Como a temática LGBT está sendo (ou não) tratado pela mídia tradicional?

E porque é possível (e desejável) liberdade de expressão conviver com regulação democrática da comunicação

As temáticas envolvendo orientação sexual e identidade de gênero, bem como LGBTfobia, vêm sendo cada dia mais retratadas nos meios de comunicação tradicionais do Brasil. Paralelamente, contudo, cada vez mais denúncias são feitas contra esses mesmos meios devido a declarações preconceituosas de seus apresentadores, entrevistados ou demais participantes. Isso ocorre principalmente porque, apesar de esses temas aparecerem frequentemente em jornais (seja nos impressos, seja nos televisionados) e telenovelas, programas humorísticos continuam a construir e manter estereótipos de pessoas LGBTs. Ao mesmo tempo, outros programas voltados para entrevistas, por exemplo, abrem margem para declarações preconceituosas que muito mais se aproximam a verdadeiros discursos de ódio, sem uma posterior problematização real do tema.

Inicialmente é importante frisar que atualmente é notável a mudança na forma como os LGBTs são retratados em novelas e filmes brasileiros. Se, anteriormente, predominavam personagens secundários e estereotipados (o gay sempre retratado como estilista, por exemplo, ou a lésbica que se veste sempre com roupas consideradas do gênero masculino), hoje em dia esses personagens assumem papéis de protagonistas na grande mídia — ainda que não em todas as emissoras — e assumem os mais diversos “estilos”. Destaca-se aqui alguns exemplos como o caso de duas senhoras homossexuais na novela “Babilônia”, da Rede Globo, e o papel de salva-vidas gay, interpretado por Wagner Moura no filme “Praia do Futuro”.

Entretanto, ainda hoje, tais papéis, na maioria das vezes, acabam sendo interpretados por atores heterossexuais, o que dificulta um real fortalecimento do protagonismo de pessoas LGBT no âmbito da teledramaturgia. Recentemente, por exemplo, o diretor Rogério Gomes, da Globo, escalou a atriz cisgênero Caroline Duarte para atuar como personagem transexual na novela “À Flor da Pele”, perdendo, com isso, a oportunidade de escalar uma pessoa que seja propriamente trans para o papel (ao mesmo tempo, a autora Glória Perez divulgou que haverá a participação de pessoas transgêneros na novela — apesar de não ter, ainda, divulgado nenhuma nome definitivo). Nesse quesito, nossos meios de comunicação podiam seguir o exemplo das séries Sense8 e The Orange is the New Black (apenas para citar as que eu conheço), ambas com personagens trans sendo atuado por atrizes trans (afinal, por que seria diferente?).

Elenco do seriado Sense8 na XX Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, a maior do mundo (Foto: Vitor Garcia)

Além disso, como denuncia o presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Travestis e Transexuais (ABGLT), Toni Reis, há ainda hoje uma falta de espaço dado nas novelas para manifestações de afeto, como beijos, entre casais formados por parceiros do mesmo sexo (vale lembrar que as cenas de sexo eram até então novidade nas novelas da Globo, antes da cena de “Liberdade, Liberdade”).

No âmbito dos programas de humor, por outro lado, o cenário é outro. Nesse meio, há um visível predomínio de personagens que perpetuam a visão estereotipada de pessoas LGBTs ou a difusão de preconceitos colocados em roupagens humorística a fim de que pareçam “aceitáveis” aos olhos de alguns. Isso ocorre tanto em programas no estilo talk show, como o The Noite do apresentador Danilo Gentili, quanto em outros programas que seguem o estilo do bastante conhecido Zorra Total. O mesmo se reproduz, ainda segundo o presidente da ABGLT, nos programas policiais e religiosos. No caso dos programas de humor, por se tratarem de sátiras, os apresentadores, atores e roteiristas muitas vezes entendem que tudo é permitido e aceitável, mesmo que suas representações acabem por fortalecer estereótipos ou estigmatizar ainda mais setores da sociedade já oprimidos cotidianamente. Realizam ainda essas representações sempre apoiados na noção de que tudo podem fazer por terem total liberdade de expressão no Brasil, sendo que quaisquer tentativas de restringir determinadas apresentações são vistas, prontamente, por esses como atentados à liberdade de imprensa, pensamento ou expressão.

No entanto, esses apresentadores, ao agirem assim, confundem liberdade de opinião individual, liberdade de comunicação comercial e liberdade de imprensa tratando todas como se fossem algo uno e negligenciando as especificidades de cada um — as quais trazem consigo impactos diferenciados na esfera pública (para entender melhor sobre essa diferenciação, leia esse artigo). Ao ter um espaço reservado na mídia, tais pessoas acabam tornando-se figuras públicas com forte influência sobre grandes parcelas da sociedade; logo, assumem ainda mais responsabilidades sobre aquilo que dizem e propagam em seus programas. Possíveis discursos de ódio, portanto, além das nefastas consequências que geram no nível micro — quando, por exemplo, esse é proferido em uma roda de amigos –, têm suas consequências potencializadas devido à enorme difusão de qual goza aquele discurso, pelo simples fato de ter sido proferido por um apresentador famoso.

