ela no Face, Insta, Twitter, etc…) foi uma ferramenta projetada para incentivar a aproximação dos streamers com seu público.

Ou seja, quando desenvolvida, as ferramentas das LIVES deveriam promover o debate e empoderar o usuário, que agora podia fazer perguntas ao vivo ao seu ídolo.

Porém, Bolsonaro a utilizou justamente como uma forma de escapar do debate. O ambiente seguro e controlado da LIVE foi perfeito para que suas ideias fossem propagadas aos seus fãs sem atrito com alternativas ideológicas, sem espaço para a troca de ideias diferentes.

Será que a internet é realmente o espaço democrático mais “puro” da nossa sociedade, como eu imaginava há pouco tempo? Ou a forma como ela se desenvolveu proporcionou o ambiente perfeito para populismo autoritário?

Memificação e seu impacto nas eleições

Fato: Cabo Daciolo, candidato desconhecido por quase toda a população brasileira (mesmo tendo sido Deputado Federal pelo Rio de Janeiro) conseguiu mais votos do que a Marina Silva, ex-senadora que quase foi pro segundo turno em 2014.

Olha, não vou desconsiderar que parte dos votos do Cabo Daciolo foram de fato da sua base de eleitores e simpatizantes da sua religião (que estava bem presente em seus discursos), mas a impressão que eu tenho é que os memes do Daciolo foram um dos principais responsáveis pelo resultado surpreendente, mesmo que pequeno do presidenciável.

Explico: essas eleições foram muito pautadas pelo voto estratégico. Antipetistas ávidos, defensores dos valores conservadores e neoliberais (no sentido econômico) enxergaram no Bolsonaro a única alternativa contra o petismo. Então, não houve muito espaço para candidatos que talvez tivessem uma base maior de eleitores, caso o “medo da vitória PT” não fosse tão grande.

Então, não vejo como o Daciolo conseguiria “segurar” tantos votos da sua base apenas por seu discurso religioso. E, claro, conhecendo o espírito “BR HUE HUE” do brasileiro, nada me surpreende, nem mesmo votar em um presidente pelo bem da zueira.

Falando em memes…

Na eleição do Zap Zap, o que não faltaram foram memes, certo? Mas, excluindo os memes do Daciolo, poucos foram os memes que atravessaram as bolhas ideológicas e propagaram-se em grande parte da rede.

Isso porque o que vimos nessa eleição foi uma polarização ainda maior do que em 2014, (que me motivou a escrever o texto “não delete seu amigo babaca das redes sociais”) responsável pelo esvaziamento dos “ambientes públicos de discussões” na internet. E como consequência dessa segmentação, menos ideias — disfarçadas de memes, hashtags, vídeos, etc… —atingiram pessoas fora de seus círculos sociais.

O maior exemplo para mim foi a campanha do Ciro Gomes, que parecia ter ganhado uma puta tração na internet, como uma alternativa ao PSL e PT. Dias antes do fim do primeiro turno, todo mundo parecia ter decidido pela Cirão da Massa, e seus vídeos, wallpapers me convenceram que seria Ciro o candidato que enfrentaria Bolsonaro no segundo turno.

Um de muitos wallpapers que circularam nos grupos de Facebook durante o primeiro tuno das eleições.

Com cerca de 12% dos votos válidos, esse resultado foi uma aula para mim sobre como a percepção de realidade é moldada pelo ambiente que frequentamos.


Ufa!! Acho que é isso. Se você conseguiu ler tudo até aqui, PARABÉNS pela paciência e MUITO OBRIGADO! E, caso você não concorde com algo, vamos trocar uma ideia! O diálogo nunca foi tão importante.