Charlottesville também queima abaixo do Equador

Por que a gente não se indigna com as coisas que acontecem por aqui?

Artwork: Paula Maria.

12 de agosto de 2017 e uma marcha declaradamente neonazista ocorreu em Charlottesville, Virgínia, EUA. Uma marcha de pessoas declaradamente contra negros, imigrantes, gays e judeus em um dos países com o mais alto Índice de Desenvolvimento Humano do mundo. Uma marcha que deixou feriados e causou uma morte. Daqui, do lado latino dessa América que nunca nos coube, observamos abestalhados, indignados, doídos.


Não poderia ser diferente, certo?

Poderia. Poderia sim.

06 de junho de 2016. Brasília, Distrito Federal, Brasil. A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no país.

Quais os paralelos?

Tanto as cidades brasileiras quanto americanas conservam em suas estruturas suor de escravos vindos da diáspora africana. Os povos negros não trouxeram meras contribuições para a cultura desses países. Nós a construímos, juntamente com os povos nativos e colonizadores europeus. A América é nossa. Nós também a criamos.

E se hoje ocupamos, em nossa maioria, guetos e páginas policias nos noticiários, é porque esqueceram-se de oferecer a nós, junto com a "liberdade", condições para vivermos em igualdade com os outros.

Mas esse texto não é sobre isso. É, mais uma vez, uma reflexão acerca do quanto o racismo no Brasil é parte da nossa estrutura de pensamento e cultura.

Nossa indignação perante o que aconteceu nos Estados Unidos é o mínimo que poderíamos sentir. É claro. Mas, por que a gente não se indigna com as coisas que acontecem por aqui?

Há 500 anos os negros brasileiros têm sido vítimas do Estado e de uma ideologia branqueadora que insiste em esmagar nossa identidade, cultura e vidas. O Atlas da Violência de 2017 prova isso. A CPI do Assassinato de Jovens de 2016 também. No entanto, até muito recentemente nosso país vendia o mito da democracia racial brasileira e parte da população até engolia essa história. Mesmo hoje, quando se fala em racismo sempre existe um dedo apontado que grita e esperneia: "é mimimi".

Não é mimimi. Não é mimimi.

Blackface, falta de representatividade, whitewashing, são todas facetas maquiadas do mesmo racismo que leva supremacistas brancos às ruas nos Estados Unidos e que nos choca. Facetas mais suaves, claro. Mas, ainda assim, conservam e reiteram no imaginário social que ser preto é motivo de escárnio. Que ser preto é engraçado. Que ser preto é ruim. Que nosso cabelo é ruim, que nossa pele é feia, que nossos quadris são largos demais, que nossos narizes são largos demais. Que somos burros. Que somos pobres. Que somos criminosos. É tudo a mesma coisa. O mesmo ódio.

Como eu já disse por aqui, no Brasil

Não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas fazemos o que talvez seja pior. A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós o tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite.

(Nelson Rodrigues)

Os racistas brasileiros até têm amigos pretos e jamais iriam para as ruas em um protesto abertamente contra negros. Os racistas brasileiros conservam a ideia da democracia racial — para eles, vivemos em uma sociedade pós-racial, em que pouco importa a raça, somos todos iguais e temos as mesmas oportunidades. Para eles, o fato dos negros ocuparem as periferias de nossas cidades é simplesmente um problema econômico e não tem nada a ver com o fato de que milhares de negros foram postos nas ruas para morrer em 1888. Para eles, o fato dos negros se envolverem com criminalidade é meramente um problema de caráter. Os negros poderiam ter escolhido diferente, afinal, eles escolheram diferente.

E o que é pior? O racista que se declara ou o que se esconde? É claro que o mais difícil de se combater é o que se esconde. O que nem se percebe como racismo.

A maioria das pessoas que se doeu com o que aconteceu em Charlottesville não percebe as engrenagens do extermínio das populações negras que continuam rangendo por aqui. A culpa não é só delas. Não é sempre mau caratismo, é um sistema de práticas que está posto e legitimados há décadas e que, por isso, é naturalizado. Estrutural.

Eu odiei o que aconteceu em Charlottesville. Eu fiquei chocada porque a dor causada pelo Nazismo sempre foi levada muito a sério pelo Ocidente, diferente da diáspora africana e do regime escravocrata. Mas me dói tanto quanto saber que a mesma ideologia assassina um monte de jovens com a mesma pele que a minha durante a madrugada nas periferias brasileiras.

Ninguém se importa quando o racismo é limitado pelas fronteiras brasileiras. Há sempre alguém pra banalizar nossa dor, há sempre alguém pra falar em meritocracia, há sempre alguém pra dizer que as políticas de reparação são privilégios. Isso dói mais ainda. Mais ainda.

Por mais que você corra irmão
Pra sua guerra vão nem se lixar.
Esse é o xis da questão,
Já viu eles chorar pela cor do orixá?
E os camburão o que são?
Negreiros a retraficar.
Favela ainda é senzala, jão,
Bomba relógio prestes a estourar.

(Boa Esperança, Emicida)


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