Como a Spice Girls me ajudaram a ser a feminista que sou hoje.

Quando a Spice Girls apareceram na minha vida eu tinha 7 anos. Minha única obrigação era ir à escola, brincava até dizer chega e via religiosamente os desenhos que passavam na Manchete (Sailor Moon, Shurato, Cavaleiros do Zodiaco e outro que não lembro). Não sei exatamente o que me atraiu nelas, talvez a música ou a personificação de cada integrante que me fazia lembrar os desenhos que via, mas o primeiro cd que ganhei foi o delas e eu escutei o até arranhar.

Eu tinha uma preferida, a Mel C. Como não tinha muitas amigas e as poucas que tinha preferiam a Victória, então nunca tive que brigar para ser quem eu queria. Me identificava com ela, não apenas por ser fisicamente parecida comigo (morena, olhos grandes e com roupas básicas, preferindo esportes, algo totalmente voltada ao masculino, ao invés de maquiagem- no meu caso, desenhos de anime e brincar de Power ranger), mas pela voz. Que voz incrível. Dava toda uma atenção especial na parte de Mel C cantava, de parar o que estava fazendo para ouvir todos os tons.

Apesar de terem letras totalmente adultas (2 become 1 fala sobre sexo, vocês sabem, né?), como não entendia nada, só os fonemas, isso para mim não era bem uma questão. Enquanto minha lista infantil se misturava com as músicas do Castelo Ratimbum, Mamonas Assassinas e Pink Floyd, ouvir Spice girls era a coisa mais pop que tinha no meu repertorio. No meio da minha mochila da Sailor Moon e dos meus bonecos do Cavaleiro do Zodiaco, tinha material escolar das Spices, um VHS com um especial gravado que o SBT passou naquele tempo e já tinha visto o filme umas 5 vezes.

Hoje em dia, na verdade, acho o filme bem chato (recomendo ler sobre o filme neste texto incrível), mas com 7/8 anos era algo maravilhoso. Um musical, já que a maioria das músicas do segundo cd estava ali, uma história que parecia uma previsão para o que viria depois, cada integrante com sua personagem bem definida. Mas vi umas 5 vezes, com 5 grupos diferentes, porém todos com a minha mãe. Por um tempo foi meu filme favorito. Vi dublado por motivos óbvios e num cinema que hoje é uma igreja, na Tijuca. Após o filme infelizmente a Geri saiu. Já tinha mais idade, não sofri tanto, já via Disk MTV e assisti a estreia de Look at me. Não sei se chegou a ser o fim de uma era, já que estava caminhando para a pré adolescência e meus gostos estavam mudando para meninos com pouca roupa (Oi *N Sync), mas foi algo importante para formar quem sou hoje.

Spice Girls não possuíam letras vazias. Por mais que apenas depois dos 16 eu tenha entendido verdadeiramente o que elas queriam dizer com “If you wanna be my lover, you gotta get with my friends,”, sua transformação era além do superficial. Elas tinham algo de fato para mostrar ao mundo e faziam isso muito bem, além das músicas, mas nas suas atitudes, entrevistas e suas roupas. Quando a Mel C se veste com roupas ditas masculinas e diz que não é por causa disso que ela é lésbica, e se fosse não seria um problema, está falando a todas que podemos nos vestir com o que queremos sem que isso seja um espelho fiel das nossas orientações sexuais. Quando a Mel B usa seu cabelo da forma natural ela está mostrando a minas negras que elas podem ser o que são sem ferirem seu ser só para serem padrões.

Elas falavam abertamente sobre sexo, sobre amizade entre meninas(Migas são melhores que crushes, claro), namoros, términos, sobre ser mulher. Apesar de usarem roupas de acordo com os apelidos dado por um jornalista britânico (Baby Spice se vestia como uma menininha, por exemplo), e de fazerem pop chiclete, algo abominável para qualquer critico musical que acha pop algo menor, seu “girl power” contaminou a música e o mundo, dando possibilidades a meninas a dominarem as paradas e seus “ensinamentos” fossem passado a diante.

Claro que o Feminismo não foi criado nos anos 90 nem esquecido naquela década, mas o meu feminismo de hoje tem muito a agradecer a Mel C e as outras 4 meninas que se conheceram num teste de girl band, se sentiram exploradas e formaram a banda por elas, ouvindo que não dariam certo. O que a Beyonce, Megan Thrainor, Adele, Pitty, Nicki Minaj fazem hoje em dia não seria possível se não existisse aquela Girl Band inglesa gritando “Girl Power” em qualquer show que fizessem. E por mais que tenham passado 20 anos deste Wannabe, a mensagem que elas passaram será eterna, tanto que recentemente para comemorar a data fizeram este video. E por isso, por fazer parte da minha infância, adolescência e fase adulta, obrigada Spice Girls, vocês me ajudam a ser quem sou hoje.