AG [ESTUPRO] Como foi “me relacionar” com uma vítima de estupro


[NOTA DOS EDITORES] AG ouAviso de Gatilho” é uma expressão que vem do inglês "Trigger Warning" (TW). Também pode ser entendida ou traduzida como "Alerta de Conteúdo". Serve para advertir pessoas sensíveis a certos tipos de conteúdo que podem provocar fortes reações emocionais, como em textos de cunho feministas, com imagens fortes ou correlatos. O perfil NERO colabora com textos periódicos na NEW ORDER, seguindo os TERMOS DE COLABORAÇÃO.

[NOTA DO AUTOR] A história a seguir é real e a mulher citada aprova seu conteúdo e sua veiculação. O título e a imagem originais foram modificados para evitar ativar gatilhos. A imagem pode ser acessada clicando (AG) aqui.


Não conheci ela no jazz. A gente se conheceu numa viagem e, não, ela não era a menina frágil, desengonçada e de olhos assustados como artigo do Gregório. Ela era mais velha que eu. Me intimidava sem nem querer. Fazia eu me sentir bobo demais, novo demais. Tudo sem querer. Porque ela era doce. Absolutamente doce.

Um sorriso aqui. Uma coincidência forjada ali. Mais um sorriso. Uma música que os dois gostavam. Uma conversa mais sincera. Uma mais tonta. Uma mais ácida. Pronto. Ela já não era toda aquela inacessibilidade e nem eu toda aquela insegurança. Éramos sintonia pura, ao som de Alt-J, metendo o pé na estrada.

Quando percebi já tava claro pra mim que já tava claro pra ela que já tava claro pra nós dois. E na primeira oportunidade demos um perdido em todo mundo e fomos pra praia. Era noite. Um pouco frio. Pareciam quilômetros de areia até o mar. Mas o caminho foi leve e agradável. Embalado por toda aquela excitação do romance de verão.

Colocamos os pés na água e, como se tivéssemos atingido qualquer “linha de chegada”, que não tinha sido previamente combinada, nos olhamos e estávamos livres.

Do abraço meio torto se fez nosso primeiro beijo. Meu maior pecado romântico. Eu lembro de todo primeiro beijo apaixonado que dei na vida. De cada um. E o dela foi longo, porque era bom e não queria nem tomar o ar pra dar o segundo.

A praia era imensa e absolutamente deserta. Então não demorou pros beijos ficarem mais herméticos e os movimentos dos corpos mais coordenados. Em minutos transformamos aquele lugar público em nosso universo privado e, tomando o mar e a areia como nossas quatro paredes, entramos telepaticamente em harmonia.

Foi quando minha respiração ficou mais rara e minha mão mais pesada que ela arrepiou pela primeira vez. Não um arrepio bom. Daqueles que abrem o caminho. Um arrepio incontrolável. Agudo. Frenético. Acompanhado duma imediata contorção de cada músculo do corpo e a recusa absoluta do meu toque.

Não perguntei. Não era exatamente igual a outras situações que já tinha vivido mas, também, não exatamente diferente. Aquela reação podia ter milhares de motivos e só me restava tirar a mão e respeitar, seja lá qual fosse o recado que ela tava me passando.

Não paramos. E tudo chegou de novo ao mesmo lugar. Cheio de vontade, meio receoso mas, meio influenciado por ela, repeti o mesmo movimento de antes. Um pouco mais suave e devagar. A reação foi igual. Ainda mais intensa.

Eu teria entendido o recado desta vez. Teria guardado minha mão boba bem longe das intimidades dela e voltado a curtir todos os outros prazeres daquele momento. Mas não existiam mais prazeres. Eu olhei pro rosto dela e vi tudo, menos prazer. Parecia decepção. E medo. E raiva. E nojo. E mágoa. E milhares de outras coisas todas no mesmo rosto contraído, que desviava constantemente o olhar.

Pode parecer aqui, contando, que tudo aconteceu muito rápido mas, embora nossos flertes não tenham durado mais do que dois dias, a gente tava tão disposto a viver aquilo que, juntos, era um amor e uma entrega sem idade. Os dois abertos um pro outro numa consciente e intensa ilusão. Tínhamos até uma música pra chamar de “nossa”.

Então, dessa inusitada, mas tão natural, intimidade, perguntei se tinha alguma coisa que ela queria me contar. E sem nenhum rodeio. Sem preliminares ou frases de efeito que ajudam o interlocutor a se preparar pra algo que ele não está esperando, ela disse: “Eu fui estuprada”.

Como agora, não soube o que falar na época. Minha reação foi um olhar de silêncio absoluto e não faço ideia quanto tempo demorei pra voltar. Aqui, neste texto, dois dias. O último parágrafo foi escrito dois dias atrás. Porque, até hoje, não sei exatamente como lidar com aquele momento. São quase 50 mil estupros por ano no Brasil. Um a cada 11 minutos e, com vinte e tantos anos, eu ainda não tinha ouvido esta frase da boca de qualquer mulher.

