Bruxas unidas contra Donald Trump

Inês Barreto
Feb 24, 2017 · 3 min read

Hoje, dia 24 de fevereiro, as bruxas dos Estados Unidos estão organizando um ritual em massa para jogar um feitiço coletivo. O objetivo é blindar Donald Trump e todos aqueles que o encorajam para não atingirem pessoas injustamente. Elas estão convidando suas companheiras pelo mundo e qualquer outros interessado que queira ajudar.

Com exceção de outras bruxas, estou vendo as pessoas tratando isso como algo pitoresco: "olha, essas pessoas se acham bruxas", "vou ficar esperando funcionar", "voltamos à Idade Média".

Pois é, gente… essas pessoas se identificam como bruxas. Elas integram um movimento religioso chamado Neopaganismo, que está presente nos EUA desde os anos 1960, e aqui no Brasil desde, pelo menos, os anos 1980.

Nos EUA, ele foi abraçado pelas feministas da Segunda Onda e por outros movimentos da Contracultura, justamente por mostrarem uma alternativa às religiões monoteístas com uma visão libertária do mundo e das liberdades individuais, além da conexão e do respeito à natureza.

A comunidade neopagã norte-americana sempre teve uma forte atuação política, levantando bandeiras como direitos LGBTQ, combate ao aquecimento global e tolerância religiosa. Então, é natural que os pagãos se organizem para também combater as ações de Trump, usando uma linguagem que se relaciona com suas práticas: o ritual e o feitiço.

Isso não é incomum: Starhawk, uma das bruxas mais famosas por lá, é a criadora da comunidade Reclaiming, que com frequência faz eventos públicos que unem a ritualística wiccana com projetos de conscientização sobre meio-ambiente, unindo a ação mágica, que faz parte da sua crença, com ativismo.

Mas tudo isso soa como uma excentricidade de religião saída dos livros de História Medieval. Tudo isso porque o Neopaganismo é uma religião invisível. Ele raramente entra nas discussões religiosas e nunca é lembrado em questões de intolerância, mesmo que pagãos também sofram preconceitos. A visão de bruxa do ocidente é muito influenciada por mitologias e folclore e não abarca as pessoas que se identificam assim no mundo contemporâneo.

Mas o que importa, nesse momento, é entender que os neopagãos não são um grupo pitoresco, mas sim um movimento religioso que está tentando criar visibilidade para suas bandeiras antes que a intolerância religiosa fique ainda mais forte.

Além disso, a bruxa sempre foi um símbolo de resistência política. A bruxaria é, em si, uma resistência ao Cristianismo e ao poder religioso estabelecido. E nada mais justo que as bruxas usem esse talento natural para a desobediência diante e um governante misógino, intolerante e machista — como algumas delas fizeram há 500, 600, 1000 anos atrás, as de verdade ou as acusadas por serem pessoas fora dos padrões esperados.


Já ouviu falar da Wicca? O que pensa sobre bruxaria e o Neopaganismo? Comente para ampliarmos mais esse assunto. Sempre falo sobre isso, tentando contextualizar política e historicamente esses movimentos. ;)

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Inês Barreto

Written by

Jornalista e historiadora. Pesquisadora de cultura, gênero, imaginário e bruxaria. Pós-graduanda no lato sensu em História da PUC-SP.

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