Capitã Marvel: Sutil demais para as expectativas

Capitã Marvel é um filme sutil, que mesmo sendo um bom filme pode não agradar a todos que esperavam uma pedrada de representatividade, algo na linha de Pantera Negra, por ser o primeiro filme do estúdio com uma mulher no papel principal, ou um filme cheio de suspense e energia como Vingadores: Guerra Infinita, dando início a próxima fase do universo cinematográfico da Marvel ou até mesmo a solução para todo o caos que se instaurou após as ações de Thanos, spoiler.

Ao invés de ser o filme que muitas pessoas esperavam recheado de referências ao futuro, ser o filme com uma resposta, ser o filme com uma solução, ou o filme com uma luz no fim do túnel, ou algo, qualquer coisa para apaziguar o coraçãozinho dos fãs da Marvel, o filme ignora toda essa pressão e anda com suas próprias pernas dentro do que é possível realizar sendo um filme de origem.

Ou seja, tendo aquela obrigação de pavimentar a personagem, explicar sua origem, seus poderes, sua personalidade, dar um vilão e posicionar ela dentro do orgânico MCU e apesar de tudo ele vai muito bem obrigado em suas obrigações, pode até falhar em não impactar como a maioria imaginava ou vir carregado de viés e bandeiras, mas nas suas sutilezas entrega um filme bom e consistente, com uma mensagem até poderosa para aqueles que conseguirem ouvir.

No filme nós seguimos a desmemoriada Vers, uma Guerreira Heroína Kree, que após uma missão dar errada, se vê a deriva na Terra procurando impedir a ação de seus temíveis inimigos metamórficos, os Skrulls, nessa saga acidentalmente ela acaba descobrindo rastros de seu passado e de que tinha uma vida nesse pequeno planeta azul. Apesar da apresentação da história a lá sessão da tarde, a película até consegue criar uma história coerente, com base em tudo que já se viu e se sabe do universo cinematográfico da Marvel.

Como estamos diante de um universo cinematográfico de 10 anos de criação não aguarde por muitas explicações no filme sobre raças de alienígenas, lugares, objetos nem nada disso, até pois depois de mais de 20 filmes todas essas situações e explicações são meio irrelevantes, por mais que o filme se passe antes de muitos dos eventos dos outros filmes ao ser situado em 1995 a grande maioria já está calejada de informações para se guiar por ele.

Por falar na época, o filme até trás uma boa remontagem dos anos 90, com referência que vai de lojas, filmes, brinquedos à músicas da época, apesar do filme não ter aquela intenção de jogar os telespectadores no túnel do tempo ele faz a lição de casa ao não ignorar os aspectos do tempo em que está inserido.

Voltando ao filme, Vers ou Carol Danvers, a Capitã Marvel do título interpretada por Brie Larson é uma personagem extremamente divertida, seu sarcasmo é muito apurado, até melhor que o de Tony Stark e ela é uma personagem bem poderosa de caráter, que mesmo sem levantar diretamente as bandeiras ideológicas do empoderamento feminino, consegue representar bem a figura de uma heroína na tela grande, independente, forte e inteligente e com uma leitura sutil sobre alguns aspectos pessoais para que cada um intérprete como quiser.

Fora isso o filme apresenta um jovem e divertido Nick Fury, novamente vivido por Samuel L.Jackson e muita maquiagem, que junto com Vers forma uma bela e inusitada dupla, típica dos filmes policiais dos anos 90, é impossível não fazer uma certa analogia e ver Fury como o Murtaugh de sua insana e poderosa Riggs de saia que é Vers, uma bela alusão a Máquina Mortífera.

Fora isso os vilões do filme também são divertidos, os Skrulls podemos dizer que de certa forma são bem fora da casinha, apresentando algumas belas cenas de humor não intencional e algumas intencionais também. A Marvel até tenta criar vilões mais profundos, mas aqui servem mais de alivio cômico mesmo, trama a parte.

O filme também pisa um pouco no freio na questão de ação, sendo um filme menos recheado de explosões e cenas mirabolantes de ação, por mais que o nível de poder de uma certa escalada no filme, no geral ele é mais enxuto nesse quesito que os outros da casa das ideias, se valendo muito mais do carisma de seus personagens e “historia” do que no modo Michael Bay de ação, que o MCU segue as vezes.

Apesar de ser um filme divertido Capitã Marvel, talvez venha a sofrer dessa insana expectativa que a Marvel Studios colocou em cada um de seus fanboys ao fim de Guerra Infinita, enquanto a maioria de nós espera por respostas ver um filme estrelado por uma heroína em seu filme de origem, que por mais que responda algumas perguntas da concepção do universo como um todo, acaba não acrescentando muito para apagar as chamas do hype criado.

Talvez só ser um filme bom, divertido e sutil em todo o contexto da representatividade não vá ser o suficiente para cair nas graças do povo como um dos melhores filmes do estúdio e sendo justo ele não é, mas também figura longe de ser uma péssima inclusão ao universo. No entanto não há como não imaginar quão divertido será ver a volta da carismática, sarcástica e poderosa Carol Danvers ao MCU interagindo e chutando bundas junto com os personagens remanescentes dele.