Café

Sobre colocar-se em dia com o mundo e com você mesmo

O cheiro de café que entra pela janela me acorda abrindo o apetite. Gosto do dele com leite e canela, o gosto me faz lembrar a infância.

Levanto, caminho em direção ao banheiro, lavo bem o rosto e olho meu reflexo no espelho procurando sinais de envelhecimento. Vou à cozinha e coloco a água pra ferver. Tomo café com intenção de ficar alerta e também pela sensação de cumprir com a rotina, de seguir com a normalidade. Encho o copo e também a mente.

“O que farei hoje?” “Como está o trânsito essa manhã?” “Será que pego engarrafamento na Agamenon a essa hora?” “Acho que estou esquecendo algo.” “O leite está acabando, preciso fazer compras.” “Espero que o salário já tenha saído”.

Há a necessidade de sabermos do preço da gasolina ao vídeo viral da semana. Não é permitido esquecer, não é permitido não saber. Paramos para escutar os noticiários, os coordenadores do trabalho, os clientes à respeito do produto que vendemos, mas não paramos para nos escutarmos ou escutarmos quem realmente nos importa. Quem dará informações sobre nós mesmos? Há um noticiário que passe a minha programação?

“Bom dia, você levantou cedo hoje, está com algumas olheiras. Já ligou para sua mãe essa semana? Você deveria convidá-la para um café e conversar sobre aquela discussão que tiveram semana passada, ela pareceu um pouco chateada. Não esqueça de cortar o cabelo, sua aparência está terrível. Domingo o clima estará muito bom, que tal pegar uma praia e relaxar um pouco sobre o guarda-sol?

O tempo estará propício para você diminuir um pouco esse ritmo acelerado em que vive. Falando em viver, há quanto tempo você não sai de casa para um programa que realmente te diverte? A vida está passando e daqui a pouco não vai ter tempo de fazer nada do que sonhou. Se lembra daquela viagem à Grécia? Tente não se estressar muito hoje na empresa, afinal de contas é a sua saúde em jogo, não só mais um contrato a ser fechado. Por agora é só, encerramos mais um programa “Sobre a sua vida”. Tenha um ótimo dia e até amanhã.”

Ora, se existisse tal coisa quem sabe como estaríamos agora? Os poucos momentos que tenho para refletir sobre algo são os debaixo do chuveiro e os de antes de dormir, esses por último são os piores. A insônia, na maioria das vezes, vem acompanhada de reflexões. Acabo indo longe demais pensando no passado ou me preocupando com o futuro. Apelo então para os remédios de tarja preta, os prescritos para dormir. Em alguns momentos acredito que seria melhor bater com a cabeça na parede e apagar ou consumir todo o conteúdo de uma garrafa de vinho, mas não tenho tempo para ambos. Não tenho tempo para me recuperar de uma contusão na cabeça, nem muito menos de uma ressaca.

Durmo com o corpo pesado, como se a alma estivesse carregada. Me sinto pisoteada, acredito que por uma manada inteira de elefantes. O céu não clareou por completo, viro e encaro o teto branco manchado em alguns pontos. Nesse momento não penso em absolutamente nada, é esse o melhor momento do dia. Passo uma meia hora assim, até que o cheiro do café me tire do transe, pause meu estado vegetativo. É hora de acordar para a realidade, diz o relógio. Nesse momento escuto todos os barulhos do mundo. Uma variedade de buzinas, gritos de crianças e de adultos alterados. Há o barulho de alguma obra em algum lugar e de som ligado com a música do momento. Apertaria na opção “Mute”, se fosse possível calar os barulhos da selva de pedra, mas é mais um daqueles desejos sensacionais que só existem naquele mundinho que criamos na nossa cabeça, nos sonhos.

A vida real é amarga, como café forte e não há tempo para sonhar acordada.


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