Reprodução/ Game Of Thrones — HBO

Como destruir os personagens da maior série de todos os tempos em 6 episódios

Uma (des)construção da 8ª Temporada de Game of Thrones

Eu realmente já estava bem desiludido com essa temporada de Game of Thornes. Afinal, a série era o pináculo da verossimilhança e da coerência dentro de si mesma até o final da 6ª temporada. Veio a 7ª e, como você podem ler no texto abaixo, já fiquei completamente sem esperanças para o que estava por vir:

Mas como diz o ditado: nada é tão ruim que não possa piorar, não é mesmo? E é nessa 8ª temporada que vemos como destruir boa parte dos personagens que foram muito bem construídos durante todas as outras temporadas.

Temos um primeiro episódio morno. Achei um pouco enrolado mas entendo que era para nos posicionar com relação a praticamente todos os personagens e o que estava acontecendo no mundo da última temporada para cá. Nada muito interessante mas ao mesmo tempo nada que realmente fosse um problema gigantesco (quer dizer, nessa altura do campeonato eu já tinha ‘aceitado’ o romance forçadíssimo da Daenerys e do Jon).

No segundo continuamos nesse clima morno com algumas coisas interessantes. Como Jon dizendo a Daenerys sua verdadeira origem e a coroação de cavalheira da Brienne. Mas continua com o fanservice forçadíssimo que tivemos na última temporada com passagens que pouco importam pra trama final mas que finalmente vão culminar na esperada guerra contra os White Walkers, construída desde o começo da série.

O que nos leva a um dos poucos bons momentos da série nessa 8ª temporada. O episódio 3 é realmente eletrizante e nos deixa na ponta da cadeira o tempo todo. Tem uma ou outra forçada de barra, como a aparição da Melisandre só para acender as espadas e a barreira armada, mas que podemos relevar por causa da tensão que nos passa de que as perdas serão, talvez, irreversíveis.

Gostei do término do arco da Theon e da resolução da Arya sendo a heroína, mas novamente sucumbimos à falta de coragem do roteiro de matar personagens que seriam realmente importantes para o resto da trama. Mataram somente personagens terciários para que a verdadeira luta fosse em King’s Landing, deixando assim um gosto amargo, afinal eu esperava que a grande guerra seria justamente com o que vinha do Norte, e não pelo trono de ferro.

Passamos por isso e então vamos para o que era o mais importante: a guerra pelo trono. No 4º episódio temos a preparação para a grande guerra. Pequenos desentendimentos entre Sansa e Daenerys, a revelação do passado de Jon para as irmãs, que então revelam a Tyrion, que revela a Varys, para então chegarmos na viagem até a base dos Dragões.

Em uma emboscada, Euron consegue matar mais um dos dragões de Daenerys, que não se vinga naquele momento e vê seus navios e suas tropas serem afundadas pelo aliado de Cersei. Algo que, naquele momento, foi interessante já que conseguiu aparentemente igualar as forças para a última guerra que estava por vir e ainda deixar um bom suspense pelo que a rainha dos Dragões iria fazer. Só que aí temos mais uma daquelas coincidências de roteiro que a série abusou nas últimas temporadas.

Cersei, nessa emboscada, consegue capturar Missandei e levá-la como prisioneira no final do episódio. Algo que até faria sentido se o ataque não tivesse sido de longuíssima distância com os arcos que mataram o dragão de Daenerys. Sendo então só mais uma virada extremamente gratuita e simplória para dar mais urgência na cabeça da mãe dos Dragões.


Para então chegarmos no episódio que dividiu a internet. No episódio 5, The Bells, temos Cersei matando Missandei (como esperado pela sua personalidade) e Daenerys engolindo frio para a batalha que viria logo após. Era o começo do episódio da, em tese, batalha mais importante da série. Afinal, com os arpões estava claro que Cersei tinha uma bela arma contra Drogon e que as muralhas mais a companhia Dourada seriam o trunfo por terra contra o exército de Daenerys, correto? Bem, na verdade não.

Diferentemente das outras duas vezes que tínhamos visto os arpões, nesse episódio eles foram completamente inúteis. Em um handcap bem mal feito, e na verdade o que deveria ter acontecido em todas as outras vezes, Drogon volta a sua plena forma e destrói todos os arpões, em terra e em mar, de maneira absurdamente simples ganhando a guerra antes mesmo de ela começar de verdade. Não existiu sentimento de urgência, não existiu batalha, existiu somente um massacre em que Daenerys e seu dragão ganharam toda a batalha sozinhos (tornando a morte do último completamente sem sentido para toda a trama do medo da derrota que deveríamos sentir).

Mas isso, pelo menos para mim, não foi o principal problema (ainda??). O problema mesmo vem quando a cidade se rende (contra a vontade de Cersei), e mesmo assim, em um ataque de loucura, Daenerys queima toda King’s Landing com seu dragão. Isso mesmo, a ‘Quebradora de Correntes’ queimando milhares de pessoas inocentes que nada tinham a ver com a tirania de Cersei durante todos os anos anteriores.

