Zero Cruzeiro (1978), do artista Cildo Meireles

Com Temer, surge a releitura do “rouba, mas faz”

A defesa do presidente Michel Temer ocorre em nome das estabilidades política e econômica e não pela confiança em sua inocência

Adhemar de Barros (1901–1969) tornou-se conhecido como homem público empreendedor por realizar grandes obras. Construiu as rodovias Anhanguera e Anchieta, o Hospital das Clínicas, o Estádio do Pacaembu, entre outras, no período em que foi interventor, governador eleito duas vezes de São Paulo e prefeito da capital paulista, entre 1938 e a década de 60.

Adhemar foi acusado de cobrar propina de empreiteiras para a concessão de obras públicas, entre outras denúncias. Acuados, seus apoiadores criaram o slogan “Rouba, mas faz”, em sua campanha para prefeito de São Paulo, em 1957, imortalizando o nome do paulista na crônica política brasileira.

Em vez de negar as acusações, os aliados de Adhemar de Barros reafirmavam seu estilo empreendedor e relativizavam as denúncias com o argumento de que o importante eram suas realizações e não o roubo. O tempo passou, mas o adhemarismo, não. As denúncias que levaram o Supremo Tribunal Federal (STF) a abrir inquérito para apurar se o presidente Michel Temer (PMDB) cometeu crime de obstrução à Justiça com base na delação premiada dos irmãos Joesley e Wesley Batista, do grupo JBS, propiciam a releitura do slogan “rouba, mas faz”.

A sociedade que derrubou uma presidente pelo “conjunto da obra” (as crises econômica e política pós-eleição de 2014), mas com base jurídica em suas pedaladas fiscais, agora parece disposta a conceder o benefício da dúvida ao presidente Temer, em nome das estabilidades econômica e política e também pela falta natural de um sucessor confiável. Com dificuldade de defender o presidente, mira-se na “pressa” do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e do ministro Edson Fachin neste inquérito.

O jornal O Estado de S.Paulo é o porta-voz dessa narrativa. Em A hora da responsabilidade, de 19 de maio, o jornal condenou o vazamento do áudio da conversa entre Joesley e Temer. “Não é de hoje que há vazamentos desse tipo — e isso só pode ser feito por quem tem acesso privilegiado a documentos sigilosos. Ao longo de toda a Operação Lava Jato, tornou-se corriqueira a divulgação de trechos de depoimentos de delatores, usados como armas políticas por procuradores.”

É isto a Justiça?, publicado quinta-feira (1º), criticou o juiz Sérgio Moro, que o jornal ajudou a transformar em uma espécie de guerreiro contra a impunidade, e os procuradores da República. “Criou-se um ambiente em que as delações parecem bastar. Se é assim, o objetivo não é fazer justiça, mas uma certa justiça. Aliás, ensinava o juiz Oliver W. Holmes que juiz não faz justiça, aplica a lei.”

O PT e a esquerda construíram uma narrativa de golpe para o impeachment da presidente Dilma. Em editorial publicado na época, o Estadão acusou Dilma de promover uma “guerra ao Estado de Direito” por se dizer vítima de golpe. Na semana passada, o jornal afirmou que as “delações se tornaram instrumentos eminentemente políticos”.

E concluiu: “Na patética articulação em curso para encontrar um ‘substituto’ para Temer caso o presidente caia, a primeira qualificação exigida é que o nome do candidato não tenha sido sussurrado por nenhum delator. Só então será considerada sua capacidade de governar o País. Essa é a prova de que a agenda nacional, em meio a uma das mais graves crises da história, foi definitivamente contaminada pelo pressuposto de que o Brasil só será salvo se a classe política for desbaratada, como se fosse uma quadrilha. Isso não costuma dar boa coisa.”

Estaria o jornal suspeitando de golpe?

Neste domingo (5), aprofundou as críticas ao Ministério Público Federal e ao ministro Fachin e levantou suspeita sobre a decisão autorizando o depoimento do presidente ocorrer às vésperas do julgamento da chapa Dilma-Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), previsto para esta terça-feira (6).

“Desde que o escândalo da gravação estourou, há quem defenda que a cassação da chapa no TSE seria uma “saída honrosa” para Temer, seja lá o que isso signifique. Se assim for, os tribunais estarão sendo usados para a produção de fatos políticos de extrema gravidade. E não seria a primeira vez, como infelizmente sabemos. Isso, sim, precisa ser esclarecido o mais rapidamente possível, mas parece que, sobre esse assunto, não há a menor pressa”, acusou. Quais seriam as outras vezes? O jornal não esclarece.

No artigo Ética e jeitinho brasileiro, o ministro do STF, Luiz Roberto Barroso, afirma que essa popular e enaltecida característica atribuída ao povo brasileiro traduz-se “na pessoalização das relações sociais e institucionais e importa, muitas vezes, no afastamento de regras que deveriam valer para todos”. Afirma que “o jeitinho oscila em uma escala que vai do favor legítimo à corrupção mais escancarada. E é precisamente porque algumas de suas manifestações não são condenáveis, que ele termina sendo aceito de forma generalizada, sem que se distinga adequadamente entre o certo e o errado, o bem e o mal.”

Nesse momento de grave crise ética, política, econômica e, por que não, até mesmo institucional, cabe nos perguntar até que ponto o jeitinho brasileiro continua a conduzir país. A tentativa de conceder o benefício da dúvida ao presidente Temer em nome da preservação das estabilidades política e econômica parece ter a mesma origem da defesa do “rouba, mas faz” da década de 50. Continuamos a relativizar as regras e a pessoalizar as relações sociais e institucionais.

Há um ano, o presidente Temer apresentou-se como a “ponte para o futuro”. Posteriormente, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse que ele era uma “pinguela” para 2018. Os fatos agora sugerem que Temer não é ponte nem pinguela para o futuro, mas que cavou um buraco ainda maior no meio de nosso caminho. A história testemunha que nossa leniência com erros sucessivos não constrói futuro algum, mas diferentemente, é a responsável pela falta de um.