Casais embustes?

Se A não ama B, isso não é da nossa conta

Ilustração: TC

Escrever sobre o amor é trazer verdades pra uns, mas, muitas vezes, é fazer com que outros tantos torçam o nariz pra o que você coloca na tela. Até o final do texto você vai entender o que digo.

Mais do que antigamente, agora que, uma vez que outra, escrevo sobre relacionamentos tenho sido mais requisitado pra ser conselheiro. Amo forte. Entretanto, lembro de certo dia que alguém me perguntou “eai, que acha desses dois juntos? Um belo casal embuste, né?”. Eu fiquei “Que!?! Como assim??”. Com isso, prontamente, perguntei o que seria um “casal embuste” e a pessoa me respondeu “um casal mentiroso, que se autoengana, que não está dando certo junto, não tem nada a ver e talvez não percebam” e por aí definiu. No caso, aparentemente, aos olhos dessa pessoa, sobre o relacionamento que me perguntava, acreditava que esse não estava lá muito bom, não parecia ser feliz.

Questionamentos como esse e outros comentários, não acontecem uma vez, não, por semana. Talvez venha tendo um frequência cada vez mais alta, duas ou três, o que é um tanto elevada pra quem começou só antes de ontem a escrever sobre apaixonites e amorecos. Enquanto a pergunta pairou no ar, a minha mente ficou a ecoar com uma risada irônica ao fundo “nossa, essa pessoa aí nem imagina a desgraceira que é a cabeça e coraçãozinho desse menino e vem perguntar umas coisas dessas sobre a vida dos outros”. É aquilo da gente ter mais o que fazer, sabe? Pois é.

Então, com essas perguntas, a minha reação, como sempre tem sido, é a de respirar fundo, ativar meu lado deboista, falar pausadamente pra deixar bem claro, logo de cara, que: não me sinto no direito de julgar casal algum. Nem A com B ou C com D e X com Y ou Z ou W. Meus pitacos não são bem-vindos onde não foram chamados. O que me cabe é torcer que sejam felizes e estejam em um relacionamento com reciprocidade, respeito, amor e felicidade, casem e, se for possível, me convidem pra festa. Tudo bem que, por vezes, por segundos, até paro e penso um pouco e tenho as minhas conclusões, mas, logo caio na real e me dou conta que não posso declarar nada, porque existe aquela máxima da qual nunca devemos esquecer que a liberdade de expressão é diferente de falar o que bem entende.

Creio que são nessas horas que a razão deveria dar um puxão na orelha e fazer as pessoas pensarem que, muitas vezes, ninguém pode ficar definindo a relação das pessoas e expondo uma opinião sem conhecimento de fato, já que, por suposições, se A não ama B ou se A não combina com B, isso não é da minha conta e nem de ninguém que não esteja dentro dessa relação. Quem a paga não somos nós, uma vez que as nossas avaliações, possivelmente, não farão diferença alguma pra que esse resultado seja como achamos que deveriam ser. Alguma das partes do casal perguntou sobre a relação pra você? Sim! Ah, então, a história muda e você tem direito de expressar o que pensa. Caso contrário, guarde o seu julgamento.

É claro que sou totalmente contra o velho ditado “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. Intromete-se, sim. Essas situações de relacionamentos abusivos, realmente, não tem como se ausentar e é preciso tentar intervir, sim, e você tenta ajudar de alguma maneira. Agora, se pedirem a opinião sobre duas pessoas, só para mera especulação, ti-ti-ti, conversa fiada, como naqueles programas de tv de fofoca do final tarde, “eles não combinam, né?!”, respondo de supetão “olha só, pois é, não sei, não posso julgar… deixa eu ver aqui o que tenho pra fazer quando chegar em casa... ahh, tenho que organizar meu guarda-roupa” ou pergunto se vai chover ou falo de uma série que comecei na semana passada. Dou meu veredicto e desvio o assunto. Caio fora. Dou fim antes que eu seja levado pra o caminho quase sem volta e viciante que é o território *não tão tão distante* do cuido da grama do vizinho e esqueço da minha.

Quem somos pra ousar dizer quem deve amar quem? Quem somos pra dizer quem combina melhor com quem? Se é um relacionamento saudável deixem que cada um descubra o caminho do verdadeiro amor, sem dúvidas, acertando e errando ao amar. Descobrindo quem é melhor pra si.

Quando disse no início do texto que há quem torça o nariz pra algumas ideias que você diz sobre amor, é que esse hábito de conversa de janela, de conversa de canto, especulativa, dos relacionamentos alheios, tão comum no nosso cotidiano, que é pequena e vazia, tem quem diga “que mal tem?!” e é amarga de ser percebida como nociva. É feio. Muito. Repito, se A não ama B, um dia dá um estalo e A vai buscar quem ama de verdade. Não é da nossa conta. Preocupe-se em estar entregue nos seus relacionamentos amorosos e isso será um belo avanço de vida.

Você diz “que acha desse casal embuste aí?”. Bom, não acho nada. Se você diz que casais assim existem, é verdade, não discordo. Inclusive, boa parte de nós, infelizmente, já pode ter vivido um relacionamento ruim, em maior ou menor grau. E o que precisamos fazer pra terminá-los? Anota a dica: não esteja dentro de uma relação amorosa assim. Todo mundo merece um amor de verdade. Pule fora. Se estiver, quiser um conselho, me pergunte. Estou disposto a ouvir e tentar ajudar. Agora, a relação dos outros, em tese, não nos diz respeito. Não me pergunte nada. Não especule pra ter o que conversar na roda de bar. Eu tenho mais o que fazer e pensar.