E provavelmente agora você vai dizer ‘mas ela sempre mostrou essa psicopatia! Queimou os Tarly, os mestres do outro continente e até o Varys!’. E eu te rebato assim: ela sempre queimou quem se opunha a ela, não pessoas inocentes que nada tinham a ver com isso. Se nessa mesma cena ela fosse em direção a Fortaleza Vermelha e queimasse Cersei junto com todos ali dentro, ninguém jamais teria achado pobre o desenvolvimento que ali foi feito.

Daenerys mesmo disse para Olenna que ‘não queria ser a rainha das cinzas’ e em menos de 6 episódios decidiu que seria exatamente isso. E isso é incoerente mesmo com as perdas dos últimos episódios. Afinal se fosse para entrar em parafuso, deveria ser no exato momento que ela perde Rhaegar ou Missandei, e não dias depois quando a guerra já estava ganha e ela já tinha conquistado o trono que tanto almejou. A transformação de Quebradora de Correntes para Rainha Louca foi rápida demais, gratuita e somente feita para transformá-la em uma vilã no final da história.

Isso tudo fora o ridículo término de arco de Jaime, que até então tinha um dos melhores arcos de redenção da série, mas que volta a ser exatamente o mesmo personagem do primeiro episódio só para que morra junto com Cersei embaixo dos escombros. Uma quebra abrupta do desenvolvimento de vários personagens que foram tão bem construídos durante todas as outras temporadas.


E então chegarmos ao insosso episódio final. Aqui eu realmente achava que o sentimento que eu poderia ter com ele não seria pior do que o que eu tive com os episódios anteriores. Afinal, o que poderia ser pior do que a raiva e ódio que sentia depois de estragarem alguns dos melhores personagens? Bem, foi aí que eu lembrei que existe a indiferença, aquele sentimento que você só não se importa com as coisas, sabe?

Daenerys tem um ótimo discurso na frente de todos os seus soldados (que por sinal se multiplicaram absurdamente de um episódio para o outro), manda prender Tyrion por traição e volta aos seus aposentos. Nesse momento a transformação dela em vilã estava clara, assim como sua morte minutos depois pelas mãos de Jon Snow. Para que então chegássemos a reunião de condomínio com personagens que ninguém se importa para decidir quem seria o verdadeiro rei de toda a Westeros.

São tantos problemas com esse episódio que não sei nem por onde começar. Jon Snow, alguém que claramente não era confiável para Daenerys, entrou na cela do prisioneiro Tyrion sem nenhuma resistência e praticamente decidiu que seria o assassino da Rainha ali. Passou por todos os guardas e por Drogon sem nenhuma vigilância, ficou sozinho com ela e então desferiu o golpe mortal. Isso tudo depois da própria Daenerys ter dito que ele não era confiável e que havia traído a mesma. Fora a reação completamente sem sentido e politizada (afinal quem ‘matou’ ela foi o desejo de subir ao trono, não é? olha que foda!!!111!) de um dragão que, ao ver sua mãe morta, incinerou o trono e não o claro assassino dela que ali estava. Indo embora para nunca mais voltar e ser um andarilho triste com a morte da sua mãe, e deixando tudo muito mais fácil pro roteiro preguiçoso que viria a seguir.

Na reunião de condomínio do reino Tyrion convence a todos que Bran deveria ser o rei que se sentaria no trono. Apesar do ótimo discurso dele, não é convincente que o Corvo de Três Olhos que em muitas outras ocasiões negou ter qualquer desejo se torne então o Rei de Westeros. Até aquele momento o único objetivo dele sempre foi não fazer com que a longa noite chegasse no reino, e utilizar esse mistério para forçar seu cacoete como rei foi só a epítome do roteiro preguiçoso que tomou conta da série. Isso sem contar a rebelião de Sansa em que não existe nem contestação por parte dos outros ‘reis’ que ali estão.

Poderia ficar citando mais problemas, mas acho que o ponto já foi entendido por todos que chegaram até essa parte do texto. Game of Thrones sempre foi uma série que surpreendeu de maneira coesa. Sempre foi uma série que mostrou que ações tem consequências e que o mundo não é previsível e simples como queremos. Mas infelizmente perdeu tudo isso nas últimas duas temporadas.

Se tornou preguiçosa, com roteiro fraquíssimo, e decisões que focavam em surpreender única e exclusivamente por surpreender. Não existia mais uma linha guia que nos mostrava, depois do acontecido, o porque tal surpresa aconteceu. Pegou personagens que mudaram e os jogou novamente no mesmo status que começou a série, tirando completamente o peso de boa parte dos acontecimentos que se passaram no meio dela.

É triste, porque Game of Thrones é claramente a maior série de todos os tempos. Elevou o nível das produções de televisão e trouxe uma febre que a muito tempo ninguém via. Foi uma ótima jornada durante boa parte do seu tempo mas infelizmente pecou fortemente no seu fechamento como tantas outras obras. Uma pena, já que tinha o potencial para ser não só a maior, como também a melhor das séries que já existiu.

E que alguém ajude Star Wars, porque pelo jeito vamos precisar.