Carta aberta à minha realidade: O meu semestre acabou comigo, e o seu?

Aline Castro
Dec 17, 2017 · 7 min read
Fonte: Business Insider

Relatos sobre como a Universidade me levou de suspiros ao desespero emocional

Meros mortais uma vez relataram que a Faculdade é o melhor e o pior período da sua vida. O melhor porque, uma vez que está no curso e área que ama, tudo se torna mais prazeroso. O pior porque os incontáveis sacrifícios te levam à um buraco negro do qual não se tem localização e, talvez, tampouco, perspectiva de volta.

Hoje eu gostaria de falar o que a faculdade representa para mim, e para muitos colegas, não só do mesmo curso, como de cursos diferentes. Talvez você, leitor, se identifique. Talvez não. Talvez tenhamos realidades diferentes. Tudo o que eu relato é parte presente e extremamente vívida em mim.

Eu tenho 20 anos. Entrei na universidade para cursar Relações Internacionais aos 18, quase completando 19. Esperei um ano e meio antes de começar porque estava me qualificando em um curso de Francês no exterior, pago com dinheiro muito suado e difícil. Na verdade, passei a vida inteira me qualificando. Estudando, me dedicando — sendo uma das melhores da sala no ensino fundamental e no ensino médio. Aos 16 já me formava em Inglês — 2ª da turma, com notas quase beirando os 95%. Estudei por seis anos e meio. Logo depois, comecei o estudo de língua francesa: seis meses no Brasil, curso intensivo de seis meses no Canadá (aproximadamente 6h por dia) e mais cinco meses intensivos de aperfeiçoamento em Francês Quebécois aqui em São Paulo.

Meus pais sempre me incentivaram a estudar muito, porque somos de família humilde. Meus pais trabalham vendendo doces, então sempre se esforçaram ao máximo para me dar um bom estudo. Eu nunca tive celular novo, tênis de marca cara, nem festa ou viagem pra Disney aos 15, mas as mensalidades dos meus cursos sempre estavam pagas em dia. O quão grata eu sou por isso, e sempre fui, espero que meus pais saibam.

Sempre quis estudar Comércio Exterior, porque minha irmã fazia esse curso na faculdade e ela sempre foi meu espelho. Via que ela estudava o que amava e trabalhava com idiomas em uma ótima empresa, e queria aquilo também. Sempre sonhei em ser essas mulheres inspiradoras com terninhos e saltos lindos, bem do estilo executivas de sucesso. E eu tinha facilidade com idiomas desde pequena, então queria trabalhar com algo que pudesse utilizar o que eu tinha de bom. Quando descobri as Relações Internacionais, em um período da minha vida que estava, mais do que nunca, engajada nos debates políticos e sociais de Facebook e redes por aí, me encontrei. Olhava aquela grade curricular e só sabia sentir aquele apertozinho no coração de saber que estudaria tudo que eu mais queria e que mais gostava.

Entrei no 1º semestre com aquele brilho nos olhos de caloura. Com sede de aprender. No primeiro dia de aula, me lembro bem que um professor bem velhinho nos questionou quem éramos, quantos anos tínhamos, se falamos algum idioma e qual área do vasto campo de atuação das RI’s gostaríamos de atuar. Quando chegou minha vez, eu respondi que queria ser Diplomata. Que meu sonho era passar no concurso do Itamarati. Ele olhou bem fixamente nos meus olhos e indagou: “Hm, você sabe que é difícil ne? Quase ninguém passa. Tem que ser muito bom pra passar…. Estudar muito.” Relevei. Talvez estivesse cansado de ver tantas pessoas almejarem coisas grandes e não fazerem por onde. Decidi, mais uma vez, que faria de tudo para estar entre os melhores da sala. Me dedicar ao máximo. Talvez, eu não soubesse o que me esperava logo adiante.

Naquela época que entrei na faculdade, já tinha problemas de ansiedade. Eu já fazia parte dos mais de 11,5 milhões de brasileiros com o distúrbio. Na época das provas, eu estudava tanto que chegava a chorar de nervoso. Sentindo que não ia conseguir, que ia me dar mal. Não conseguia “pegar leve”, como alguns amigos faziam. Pra mim, tinha que estudar muito até meus neurônios chegarem a ponto de explosão, se é que isso é possível. Ralei muito, chorei muito, mas passei direto, sem exame. No segundo semestre, também, a situação foi a mesma.

O problema aconteceu mesmo no 3º semestre. Além de ser um semestre maçante e longo, com aulas muito boas mas matéria muito extensa, os professores pareciam exigir mais do que eu e meus colegas podíamos aguentar. Eu sempre fui a favor de rigidez, mas simplesmente todas as linhas que me sustentavam em questão emocional, profissional, pessoal e acadêmica não estavam aguentando tanto quanto antes. Passei o semestre todo dando tudo de mim, literalmente meu sangue. Passei o semestre ouvindo alguns elogios de professores afirmando que minhas argumentações eram muito bem fundamentadas, consolidadas e que eu era muito inteligente. Mas parecia que tudo era em vão. Pra mim, poderia ouvir qualquer elogio, que não significaria nada se eu não fosse bem nas provas.