O silêncio foi interrompido por “não transo há dois anos” e, quem sabe, um “desculpa”. Não tenho certeza sobre o desculpa. Espero que ela não tenha dito isso. Só sei que ficamos lá, naquele momento, por algum tempo. E não consegui falar nenhuma palavra sobre o assunto. Nem um “sinto muito”. Não que eu me lembre. Lembro só destas duas frases dela e, quando minha memória religa, já estamos novamente nos beijando.

Como disse, eu tinha vinte e tantos anos. Hoje tenho vinte e muitos. O que significa que sou um exemplar de homem que aprendeu muita coisa já influenciado pela disponibilidade e efemeridade da internet. Inclusive sexo. Não posso reclamar da minha vida sexual “real” e de tudo que aprendi com ela, mas também não posso negar que, muito antes dela começar, a Silvia Saint e o Rocco já tinham me ensinado “tudo que eu tinha que saber”.

Passei a tomar os angustiantes arrepios dela como balizadores das minhas ações. Ela deixou claro que não queria que eu parasse. Tava claro que ela não sabia como não me parar. E tava ainda mais claro que eu não fazia ideia de como lidar com aquilo. Segui com o cuidado e o despreparo da minha primeira vez. Mas com muito mais medo.

Aos poucos, bem aos poucos mesmo (foi uma longa noite), enquanto as barreiras dela iam caindo, dentro de mim ia se formando uma angustia sem tamanho. Cada movimento que eu fazia, que claramente despertava nela o trauma do estupro, revelava em mim o meu próprio estuprador. Era didaticamente clara a distinção entre carinho e violência. Assustadora a naturalidade como a violência estava cravada nos meus movimentos, e desesperadora a revelação, aos poucos, do que eu havia me tornado.

No meu imaginário, um estupro é o momento onde o homem age o mais próximo da sua irracionalidade sexual. Como não existe ali uma relação de troca, em absoluto, ele simplesmente reproduz aquilo que ele quer, como ele quer, sem nenhuma consideração pela pessoa estuprada. Sendo assim, mesmo sem ela me contar, eu soube mais ou menos o que o estuprador tinha feito. Como o estuprador tinha feito. Porque eu também reproduzi algumas dessas mesmas ações.

Em algum momento nos deitamos. Tinha chegado a hora. Até ali haviam sido apenas preliminares. Nos olhamos, mas não conseguimos sair do olhar. Ninguém ousava dar o primeiro passo. O som do mar não nos trazia paz suficiente. Ela então estendeu a mão, alcançou o celular, colocou um fone de ouvido em mim e outro nela, e deu play na nossa música.

Enquanto transávamos, ela em cima e eu em baixo (isso nunca foi tão significativo), cheguei a pensar “nossa, eu to libertando ela”. Que narciso engano. Foi só reparar pra perceber que ela tava se libertando sozinha, e tinha simplesmente me permitido compartilhar desse momento.

Talvez o prazer mais negado à todas as mulheres, das fisicamente às psicologicamente mutiladas, ela se permitiu gozar. Eu observei. E como se tudo aquilo já não fosse mágico o suficiente, exatamente no mesmo momento em que ela gozava, uma onda quente, que não veio nenhum momento antes, e não voltaria nenhum momento depois, lavou nós dois.

A gente gargalhava, meio desesperados, enquanto tentava salvar os celulares. Foi inacreditável na hora, é inacreditável sempre que eu me lembro, e com certeza vai ser inacreditável pra você que tá lendo. Mas foi isso. Sou cético. Acredito mais no Carl Sagan que no Prem Baba. Mas foi isso. Seja Iemanjá ou só uma coincidência muito, mas muito, certeira. A onda veio, e lavou nossas almas.

Agora, por que eu tô contando essa história pra você? Porque alguns dias atrás saiu aquela pesquisa do Datafolha que revelou que uma em cada três pessoas culpa a própria mulher violentada pelo seu estupro. Um número que ilustra algo que todo mundo já sabia, mas escolhia ignorar.

O que a pesquisa não revelou é que três em cada três de nós carrega a cultura do estupro fundida na pele, no jeito de ser, no jeito de pensar. Todos nós reproduzimos o estupro e consumimos o estupro. Nas capas de revista, nos ângulos constrangedores das câmeras de programas de auditório, no pornô de WhatsApp, no terror psicológico dos pais que não dão liberdade pra filha e no terror psicológico dos pais que forçam as liberdades do filho.

Estou contando essa história porque a gente precisa lembrar que não basta não estuprar. Isso é meio óbvio demais. O que não tá óbvio é que pra acabar com os estupros precisamos questionar profundamente nossos modelos de relação. Evoluímos muito, mas a mulher ainda é um pedaço de carne girando no forno de calçada da padaria. E o homem ainda é o cachorro faminto que baba enquanto observa.

Não sei tudo sobre cultura de estupro. Não sou exatamente a melhor pessoa pra ficar aqui te explicando o que fazer ou não pra se empoderar sobre esta questão. Mas sei que quando ouvi esses números no jornal, de certa forma, eu tava ali e, admita, você sabe que também está. Então pare de se eximir da culpa, simplesmente por nunca ter efetivamente estuprado uma mulher, e se inclua na solução. Porque este texto demora em média sete minutos pra ser lido, então ainda te sobraram quatro antes do próximo estupro.