Foto por Leo Canabarro

Ciro Gomes é o anti-herói que o Brasil precisa.


Um dos motivos mais claros do deprimente momento político que vivemos é essa mania tosca do eleitor de espelhar nos candidatos características heróicas ou de vilania. Uns sonhando que o Brasil vai ser "salvo" pela truculência militar daqueles que não tem "papas na língua" e outros alimentando a ilusão de um país "feliz de novo" nas mãos do partido que vem tentando monopolizar o discurso progressista há décadas.

Lula e Bolsonaro figuram como heróis intocáveis ao mesmo tempo que representam os mais deploráveis vilões da nação. Ambos com apoio e rejeição muito semelhantes (Lula encarnado em Haddad, é claro). Duas faces de uma moeda que gira no ar e a única certeza que temos é que, caia onde cair, não será no bolso dos brasileiros.

Acontece que, correndo pelas margens, mais de uma dezena de alternativas nos foram apresentadas. Tem o doidão do Daciolo que é homofóbico mas ótimo de fazer memes. Tem o milionário "liberal na economia mas conservador nos costumes". Marina dedo-verde e ficha (realmente) limpa. Tucanão paulista. "Ey ey ey mael…". O Boulos com seu discurso incômodo e certeiro. E, ele, o nosso anti-herói, Ciro Gomes.

Confesso que tenho medo de parecer o bobo do Kim Kataguiri quando fez aquela analogia do impeachment da Dilma com os megazords dos Power Ranges, na sua falecida coluna de opinião da Folha de S. Paulo. Não é o caso. O anti-herói é um arquétipo importantíssimo não apenas nos quadrinhos, filmes e desenhos de fantasia, mas também na hora de compreender a capacidade que temos de nos identificar com aqueles que estão no poder.

Alguns personagens fictícios americanos, que ganharam grande destaque nos últimos anos, como Wolverine e Deadpool, compartilham a alcunha de anti-herói por transitarem entre o bem e o mal de maneira mais humana. Não são estereótipos quase canônicos ou demoníacos. São gente como a gente. Às vezes seguem valores morais humanistas e às vezes quebram todos os protocolos em nome de sentimentos como vingança ou ódio.

Ciro é um destes. Inegavelmente autor de frases e atitudes machistas mas que assina diversas propostas de promoção da igualdade de gênero em seu plano de governo. Que enfia goela abaixo de todos nós uma vice como Kátia Abreu mas é coerente e incisivo na defesa de diversas pautas progressistas. Que desconversa de assuntos como aborto e liberação da maconha mas deixa claro que tais temas serão discutidos publicamente e não ficarão guardados na gaveta tementes ao conservadorismo.

O candidato do "temperamento forte", "intempestivo", é também o que usa todo este temperamento para defender o processo democrático. "Cirão da massa" é de família de políticos, com atitude de coronel, mas tem seus mandatos muito bem avaliados e sustenta décadas de vida pública sem nenhum caso de corrupção. Uma façanha alcançada nem mesmo pelo "mito", que hasteia esta bandeira mas esconde MUITA poeira debaixo do tapete.

Ciro já foi meu candidato, deixou de ser e, agora, nos acréscimos do segundo tempo, é de novo. Mais do que nunca. Não só porque parece ser o único que pode derrotar tanto Bolsonaro quanto Haddad, mas porque não é momento para votarmos em um herói, mas sim em alguém que está anti-tudoissoqueestáaí. Um anti-herói que com certeza não vai "salvar" o Brasil, mas vai (tirando ou não seu nome do SPC) defender nossa democracia que, mais uma vez, se encontra em perigo.