Brechó dos Sentimentos Perdidos

Trocam-se memórias. Ruins e boas. Estoque sortido mas sem direito a devolução. Colocam-se as memórias num vaso e o comprador, com olhos vendados, pode escolher. Algumas ainda quentes, quase novas, outras já resfriadas pelo uso. Servem para serem trabalhadas em terapia, escrever textos no Medium. Modificando os nomes das pessoas podem ser utilizadas em romances. Produto inflamável.

Procura-se o sentimento estranho desencadeado pelo primeiro amor. Parece uma coceira, às vezes um vácuo, ou cair do prédio. Causa choro, febre e alucinação. Foi visto pela última vez quando eu tinha 14 anos e me apaixonei por E. e esperei até os 16 para dar meu primeiro beijo. Teria que ser com ela. Iríamos nos casar e ter filhos. Iríamos ser felizes até ficarmos velhinhos. O plano deu certo até… o beijo. Todo o resto foi cancelado após um mês. Ela engravidou de meu amigo e estão juntos e felizes até hoje. Nunca mais a vi, nem aquele sentimento que senti quando a vi pela primeira vez. (anúncio cancelado)

Procura-se esse menino que conseguia se apaixonar e passar três anos esperando por um beijo.

Compra-se silêncio. De preferência desses injetáveis (são mais instantâneos). Que consiga calar todas as vozes que cultivo há tempos em minha cabeça. Elas estão enraizadas em meus neurônios, então preciso de um silêncio potente. Desses que conseguem ser enxergados quando se olha nos olhos e ao toque das mãos de quem o usa. Silêncio que acalma. Paga-se bem.

Procura-se Fofinho. Meu primeiro gato quando eu tinha seis anos. Pelo amarelo e branco. Dormia na minha cama apesar das outras 5 camas da casa. Atendia ao meu chamado. Ficava com cara triste quando me via chorando. Permanecia ao meu lado quieto enquanto eu lia meus livros. Sete anos felizes. Eu não lembro o que aconteceu a ele. Meu cérebro apagou essa memória e prometi a mim mesmo nunca mais criar bicho nenhum.

Procura-se a memória do que aconteceu com meu gato mesmo que dolorosa.

Vende-se minha ansiedade. Ela por um tempo me foi útil. Com ela fiz mil planos, e sonhei mil sonhos. Muito do que realizei devo a ela. Está em bom estado apesar de me fazer passar noites em claro. Às vezes causa taquicardia. Bem manobrada gera bom lucro e bons livros.

Compra-se sorriso. De preferência sorriso que tenha efeito retroativo. Todas as minhas fotos desde a infância revelam um menino envergonhado. Sério. Escondendo os dentes como que sem permissão para ser feliz. Compra-se um sorriso para se transplantar em todas as fotos e assim criar novas memórias. Falsas mas felizes.

Contrata-se personal-lifer. Alguém que faça elogios quando eu estiver mal, críticas construtivas às minhas atitudes. Anote meus compromissos e jogue na lixeira quando eu estiver cansado. Faça suco de laranja quando eu acorde. Sempre tenha duas xícaras de café nas mãos para tomarmos juntos enquanto falamos da vida ou apenas fiquemos calados. Que me faça ficar calado.

Procura-se Gilmar. Saiu da Paraíba para São Paulo em 2013 dizendo que iria realizar o sonho de ser escritor. Às vezes fala com a mãe ao telefone mas ela suspeita que não seja ele. Mais calado e menos otimista, um pouco mais cinza que de costume. Testemunhas revelam que adotou o nome Gael Rodrigues e lançou O Retorno de Saturno em julho. Recompensa vivo ou morto.

trendr | vida para conteúdo relevante - TwitterFacebookMedium