Como falar sobre suicídio sem matar a si e aos outros

(ilustração por Beatriz Leite | contato: beatriz.hmleite@gmail.com)

(Antes de começar, queria dizer que pensei muito em como abordaria esse tema. Percebi que é muito difícil escrever sobre suicídio e depressão sem falar sobre a minha experiência com isso, mas que é também muito difícil escrever sobre suicídio e depressão falando sobre a minha experiência com isso. Já li vários textos em que os autores falam abertamente sobre tudo que viveram e vivem e considero esses relatos muito importantes, mas eu, infelizmente, não estou nesse ponto e, por isso, o texto terá um enfoque menos pessoal.)


25 brasileiros morrem por dia vítimas de suicídio. Em uma sala com 30 pessoas, 5 delas já pensaram em suicídio. A cada 40 segundos uma pessoa se mata no mundo, totalizando quase um milhão de pessoas todos os anos. Estima-se que de 10 a 20 milhões de pessoas tentam o suicídio a cada ano. — Todas essas frases foram copiadas e coladas do site do Centro de Valorização da Vida (CVV). Foi lá também que li a seguinte: “Um suicídio a cada 40 segundos.” Ou seja, no tempo que você levou pra ler esse parágrafo, mais alguém se matou.

Se suicídio é um problema tão grande assim, por que não se fala mais disso? Há o estigma de que transtornos psicológicos não são doenças reais, que são “coisa de gente maluca” ou que são apenas frescura. Isso leva muita gente a não querer falar sobre o que sente ou nem reconhecer que se sente de tal forma. E há também o mito de que falar sobre suicídio, especialmente na mídia, incentiva mais suicídios.

Acontece que, ao contrário do que se pensa no senso comum, falar é algo que pode ajudar muito — desde que feito de maneira responsável, em vez de alarmista, como a mídia costuma ser quando se trata de famosos (Robin Williams, por exemplo). Tendo em mente o fato de que falar sobre suicídio é importante para acabar com o tabu sobre o tema, a CVV, em 2014, deu início à campanha Setembro Amarelo. Trata-se de uma proposta de passar um mês inteiro divulgando o assunto, a fim de conscientizar as pessoas. Nesse ano, em prol do Setembro Amarelo, muitas pessoas entraram em outra campanha: a de oferecer sua inbox no Facebook para suicidas em potencial que queiram conversar.

O problema em abrir sua inbox

A iniciativa em si é linda. A boa intenção é evidente, mas vamos esclarecer uma coisa: desabafo não resolve depressão, nem previne suicídio. Conversa pode ajudar, sim, mas essa pessoa precisa de auxílio profissional: terapia e talvez remédios. Fora que é preciso ter uma saúde emocional bem estável para conseguir ajudar alguém nessa situação. Não é à toa que tanta gente estuda e se prepara por anos para isso.

Por escrever muito sobre relacionamentos, frequentemente recebo e-mails e mensagens de pessoas (conhecidas ou não) me pedindo conselhos. Estou acostumada com isso e, sempre que posso, tento ajudar. No ano passado, recebi uma mensagem de uma pessoa que eu conhecia mas com quem não tinha intimidade. Ela estava em depressão, tinha tentado se matar e estava preocupada com o relacionamento, que ela achava estar estragando, por causa da depressão dela. Minha primeira sensação foi de impotência. Dar conselhos sobre relacionamentos é bem diferente de lidar com suicidas.

Meu primeiro problema para conversar com essa pessoa era que eu também estava deprimida. Não me sentia capaz de ajudar uma pessoa que passava pelas mesmas coisas que eu, quando eu também não sabia do que eu precisava pra ser ajudada. Quando melhorei, não foi diferente. Continuei me sentindo despreparada para ajudá-la, por dois motivos: 1) eu não sabia como as coisas tinham melhorado pra mim, então não tinha como recomendar o mesmo pra ela e 2) era uma estabilidade emocional muito recente e falar sobre aquelas coisas às vezes era gatilho.

Eu e ela passamos a manter algum contato. Perguntávamos coisas como: “Como você tá essa semana?” e respondíamos coisas como: “Hoje até que eu tô bem, mas os últimos dias foram difíceis” ou “Estou numa semana ruim.” Falávamos sobre ir à terapia, o que ajudava, o que atrapalhava, comentários que pessoas faziam que pioravam tudo, como nosso comportamento afetava nossas relações e por aí vai. O que eu mais gostava nessa interação era não me sentir sozinha e maluca, afinal, outra pessoa sentia o mesmo que eu. A parte que sempre considero pior em estar emocionalmente instável é nunca poder confiar na minha própria percepção das coisas (por exemplo, isso me incomoda porque é realmente algo que me incomoda ou é só porque eu tô mal e qualquer coisinha me incomoda?). Eu gostava que ela também pensava isso. Era uma comparação de experiências interessante, que funcionava como incentivo para que procurássemos tratamento. Mas sei que nem eu, nem ela acreditávamos que falar sobre o que sentíamos uma com a outra seria a solução dos nossos problemas.

Propor-se a abrir sua inbox para um suicida em potencial é uma responsabilidade enorme. Você vai saber o que dizer? Vai estar disponível sempre que a pessoa precisar? Vai conseguir manter a calma ? O risco de falar a coisa errada, simplesmente por não saber o que (não) falar, e agravar a situação é muito grande. Já é muito difícil ajudar pessoas próximas, que amamos; ajudar uma pessoa que mal conhecemos é pior ainda.

