Colapso institucional

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Enquanto política de austeridade ameaça de extinção os já precários sistemas de saúde, educação e a produção científica, Judiciário vive em realidade conto de fadas


A PEC dos gastos, que congelou em 20 anos investimentos em Saúde e Educação, parece não atingir o Judiciário. No palácio de conto de fadas dos ministros, apartados do mundo real, ainda se serve vinho do porto e mussarela de búfala. Estão todos muito bem corados, de bucho estufado e dinheiro vazando dos bolsos.

E sem nenhum constrangimento.

Poucos dias depois da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), anunciar que não teria condições, a partir de agosto de 2019, de pagar as mais de 200 mil bolsas de pesquisadores, cientistas — que mantém funcionando laboratórios e programas de pós-graduação — os ministros do STF vão receber um singelo aumento de 16%, no já astronômico salário.

É uma verdadeira abominação.

@msantoro1978

Em primeiro lugar, porque a tese da austeridade, do “cortar na carne”, defendida com unhas e dentes por Henrique Meirelles, além de ineficaz, é falaciosa. Tão falaciosa quanto a ideia de que a Reforma Trabalhista iria gerar mais empregos. Se no mundo pós-reforma o desemprego bateu recordes históricos, o próprio FMI (Fundo Monetário Internacional) — ao contrário de Meirelles e sua antiquada seita neoliberal — afirmou em relatório, onde cita o SUS e o Bolsa Família como exemplos, que não há crescimento sem distribuição de renda e combate as desigualdades estruturais. Ou melhor: o país continuará emperrado, enquanto não forem implantadas políticas agressivas de combate às desigualdades estruturais.

Mais grave: Juan Pablo Bohoslavsky, perito independente da ONU, e mais seis especialistas, divulgaram um relatório em maio criticando a PEC da austeridade. De acordo com o documento, o governo Temer não atendeu critérios internacionais de implementação de medidas de corte de gastos, o que gera, necessariamente, um impacto violento na população mais vulnerável, restringindo o acesso a direitos básicos fundamentais, e invioláveis: à saúde, à educação e à assistência social.

Fonte: G1

E não se engane. Quando se fala em “cortar na carne”, não é na carne da aristocracia do país que se corta. No furacão da crise, onde as pessoas voltaram a passar fome, o Carf perdoou uma dívida de R$ 25 bilhões do Itaú, em impostos devidos ao Governo. Temer, aliás, é amigo íntimo da presidência do banco. Amigo de frequentar a casa. E abrir a porta da geladeira.

Mas a abominação não para por aí.

A Câmara e o Governo planejam o perdão de 543 bilhões de dívidas de empresários com à União. Enquanto isso, morde-se a carne da previdência de aposentados que recebem um salário mínimo, arranca-se a pele dos meninos e meninas da escola pública. Até o osso.



É fundamental, e necessário, distribuir renda. E só se distribui renda com políticas públicas, investimentos estruturais e agressivos em educação, ciência e pesquisa. A PEC dos gastos e a Reforma da Trabalhista estão enterrando o país cada vez mais fundo no poço.

Enquanto isso, o Judiciário, que era visto por muitos como um farol na tempestade do caos institucional, e que deveria assumir as rédeas da crise — já que o Executivo e o Legislativo estão em ruínas — vive um conto de fadas, apartado da realidade.

O colapso já está aí. E não há para onde correr. Só nos resta a revolta, irrestrita e urgente.

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