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Caos e evolução política: O que o Brasil Quer.

Gráfico de Lorenz, que pela aparência de borboleta, popularizou o termo “Efeito Borboleta”

Diferentemente do que se popularizou na época do filme Efeito Borboleta, a Teoria do Caos não tem a ver com desordem ou confusão. Teoria do Caos, que teve ponto de partida os estudos de Edward Lorenz, trata de sistema clássicos extremamente deterministas, onde uma pequena mudança nas variáveis e condições iniciais pode gerar um resultado bastante diferente do inicial. Em resumo: São sistemas altamente sensíveis, mas não são bagunçados.

Mas não quero vir aqui trazendo analogias científicas. Não sou tão positivista assim, mas imagino que eventualmente algumas analogias nos ajudam a tentar encontrar terminologias melhores para as palavras que usamos.

Uma percepção anedótica e particular: A dificuldade de indignação

As pessoas aqui no Brasil se indignam com muita dificuldade, ao menos a ponto de fazer algo sobre a situação, que é um história velha já: É mais fácil se acostumar a sempre ter sido pobre do que ser rico que ficar pobre, e lógico, ficar rico é sempre bom…

Em outros países qualquer aumento da taxa de desemprego, ameaça de cortes, mudanças nos impostos levam já pessoas pra rua. Na França, pessoas queimam carros nos protestos mais simples. É muito complicado conviver com a decadência, isso gera movimento político, já com a ascensão é naturalmente mais fácil de se acostumar. E o Brasil só melhora de 20 anos pra cá, e foi só isso que eu a maioria aqui bem ou mal viveu: melhoras. A abertura de consciência tá acontecendo só agora e os mais velhos não se importam muito com essas coisas, pois elas parecem pequenas perto do que tinham que conviver. Meus pais conviviam com uma época em que tinha racionamento de leite! Ironicamente, vêm aquela como uma época mais próspera onde quem quisesse tinha emprego.

Parafraseando Chuck Palahniuk em o “Clube da Luta”, somos filhos do meio da história, não sabemos bem como reagir, como nos revoltarmos e contra que nos revoltarmos. Só agora com mudanças mais drásticas no mundo que é possível ver as coisas de maneira mais tridimensional e embasada e aí então reagir as situações. E muita coisa se mistura nisso, como a percepção de nosso papel nesta sociedade em desenvolvimento. Em “Sociedade do Cansaço”, Byung-Chul Han comenta sobre a passagem dos indivíduos de seres obedientes, onde o orgulho era iniciar e nela permanecer por décadas a fio, para seres de desempenho, onde indivíduos se tornam empreendedores de si mesmos. Hoje somos empreendedores de nós mesmos, projetos disponíveis para o mercado, e o fracasso desses projetos representa em parte uma falência própria. Um esvaziamento de propósito para além do campo profissional. Em resumo, não temos mais um alvo tão certeiro para quem depositar nossas indignações e frustrações. Essa raiva contida pode ser parte do que se vê hoje, e que tem como efeito colateral a polarização política não vista apenas no Brasil, mas como em diversos outros países do mundo.

E pra dar certo embasamento no que disse, o cientista político Ronald Inglehart comenta que ao longo do século XX, houve uma mudança macroestrutural em algumas sociedades, que teriam passado pra uma fase de industrialização mais avançada.

Para ele, as sociedades industriais avançadas desenvolvem suas economias baseadas no conhecimento e não mais na simples produção de bens de consumo. Ele argumentava que 2 processos ligados à emergência de sociedades industriais avançadas contribuíam para o aumento da democracia no mundo:

1) Processo de “mobilização cognitiva”;
2) A substituição gradual de valores materialistas por valores pós-materialistas.

O processo está relacionado às mudanças na natureza do perfil do trabalhador. Segundo o autor, as exigências de maior nível de educação formal e relativa independência pra execução das tarefas ajudam a desenvolver capacidades politicamente relevantes, tornando as bases sociais mais articuladas e mais preparadas pra pressionar por maior autonomia individual e maior participação no processo decisório.

O processo está ligado a uma mudança cultural mais profunda e de longo prazo que poderia ser observada entre diferentes gerações.(A questão da mudança de mundo que os mais velhos experimentaram, e nós iremos experimentar). A hipótese é de que as experiências vividas pelos indivíduos durante os anos de formação da personalidade determinam em grande medida seus princípios e valores prioritários.

Assim, nas sociedades industriais a tendência seria de uma predominância de valores materialistas— ligados à segurança física e econômica — enquanto nas sociedades industriais avançadas a percepção de prosperidade possibilitada pelo maior desenvolvimento econômico, com a superação das preocupações com necessidades básicas de subsistência, levaria à predominância de valores pós-materialistas, ligados a melhorias no padrão de vida pessoal e ao desenvolvimento da sociedade como um todo.

O autor cita uma escala de apoio a valores democráticos desenvolvida por Gibson & Duch (1991):
- Valorização da liberdade;
- apoio a normas democráticas;
- Consciência de direitos;
- Apoio ao dissenso e oposição;
- Apoio a meios de comunicação de massa independentes;
- Apoio a eleições competitivas;
- Tolerância política.

Um trecho diz: “Aqueles que apresentam valores pós-materialistas são notavelmente mais propensos a apoiar estes valores democráticos.”

O Brasil ainda tem comportamento materialista, e por isso grande parte da população rejeita a importância de soluções à longo prazo, e prioriza questões mais iminentes. Mas isso é parte do processo de evolução social.

Não vote neste, vote naquele e o famoso “voto útil”

Um pouco de estatística: Um negócio chamado Teorema Central do Limite garante que conforme uma amostra aumente, a distribuição amostral de sua média, aproxima-se da Distribuição Normal. Numa série aleatória com milhões de elementos, como é a do voto, onde não há uma centralização ou viés estatístico, a tendência é que os dados se acomodem numa distribuição normal, seguindo o padrão do gráfico abaixo:

fonte: https://www.monolitonimbus.com.br/distribuicao-normal/

O que isso significa? Significa que os votos se acomodam no centro desta curva, e que então a partir de contabilizados 68,2% dos votos, a probabilidade de que os demais votos alterem o resultado final é infinitesimal (praticamente zero). Portanto, o convencimento do outro dentro de cada uma das nossas bolhas me parece um exercício de retórica política muito frutífero, e que faz parte do processo democrático, porém não tem nenhum efeito prático, ao menos não neste modelo onde se busca em alguma medida “combinar votos” com toda a sociedade. Ainda que 100% da população vote, apenas cerca de 70% da população é necessária para definir o resultado. Este é, inclusive, o motivo pelo qual a obrigatoriedade ou não do voto não surte efeitos em alterar o resultado de uma eleição.


“Infelizmente, é música violenta e de amor. O homem que quer paz e tem a consciência limpa é por que tem má memória”
O que o Brasil Quer, da banda Lupe de Lupe