Quando alguém que você conhece se mata

Há poucos anos atrás, um amigo de adolescência que eu não via tinha um tempo (uma das melhores pessoas que conheci na vida) se matou. Oito dias antes, outro amigo de adolescência, também uma pessoa maravilhosa, morreu de maneira inesperada. Por causa da morte inesperada desse, o suicídio do outro me despertou sentimentos confusos. Naquele momento, eu pensava muito em como um adoraria ainda estar vivo e o outro escolheu não estar mais. Pensava nos pais dele, no irmão dele, em como é que alguém podia fazer uma coisa dessas.

Esses pensamentos são muito comuns quando se fala de suicidas, achar que essa atitude é uma forma de ingratidão (vou falar melhor sobre isso mais adiante). Acho que só mesmo uma pessoa que não tem ideia do que é depressão — ou já se esqueceu completamente — pode pensar desse jeito. Na época em que isso aconteceu, eu estava em uma fase muito boa, que eu muito inocentemente entendia como uma evolução: era deprimida, agora não era mais, tinha melhorado, crescido, aprendido mais sobre a vida etc. Eu achava que depressão era algo do passado e, de certa forma, ao perder a identificação com o sentimento (ou falta dele), perdi também a empatia (que ironicamente recuperei no mesmo ano).

Quando uma pessoa que você conhece se mata, é mesmo muito triste para quem fica e gostava dessa pessoa e, comparativamente, é mesmo muito triste pensar em quem morreu por acidente e gostaria de não ter morrido. Mas o suicídio dessa pessoa não é sobre quem ficou, muito menos sobre outro qualquer que morreu do nada. Triste de verdade é alguém chegar a um nível de dor tão intenso que sente que sua única alternativa é se matar. Hoje em dia, penso no tempo que ficamos afastados e se eu podia ter sido mais próxima, ter ajudado de alguma forma.

A questão aqui é: você não precisa entender o que leva alguém a (querer) se matar; você só precisa ter empatia. E é tendo empatia que você evita cair no senso comum de dizer frases como as abaixo.

O que não dizer sobre um suicida

1. É egoísta

É um absurdo chamar um suicida de egoísta. A pessoa chega a esse ponto de desespero e você queria que ela parasse antes pra pensar em você. O suicídio da sua filha, do seu pai, do seu namorado, da sua melhor amiga NÃO É SOBRE VOCÊ. Egoísta é esperar que pense nos outros uma pessoa que não está conseguindo lidar nem consigo mesma. O suicida não é egoísta, ele só está sofrendo muito mesmo e chamar de egoísta uma pessoa que fala sobre se matar só piora a situação.

2. É covarde

O suicida não é uma pessoa que desiste de encarar seus problemas e, por isso, se mata. É uma pessoa desesperada para dar um fim à dor que sente e é uma pessoa que resiste por muito tempo até chegar a tomar essa medida.

3. É ingrato

A vida de uma pessoa em depressão não parece um presente pelo qual se pode ser ou não ser grato. O discurso de que devemos agradecer por tudo que temos e #gratidão pra lá e pra cá é lindo, mas é preciso ter muito cuidado para que isso não te deixe insensível quanto ao que uma pessoa deprimida está vivendo. Nos meus piores momentos, não só era difícil pensar em coisas pelas quais agradecer, como pior eu me sentia por não me faltar nada e ainda assim me sentir mal. Cobrar gratidão de uma pessoa deprimida é cruel. Depressão não é uma bad, uma fasezinha ruim, um mal-estar ou um simples mau humor. Não é algo que baste sacudir a poeira para passar. E certamente não tem nada a ver com não conseguir enxergar o que se tem de bom na vida. Pensar assim desqualifica a depressão como doença.

4. Só está fazendo isso pra chamar atenção

Qual exatamente seria o problema de fazer algo só para chamar atenção? Uma pessoa que chega a tomar atitudes tão extremas para conseguir atenção é definitivamente alguém que está mesmo precisando de atenção. Ao contrário do que se pensa no senso comum, suicidas dão muitos sinais antes de (tentar) se matar. Se alguém que você conhece faz constantemente o que você considera draminha, talvez essa pessoa esteja de fato tentando pedir ajuda. Em vez de julgar, ajude.

O que fazer então

Primeiro de tudo, se você não sabe como ajudar, não atrapalhe. Acho que, via de regra, as pessoas não sabem lidar com uma pessoa deprimida e, na tentativa frustrada de animá-la, se irritam, como se a pessoa deprimida estivesse de má vontade. Tenha paciência. Ouça. Esteja disponível para o que a pessoa precisar de você — e não para aquilo que você julga ser necessário para ela. Lembre-se sempre de que isso não é sobre você. E lembre-se também de que você não tem como fazer isso sozinho/a ou por conta própria. Incentive a pessoa a procurar ajuda. Terapeutas e psiquiatras existem para isso e o CVV também. Do mais, colabore para a conscientização sobre esse tema. Quanto menos tabu ele for, mais gente se sentirá confortável para pedir ajuda, mais gente será salva.


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