Como é servir moradores de rua no refeitório da Gastromotiva

Estar ciente dos problemas é o primeiro passo para solucioná-los

Eles são chamados de "convidados", e como tal também são tratados por todos. Um pouco de dignidade, cuidado e, principalmente, de atenção é tudo o que eles precisam e recebem durante uma hora. Não se trata apenas do alimento, mas também de sentir que alguém se importa com suas necessidades.

O cenário é a Lapa, Rio de Janeiro. Perto dos locais mais bonitos do mundo estão pessoas que vivem em condição de rua. Um levantamento feito em 2012 pela Secretaria de Desenvolvimento Social da cidade abordou mais de 10.000 pessoas nessa condição dentro do município. A maioria delas justamente na região do centro.

Antes de chegar à Rua da Lapa 108, no refeitório da Gastromotiva, é preciso passar por áreas onde é possível notar a realidade desse levantamento. Na prática, números viram pessoas e todas as estimativas não valem mais nada, pois cada pessoa tem muito mais valor do que se coloca em planilhas de excel.

Somos oito voluntários. Nossa função é servir e retirar os pratos para os convidados. Entrada, principal e sobremesa: refeição completa e muito bem feita por um trabalho social que não apenas serve os necessitados, mas também dá possibilidades de trabalho e aprendizagem para quem gosta de gastronomia e precisa de inclusão e formação neste mercado de trabalho.

Um detalhe antes do começo

Tudo pronto, só falta um detalhe: a organizadora acrescenta giz de cera sobre a grande folha de papelão que forra as imensas mesas. Quando os convidados começam a entrar, a primeira coisa que eles fazem e pegar o giz e começar a desenhar e escrever à espera da refeição.

"Posso escrever aqui?", pergunta um convidado. "Eu vou escrever uma letra de música aqui!", diz outro. E assim começa uma imensa criação coletiva. Uma percepção bem sensível, pois não basta a comida, é preciso também haver a arte. Faz parte da dignidade porque é ela que afirma a existência deles. Afinal, precisam ser vistos, precisam de atenção, pois têm uma imensa necessidade de expressão.

E quantos artistas o mundo não vê! A gente não faz ideia de quem está ao nosso lado muitas vezes porque simplesmente não giramos a cabeça. Fingir não ver ou querer esconder os problemas é também uma forma de não se permitir conhecer suas soluções. Não se permitir perder preconceitos é também retardar um crescimento como ser humano.

O serviço

Começamos a servir os convidados. Eles são muitos, cerca de 70, mas fomos bem instruídos para realizar tudo com agilidade a fim de não deixar que uma pessoa fique perto de outra muito tempo apenas olhando. Essa preocupação com detalhes tão minuciosos e sensíveis é algo raro hoje em dia, em tempos imperados pela ganância e pelo orgulho.

"Tem sal?", pergunta um convidado.
"Não temos. Porque o chef já colocou a quantidade que ele acredita ser ideal. A gente quer fazer uma reeducação alimentar com vocês, e acreditamos que muito sal faz mal", é a resposta.

O argumento é aceito, afinal foi explicado com cuidado e razão. Duas coisas simples, mas que muitas vezes fazem tanta falta no nosso dia a dia e, imagine você, o quanto não faz falta para eles.

Não importa o motivo os levou até essa condição. Cada um tem sua história, sua razão. O grande problema é quando se cega para um problema que pode ter solução.

Várias delas a Gastromotiva já dá, mas também ajuda quem quer ajudar.

Como ajudar

Existem outras formas de ajudar, basta consultar no site deles, neste link.

A gente fica indignado com os políticos do nosso país, e muitas vezes nos sentimos sem possibilidade de fazer qualquer coisa para tentar acabar com isso. E aí, ingenuamente acredita-se que escolher ser de direita ou de esquerda vai solucionar o problema em discussões sem o menor valor.

Há muitos que precisam de ajuda de verdade e ainda bem que há gente séria cuidando disso.

Existe uma diferença que pode ser feita, e ela é de uma matemática bem simples, basta fazer.