É justamente nesse cenário que se insere a necessidade de uma regulação democrática da comunicação no Brasil, haja visto que a coexistência da liberdade de expressão e regulação da comunicação não é apenas possível, como também muitas vezes necessária. Quanto a isso, conforme aponta o professor da Escola de Comunicações e Arte da USP, Vitor Blotta, a partir de uma leitura de Habermas, “a liberdade de um sujeito só existe em conexão com à liberdade dos outros, e portanto, não há que se falar em liberdade de expressão sem formas regulativas que visam garanti-las a todos, ou limitar os seus abusos”. Logo, “não é possível fundamentar a validade e universalidade das liberdades individuais de outro modo que num acordo democrático entre todos os real e virtualmente afetados, no que diz respeito à natureza, à extensão e à formas de garantia dessas liberdades”.

Foto: Lucas de Godoy Caparroz.

Seguindo para o âmbito dos programas e seções de entrevistas, debates e outras formas na qual há a participação de personalidades externas ao meio de comunicação, percebe-se que há, ainda hoje, certa carência de uma posterior problematização em casos no qual o convidado apresenta declarações que atentam diretamente contra os direitos da população LGBTs — e de outras minorias. Em alguns casos, permite-se até mesmo a veiculação de afirmações que são claramente discursos considerados de ódio e, por isso, sujeitas a punições jurídicas e penais. Em cenários como esse, a mídia deveria se colocar como atora engajada no processo de democratização da sociedade e de desconstrução de preconceitos, rumo a um país mais igualitário, menos excludente e preconceituoso.

Vale apontar que essa mesma postura poderia ser útil também nos noticiários. Isto é, ao tratar agressões contra pessoas LGBTs, por exemplo, a mídia pode — e, por sinal deveria — ultrapassar o limite da simples narração do registro policial — muitas vezes permeada por um discurso sensacionalista –, expandindo o tema para análises mais profundas e demostrando, seja através de seus comentaristas, seja através de entrevistados, a inaceitabilidade de tais casos ainda se repetiram diariamente no Brasil (ah, seria belíssima também se parassem de deixar escapar ou colocarem de propósito “opção sexual” quando na verdade o termo correto é “orientação sexual”).

Apesar disso, merece reconhecimento a aparição — ainda rara ou quase inexistente — do tema e o claro posicionamento de alguns meios de comunicação tradicionais: o jornal Folha de S. Paulo em um editorial de 2014 apontava que embora ninguém seja obrigado a ter simpatia por gay ou gostar de ver dois homens ou duas mulheres se beijando, não é aceitável a repulsa agressiva à homossexualidade; o Estado de S. Paulo, por sua vez, em um editorial, há cerca de nove anos, já expunha também que “a LGBTfobia é um notório retrocesso em um mundo no qual uma das maiores conquistas da cidadania é o respeito às diferenças e preferências, inclusive no tocante à opção sexual”. No âmbito dos meios de comunicação mais recentes, o site do jornal Huffpost Brasil possui, desde sua criação, uma seção em sua página dedicada exclusivamente à temática LGBT, contando com uma série de colunista que tratam o assunto sob diversas visões e por meio de múltiplas abordagens.

Por fim, é importante destacar o papel desempenhado pelas chamadas mídias independentes — ou alternativas — em todo o debate que envolve a temática. Através de seus diversos veículos, esses meios de comunicação geralmente tratam as temáticas relacionadas aos LGBTs e à LGBTfobia com mais profundidade, se comparados às analises e abordagens realizadas por parte da mídia tradicional brasileira. Além disso, apresentam e abrem espaço para pessoas da própria comunidade LGBT, as quais escrevem regularmente em blogs e sites, além de outros meios exclusivos sobre a temática. Complementa esse cenário também, os diversos canais do serviço de vídeo Youtube gravados por personalidades LGBTs, como a Drag Queen Lorelay Fox — com seu canal Para Tudo –, a trans Amanda, do canal Mandy Candy, o Canal Põe na Roda, dentre muitos outros, os quais contribuem para uma maior visibilidade e discussão do tema na sociedade brasileiro, além de apresentarem pautas que contribuem realmente para o debate de assuntos diversos, partido sempre de um ponto de vista da própria população LGBT, tão negligenciado em outros meios.

Youtubers na XX Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (Foto: Vitor Garcia)

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