Como o Facebook empobreceu a qualidade da internet

Cecilia Santos
Jul 11 · 5 min read

Olha, vou falar aqui de uma impressão bastante particular de quem chegou na internet quando tudo era mato. Lá no meados dos anos 90 era uma época em que nem sabíamos muito bem para que a rede servia. Usávamos buscadores como Altavista e Cadê, conversávamos por softwares instalados na máquina como ICQ, mIRC, MSN. Fazíamos download de músicas pirata e ficávamos muito felizes de encher um tocador de MP3 com 128 Mb. Maratonar vídeos não tinha a ver com assisti-los, mas em baixá-los em uma internet que era discada e funcionava em incríveis 56 Kbps/min.

As coisas foram mudando bastante rápido e de repente estávamos já em uma era de fotologs (os avós do Instagram) e blogs. Neste momento uma empresa se popularizava como o grande buscador de dados, em uma rede que tinha cada vez mais informação: o Google. E todos já tinham percebido os imensos potenciais da web e tinha-se a sensação de que não tínhamos mais fronteiras para o conhecimento.

E quanto conhecimento! Todos estavam verdadeiramente empolgados em ter um cantinho virtual para chamar de seu. Relevante ou não. Original ou não. Belo ou não. Na verdade, quase sempre era horroroso. As páginas pessoais continham fotos, música, vídeos, textos, eram pequenos universos de autores diversos. Culinária, filosofia, política, amenidades, amor, sexo, drogas e rock’n roll. Os conteúdos se multiplicavam. Mandávamos e-mail. Correntes. Slides motivacionais feitos em Powerpoint. Havia ainda uma rota para escapar desse inferno invasivo chamado “marcar como spam”.

Enfim, era selvagem e nós entrávamos armados até os dentes com um facão virtual na selva dos dados para achar o que queríamos e no caminho sempre encontrávamos muito mais coisas. Hiperlink, baby. Era mágico.

E então surgiu o Orkut e um novo conceito de interação. A tal da rede social. Onde você se conectava diretamente a um grupo de pessoas que você escolhia e compartilhava coisas, pessoais ou não. Está certo que o mais legal do Orkut eram as comunidades, que era uma espécie de dark web acessível no primeiro nível já que você encontrava todo tipo de gente nos grupos mais bizarros trocando desde receita de bolo de chocolate até receita de napalm caseiro. E não deu muito certo quando o Orkut resolveu concentrar seus esforços na criação de uma espécie de timeline, o que precipitou seu falecimento. Até porque surgia já naquele momento essa grande besta 666 chamada Facebook, que em quase todos nós deixou sua marca e nos levou para esse limbo, essa realidade paralela das bolhas sociais.

O Facebook, como boa besta fera que é, criou uma superplataforma cujo maior mérito é também sua grande danação: uma tendência quase autoritária de querer agregar o maior número de serviços para que as pessoas fiquem o tempo todo imbecilizadas na sua frente, olhando passivamente o que acontece na sua timeline, cujo conteúdo é decidido pelo bom humor dos algoritmos do seu criador, que no caso, não é Satã, é Mark Zuckeberg. No Facebook você escreve, posta fotos, posta música, posta vídeos, posta o que você quiser, do jeito que você quiser. Cria páginas, cria grupos, entra em mil grupos, participa de milhões de discussões diferentes. E você adiciona um monte de pessoas, elas curtem o que você escreve, compartilham. Agora você produz conteúdo e as pessoas aplaudem e todo mundo vê que você é aplaudido. Não é mais aquela coisa obscura de um blog onde só você sabia o quanto era você era maravilhoso. Você é uma subcelebrity virtual. Todo mundo está por lá, e ninguém vai embora, é uma grande festa!

E todos mergulharam neste fascinante abismo, facilitados pela onipresença do smartphone. Mas é isso, já tentou recuperar algum conteúdo que você leu, por exemplo, ontem? Ou mesmo algumas horas atrás? Sabe aquele texto muito legal e super importante que você estava lendo e o seu dedo esbarrou na tela, e agora você está muito fulo porque já está há dez minutos procurando e não encontra mais? Este é o Facebook. Milhares e milhares e milhares de conteúdos de texto e imagens absolutamente interessantes, análises, humor, ensaios, ficção, tudo, absolutamente tudo o que foi produzido aproximadamente nos últimos dez anos, completamente perdido em um mar de informação, que não é indexada pelo Google e que é praticamente irrecuperável com o sofrível mecanismo de busca do Facebook.

Mark Zuckeberg sedimentou a busca passiva. Onde você fica bovinamente recebendo conteúdo que não necessariamente escolheu e que dependendo das companhias que você ande pela sua bolha, nem verdadeiro ele será. Você é inundado de informação e desaprendeu a usar palavras-chave, fazer uma busca ativa por dados, ler, comparar, checar conteúdo. A gente fazia isso o tempo todo, vocês lembram, galera da old school? Pes-qui-sar. Hoje em dia a gente manda alguém procurar informações no Google no meio de uma treta como forma de ofendê-la, por evidenciar sua incapacidade de selecionar informação.

E os autores, pessoas que descobriram que sabem e gostam de escrever, eu apostaria que aumentaram, até estimulados pela própria ferramenta que facilita a interação em torno de uma ideia. E é realmente uma pena que tanta produção de pensamento, tantas crônicas desses tempos loucos que vivemos, ainda mais no Brasil, tanto material que foi e está sendo produzido ao longo desses anos esteja literalmente perdido, a não ser que estes mesmos autores tomem coragem de mergulhar na própria timeline em um trabalho quase arqueológico, resgatar esse tesouro e jogar organizadamente em um blog na web. Isso, fora todo o conteúdo perdido nos grupos, páginas. Informação que jamais será aproveitada e indexada para ser encontrada pelo Google e utilizada a qualquer momento.

Eu conheço pessoalmente pelo menos dois casos de pessoas que escrevem textos brilhantes no Facebook que só agora perceberam a necessidade de resgatar produção antiga e lamentam não terem armazenado os textos também em um blog ou coisa parecida. Um deles inclusive teve a conta bloqueada por motivos misteriosos e perdeu TUDO. Está brigando com o Facebook para recuperar anos de escritos e fotos, material que inclusive pretendia publicar.

Enquanto isso, fora do planeta Facebook, a produção estagnou. Você encontra os mesmos blogs de sempre, com temas quase sempre repetidos ou copiados uns dos outros. Textos prontos de social media. Plataformas como o Medium simplesmente não decolam como poderiam (comparadas a uma movimentação de textos de um Facebook, por exemplo). O conteúdo encontrável por busca ativa pelo Google está empobrecendo enquanto os autores jogam suas criações no triturador do Facebook em troca de likes.

De qualquer forma, fica a dica: façam cópia dos seus conteúdos do Facebook. Não deixe seu textão apenas por lá. Há muitas plataformas boas, de usabilidade amigável, como este aqui, o Medium, por exemplo. Pense nele como um backup. Deixar conteúdo unicamente na rede do Zuck é a mesma coisa que terminar de escrever um texto no papel, fazer várias cópias e jogar pela janela. Embora um determinado número de pessoas vá lê-lo, o destino final será o lixo, o limbo do esquecimento, dificilmente ele será recuperado em momentos futuros para ser lido novamente.

Mark Zuckeberg, sinto informar, você se acha genial e tal, mas você deixou o planeta internet mais pobre. Obrigada por nada.

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Produção colaborativa de histórias e tendências para instigar você. Somos a primeira e maior publicação brasileira no Medium, vamos juntos?

Cecilia Santos

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degustadora de palavras. com mel. com cachaça. com pimenta.

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