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Como encontrar a satisfação nas coisas que não são coisas?

Meio ano sem comprar "brusinha"

Eu amo comprar roupa. Tem gente que gasta o salário inteiro com comida, bebida, tatuagens ou viagens, mas eu gente… Sempre gastei "cás brusinha tudo" — e das mais baratinhas, é claro.

Eu tenho prazer nas pechinchas. Um prazer que começou a beirar a compulsão quando passei de uma jovem estudante de jornalismo, lá em 2004, a uma pessoa minimamente assalariada. Passava meu horário de almoço pelas ruas do centro de São Paulo, garimpando nas lojas mais populares e obscuras, e achava isso o máximo, era minha fuga da realidade. Ser elogiada pelo meu bom gosto e achados— ou por quão exóticos e diferentes eram os meus looks — era, e sempre será, algo que me dá real prazer. Nunca comprei apenas por aquela sensação de riqueza e ostentação que dá ter um armário cheio, aliás, nem você. Gastamos porque isso tem um significado muito maior nas nossas vidas.

No mundo da moda, fala-se muito sobre consumir menos e consumir melhor. Sobre slow-fashion. Sobre valorizar o trabalho local e visar a qualidade da estamparia, da construção de uma peça ou das fibras de um tecido. Depois que me tornei também designer de produto tudo isso fez ainda mais sentido na minha vida, mas sempre tive total e real consciência de que esse discurso (e modo de pensar sobre o que compramos) só se aplica para quem tem PODER e a CONSCIÊNCIA de consumo, em simultâneo. Para quem consegue investir e reconhecer o valor por trás de uma roupa e, principalmente, para quem pode, financeiramente, fazer isso.

A indústria da moda brasileira, mesmo nas fast-fashions, é cara. Não é tão simples optar por comprar uma única peça ultra diferente ou super de boa qualidade no lugar de 5 camisetas básicas que usaremos para trabalhar. Não é pecado, aliás, comprar as tais camisetas básicas, pecado é comprar 45, não usar nenhuma e nem saber exatamente quando foi que elas se proliferaram no seu armário. A isso, damos o nome de desperdício e compulsão — porque comprar não deve suprir o espaço vazio que temos em nossas prateleiras (ou em alguma outra área das nossas vidas). Comprar deve ser útil, inteligente e divertido. Porque somos sim seres emocionais e precisamos de cor, textura, estampa e vida em nossas gavetas além de pedaços de pano para nos cobrir.

Consumir no Brasil é sinal de realização pessoal, de sucesso, de status. É claro que tem gente que compra roupa só pra não sair pelado por aí, mas também tem gente que compra roupa para se posicionar, para se significar, para se firmar ou para parecer aquilo que não é. Principalmente esse último item.

Vestir-se é um ato social. Não é apenas escolher a cor que mais agrada ou o tamanho que melhor cabe, é entender por que você consome as coisas que consome e o que isso significa. Acho que as mulheres compreendem isso muito mais intensamente que os homens porque é das nossas roupas também o papel de estigmatizar o gênero feminino: vagabunda ou recatada? Vovó ou sem noção da própria idade? Ousada ou básica? E por aí vai.

O prazer de comprar coisas não está exatamente nos itens que se acumulam, mas no lance do merecimento. Caixão não tem gaveta e a gente tem mesmo é que ser feliz hoje, porque amanhã, não se sabe, eu penso, mas calma lá: se a gente planejar direitinho, até sabe do amanhã sim. E que ele pode ser ainda melhor que gastar hoje em tudo o que a gente vê, deseja e tem vontade.

Eu sei, somos imediatistas. Mas esse ano, meus amigos, entre muitas coisas loucas que eu decidi fazer da minha vida, decidi parar de comprar as tais "brusinhas" por pelo menos 6 meses, quem sabe um ano. Isso mesmo. Porque eu tenho a capacidade de querer coisas novas o tempo todo e pra sempre; sem controle não há evolução. E se aumentar o lixo do planeta, economizar uma graninha ou ser contra o trabalho escravo não forem motivos suficientes para parar e pensar antes de sair escolhendo débito ou crédito, saiba que é preciso ter limites para alçar vôos maiores, desejos maiores. Eu, você e todo mundo precisamos, sim, comprar com mais consciência — pelo bolso e pelos nossos outros projetos de vida.

Mas, Ericka, sou uma pessoa horrível por gostar de gastar dinheiro?

Nada disso. Consumir também é parte de quem a gente é, do que a gente gosta e da descoberta da nossa identidade. O que não pode é se perder nas muitas opções de sapato, bolsa, blusa, colar e todo o resto, querendo ter tudo de tudo e tentando encontrar algo que item nenhum pode dar pra gente: a satisfação que se perdeu nas pequenas coisas, na vida que tem na vida que a gente leva. Lembre-se sempre disso.

Se comprar estiver sendo uma recompensa por um trabalho infeliz, pelos quilos a mais (ou a menos) na balança, pela viagem que não podemos ter ou o relacionamento que nos deprimiu, tem alguma coisa errada. E tá na hora de rever isso. Não perca tempo, livre-se do que ocupa, reutilize o que tem, fique feliz e satisfeito com o que vê. O seu prazer tem que estar em você mesmo.


Para saber mais sobre como garimpar o seu armário e ter ideias diferentes para usar, reutilizar ou transformar a carinha das roupitchas que você já tem, acesse meu Instagram de looks do dia, o @dona_baratinha. ❤

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