Eu estava com problemas pessoais, mas deixei-os de lado para me dedicar 100% às matérias. Como sempre, fiz meus mapas mentais, resumos, folhas de questão, assisti vídeo aulas e fiz conferências de Skype até tarde com amigas a fim de revisar o conteúdo. Eu sou a louca dos métodos de aprendizado, possuo pelo menos uns seis, e vou variando conforme as matérias vão demandando. Chegávamos mais cedo na faculdade para revisar os pontos importantes antes da prova na cafeteria, e ficávamos até depois do horário para estudar na biblioteca.

Em muitas provas, respirei confiança do começo ao fim. Eu estava preparada. Tinha estudado muito. Muito mesmo. Não tinha perdido uma aula sequer. Meus cadernos estavam mais do que completos e organizados. Muitos colegas tiravam xerox da minha matéria por sempre estar em dia e organizada. Minha dedicação à academia sempre foi constante e exponencial. Mas quando os resultados saíram eu só podia e só sentia vontade de chorar. Chorar de soluçar. Igual criança quando deixa o sorvete cair na grama ou na roupa. Todo meu esforço, minha confiança, meu conhecimento, pareciam não valer absolutamente nada. Peguei exame em 3 de 5 matérias. E me vi jogada em uma cama, tremendo, chorando tanto que não conseguia respirar, tentando acalmar minha mente com frases motivacionais e esperançosas de que tudo daria certo no final.

O que a faculdade fez comigo?

A faculdade me fez amar tudo o que eu estudo. Até as matérias que eu não tinha tanto interesse assim, eu sempre me dediquei. Participando de eventos acadêmicos, extracurriculares, lendo livros nas férias, me preparando para os debates em classe... Tudo isso foi muito bom. Talvez nosso erro seja uma autocobrança muito grande. Achando que esforço é sempre sinônimo de resultado, que quem planta hoje, colhe amanhã. Às vezes o amanhã demora um pouco mais do que esperamos. Às vezes também achamos que os professores admiram ou consideram nosso esforço constante. Na verdade, não é bem isso. Seu esforço, vezes, pouco importa. Seu conhecimento, idem. A faculdade cria, em muitos casos, robôs prontos para reproduzirem frases prontas e pré-elaboradas, que quando pedidas em avaliações devem ser escritas da mesma maneira que foram ouvidas em aula. Se você não lembra o que o professor disse à exatos 65 dias atrás, em uma terça-feira às 8:42 da manhã… Problema seu, amiguinho.

A faculdade me fez ver, antes tarde do que nunca, que somos à geração dos prazos. Tudo bem perder o sono, ficar até 4 da manhã acordado, estudando ou fazendo trabalho. Tudo bem não conseguir comer, não conseguir ter saúde mental e, tampouco física, se seu caderno está em dia. Tudo bem perder amigos por não ter tempo, afinal, você está se matando de estudar. Tudo bem, porque no final, ou você escreve como eu quero que você escreva, ou você tá fora. Eu, mais do que ninguém, sempre fui defensora dos sacrifícios. Sacrificar um tempo livre, um filme com os amigos, um almoço com o namorado, um domingo em família. Tudo isso pra poder estudar e fazer trabalhos. Eu acredito, e ainda continuo acreditando, que os nossos sacrifícios de hoje preparam nossos caminhos de amanhã.

O que me preocupa não são os meus problemas, minhas lamentações de fim de semestre, meu esforço, vezes, em vão. Eu sei que tudo isso um dia vai valer a pena. Tenho uma família, amigos e namorado que muito me ajudam a controlar a ansiedade e as expectativas frente à academia, às notas e provas. O que me preocupa mesmo é lembrar que não estou sozinha. Que assim como eu, centenas de estudantes perdem a sanidade mental, adquirem problemas alimentares, físicos e emocionais dentro da universidade, que atua tanto positivamente como negativamente na vida do aluno. E que a cada ano, mais centenas de jovens findam o Ensino Médio e ingressam na universidade com as expectativas no topo, e as responsabilidades todas juntas num saquinho preso às costas.

Eu já vi casos de alunos que fizeram loucuras por conta de nota. Por exemplo o menino que, semanas atrás, foi reprovado e quebrou a faculdade toda com um taco de baseball (que por mais hilário que seja pensar por um lado mais panorâmico da coisa, por outro, é extremamente compreensível o desespero do menino em fazer o que fez — se dedicar por tantos anos e reprovar por conta da burocracia — por mais que a violência não seja a saída para nenhum problema). Entendem? O que a faculdade está fazendo conosco? Como ela atua na vida do aluno? A faculdade deveria oferecer suporte emocional pra quem tem dificuldade de aguentar um milhão de prazos e obrigações jogados nos ombros? O tão sonhado diploma precisa ser tão duro assim? A Faculdade cria pensadores e profissionais ou apenas robôs reprodutores de conteúdo pronto?

O meu semestre acabou comigo, e o seu?

Eis aqui meu desabafo.

NEW ORDER

Produção colaborativa de histórias e tendências para instigar você. Somos a primeira e maior publicação brasileira no Medium, vamos juntos?

Aline Castro

Written by

Estudante de Relações Internacionais, que costuma nadar contra a corrente e expor suas opiniões sem medo de ser feliz. Vamos evoluir juntos? | SP | 20

NEW ORDER

NEW ORDER

Produção colaborativa de histórias e tendências para instigar você. Somos a primeira e maior publicação brasileira no Medium, vamos juntos?

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade