Cansei de ser evangélico

Sobre os fantasmas legalistas que rondam as igrejas evangélicas.

Nasci numa família tradicionalmente evangélica. Naquele tempo a agenda de um frequentador do meio Pentecostal se resumia em professar a sua fé numa base de amor e justiça espiritual e social. Com o passar do tempo e com a conquista da consciência, fui percebendo o jogo político que também rondam as instituições religiosas dos templos, brigas por postos governamentais, guinadas financeiras entre outras coisas. Mas até aí tudo bem, sempre ouvi o jargão “onde tem homens tem erros” — concordo muito com este pensamento, pois os erros são comuns em todas instituições, sejam elas religiosas ou não.

Há anos atrás, o Ricardo Gondim pastor de uma igreja evangélica, vociferou em alto e bom tom na revista Carta Capital: “não sou mais evangélico”. Obviamente que recebeu duras críticas do mercado gospel. Confesso que aquela declaração machucou meu coração, mas hoje vejo o vanguardismo dele em pronunciar isso , era o prenúncio da patifaria futura.

Não quero ser visto ou mencionado como participante do mesmo círculo de Malafaia, Cunha, Feliciano, Edir Macedo, e tantos outros que mercantilizam a fé popular, que barganham o nome de Jesus, segregam as pessoas pela orientação sexual. Prefiro ser visto ao lado de pessoas de carne e osso, pessoas que sofrem na pele o preconceito do sistema, pessoas que apanham na rua pelas simples opção sexual, ou que taxativamente não se enquadram no modelo religioso.

Sinto muito em informar aos “crentes” de plantão, que homoafetividade, feminismo, igualdade racial e social, nunca foram agendas de esquerda, mas sim agendas do Reino; Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus [Gálatas 3:28]

Também sinto muito ao informar os legalistas de plantão que o evangelho não é propriedade das igrejas, que Jesus nunca andou com nenhum pastor ou defensor dos bons costumes, pelo contrário, foi visto na companhia de sonegadores de impostos, prostitutas, adúlteras, e até acusado como beberrão. O Mestre nutria certa repulsa aos dogmas instrumentados para coagir a fé dos pequenos através de sacrifícios tolos e através da legalidade da Lei mosaica, não suportava os vomitadores de regras, refutava todo e qualquer sacrifício em prol da construção da imagem do cidadão de bem. Um novo mandamento foi nos dado, o mandamento do amor, amor e amor. Minhas veias palpitam todas as vezes que leio e ouço coisas como: “em favor da família, em nome da tradição, da moral, dos bons costumes”. Então sou obrigado a lembrar tais pessoas que todos estamos caídos e todos nós precisamos da misericórdia de Deus.

Abandonei uma igreja evangélica há mais ou menos um ano e meio, e tão cedo não pretendo voltar ao modelo institucionalizado de fé. Minha utopia? Um lugar onde pessoas possam adorar ao Criador sem cor, sem dinheiro, sem sexualidade, sem preconceitos, sem regras morais ditadas por gente mais suja ainda. Na comunidade de Cristo só há lugar pra um tipo de pessoa; para os pecadores arrependidos que não julgam seus irmãos, mas os acolhem em todas as necessidades e dificuldades.

E antes que venham me falar que vocês estão defendendo o evangelho, sinto lhes informar uma última coisa; Jesus não precisa de militantes, ele necessita de discípulos espalhadores de justiça, amor e misericórdia.

Paulo Sales ©


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