Cadê os Formadores de Opinião?

Artistas apoiando Obama em sua campanha

Antigamente existia uma condição no país muito cobiçada em diversos meios: o Formador de Opinião.

Até que não era muito difícil ser alçado a este posto. Mas houve um tempo em que era preciso alguma coragem. Vivíamos um tempo de repressão de liberdades individuais. Havia um silêncio constrangedor tomando conta do país todo. As vozes solitárias de quem ousava gritar eram frequentemente ouvidas de um extremo a outro do Brasil.

Os artistas, por terem a prerrogativa de viver sob holofotes, tinham obviamente mais notoriedade. Muitos deles foram catapultados à posição de herois. Eles diziam aquilo que todos nós queríamos. Eles limpavam da nossa garganta o grito que não podíamos dar. Eles cantavam a música que queríamos dançar. Tínhamos um inimigo comum, ele era enorme, e eles eram os bravos que o enfrentavam olhando em seus olhos, já que estavam montados sobre os nosso ombros.

Era natural que a gente ouvisse a voz deles antes de decidir que posição tomar em determinados assuntos. Verdade mesmo, eles ajudavam a formar nossa opinião.

Durante muito tempo, mesmo depois de recuperamos a permissão para falar, o posto de Formador de Opinião foi cobiçado.

Ora, vejam. Formar opinião era um grande negócio. Agências de publicidade perceberam que o povo ficava propenso a comprar o que os formadores pediam. Canais de TV queriam contratá-los. Eventos ficavam mais cheios se tivessem a presença dos “formadores”.

E a forma de conseguir entrar para este clubinho era, adivinhem: emitindo opinião.

E verdade seja dita. Eles usaram a abusaram dessa prerrogativa. Sem nenhuma timidez. Era comum ver artista dando pitaco sobre virtualmente qualquer coisa. Do novo pacote econômico ao lançamento de carne enlatada, sempre havia um Formador de Opinião de plantão falando o que achava. Era difícil haver alguma coisa no mundo que o Caetano Veloso não soubesse. E isso às vezes, colocava pessoas, marcas ou o próprio formador em sinucas de bico. Quem emite uma opinião revela muito de si mesmo.

Não pensem que era fácil. Para ser relevante, era preciso ser visto. Era preciso dar entrevista. Estar nos lugares certos, falar com o povo certo. Precisava fazer show. Muitos.

O tempo passa, e essa figura ficou, além de cara, ultrapassada. Afinal de contas, quem quer ter opinião atualmente? Quem quer correr risco de falar o que pensa, alto e bom som? Para quê, se agora qualquer zémané pode emitir opinião, de graça, usando um telefoninho mequetrefe?

Opinião virou uma mercadoria com oferta demais. Consequentemente, com lucro de menos. Ao invés de Formadores de Opinião, ficou muito mais interessante investir em Lançadores de Tendência. Mais interessante e muito mais fácil.

Os chamados trendsetters não precisam falar nada necessariamente. Só precisam ter algum carisma, ficar bem com alguma roupa, serem conectados com alguma tribo. E o melhor de tudo. Como as próprias tendências que ele ditam, são altamente substituíveis. Aquilo que bomba hoje, daqui há um ano ninguém lembra, virou tendência velha.

Junte-se a isso o advento da Lei Rouanet. Não quero fazer deste um post político, mas essa lei mudou a dinâmica do chamado “grandes artistas” brasileiros. De repente, eles não precisavam mais fazer uma grande turnê pelo país para se sustentar. Não precisavam mais perder o domingo indo ao Faustão da mesma forma que no passado, faziam com o Chacrinha. Não precisavam mais se preocupar com vendagem de CD.

Bastava um projeto aprovado, um show por ano, numa casa bacana, gente chique na plateia, um DVD gravado ao vivo, um CD que ninguém ia comprar mesmo, e com sorte, uma música na novela para ficar com o ano feito. Deixa essa coisa de show, de contato, de gente, para sertanejo e funkeiro. Formador de Opinião faz shows selecionados, para plateias idem.

Mas opiniões são animaiszinhos difíceis. Uma vez que você emitiu uma, ela vai te perseguir para sempre, e isso causa incômodo, porque te obriga a ser coerente. Coisa que muitos artistas não gostam. Especialmente porque, resultado ou não de tanta opinião emitida, aqueles que foram ferrenhamente defendidos no passado, hoje ocupam o poder. E nem sempre atuando da forma esperada. Por isso existe o afã constante de perguntar aos Chicos Buarques o que eles estão achando disso tudo? Mas como assim? Mas você não falou que seria ótimo? Tá gostando agora? Porque?

Diante dessa nova realidade, vários dos antigos Formadores de Opinião resolveram se fechar em copas. Pra que ficar falando, falando, se não vai sair nada desse butim? Para que ficar gastando saliva e expondo suas entranhas quando um vlogger qualquer arrebanha uma multidão com seus conhecimentos sobre maquiagem ou videogame?

Porque emitir novas opiniões quando finalmente se está tão confortável? Para que correr o risco de desagradar os companheiros do passado, que estão no poder? Como voltar atrás de posicionamentos que ficaram velhos sem dar a entender que você próprio está caducando?

Em outros países o processo é parecido, mas no que tange a opinião política, mais rígido ainda. As celebridades são chamadas a se pronunciar. Ficar em cima do muro não é bem visto. Ao apoiar um candidato, sabem que serão cobradas depois que ele for eleito. Não é raro ver debates políticos em programas de TV com duas celebridades defendendo suas visões políticas e candidatos. O processo de engajamento não é vazio. Gera responsabilidades de um lado e de outro.

Aqui, o ditado popular diz que opinião é igual bunda, cada um tem a sua. Mas com o tempo, ficou até pior. É igual bunda, cada um tem a sua, e você não sai por aí dando pra todo mundo. Parece que muitos aderiram a outro ditado. Aquele que diz que “em boca fechada não entra mosquito”.

Eu sinto que é um retrocesso. Lutamos tanto para ter o direito de falarmos o que quisermos. E justamente quando conseguimos, tantos resolvem se calar, por motivos tão pouco nobres. Nossa democracia ainda é muito jovem, ainda precisamos daqueles que nasceram com o dom da expressão para catalisar nossos sentimentos. Só não adianta ser de um lado só, uma visão só. É preciso pluralidade, visões diversas. Debate e coragem.

Formar opinião não dá mais dinheiro, nem status. Ao invés de achar isso lamentável, precisamos achar que é libertador. Quem sabe o melhor não seria falar menos, melhor, mas nunca se omitir?

trendr | vida para conteúdo relevante - TwitterFacebookMedium
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