Como saber se está tudo bem?

A arte de descobrir que está tudo bem quando não está

Luciane Fernandes
Sep 8, 2018 · 5 min read

Se você cair em uma piscina cheia (e não fizer absolutamente nada) seu corpo tende a boiar em estado relaxado. Considerando esse ambiente controlável, sabemos que também existem outras duas possibilidades:

No extremo positivo, você nada. Pode ser que se movimente de maneira desengonçada ou na melhor das hipóteses, seja capaz de realizar acrobacias. Em ambos os casos, está se movendo.

Já no extremo negativo, você se afoga em desespero.

O fato é que dentro da mesma piscina as 3 opções estão disponíveis. Afinal, é sempre isso não é mesmo? Positivo, negativo ou neutro.

Agora vale lembrar que nem todos sabem nadar. Ou ao menos se esquecem. Isso porque enquanto bebês recém-nascidos os seres humanos possuem esta habilidade inata. Ainda que não exatamente, com direito a braçadas e mergulhos profundos. Mas por meio de algumas peculiaridades anatômicas e instintivas consequentes da vida intrauterina.

Não à toa, em nossos primeiros meses de vida, o ambiente aquático é extremamente acolhedor e natural. No entanto, apenas pouco tempo depois passamos a ter medo da água.

Qualquer semelhança com o nosso próprio estado de ser, neste caso, não é mera coincidência. Digamos que quanto mais novos (e menos traumatizados), mais tendemos a nadar e a fluir sem excessos de pressões emocionais enquanto seres humanos.

Claro. Bebês são simples e puros. Portanto, não guardam certas programações negativas como por exemplo, a do rancor. Eles vivem o momento ao máximo. Se estão com fome, choram. Se acham graça, riem. Mas após dormir, começam tudo de novo e não choram pela fome do dia anterior. Algo semelhante acontece com os animais.

Vivi com alguns mestres zen — todos eles gatos. Até mesmo os patos me ensinaram importantes lições espirituais. Observá-los é uma meditação. Como eles flutuam em paz, de bem com eles mesmos, totalmente presentes no Agora, dignos e perfeitos, tanto quanto uma criatura sem mente pode ser.

Eckart Tole

O que bebês e animais possuem em comum é seu estado de presença. Porém, a diferença entre nós e os animais é que conforme crescemos, nos tornamos adultos que pouco a pouco se afogam em seus medos e discursos mentais entre passado e futuro.

Convenhamos que apesar do desenvolvimento cognitivo ser algo positivo e necessário à evolução, o estado de fluidez de quando nascemos, é uma das habilidades que nunca deveríamos perder.

Parece que o passar do tempo nos acrescenta tantas camadas que perdemos a essência da naturalidade, inclusive a naturalidade de nos sentirmos mal.

Há até quem sofra sem saber que está sofrendo. São pessoas que geralmente perdem a sensibilidade e saem gerando estragos “inocentemente”, mas sem a menor percepção de empatia e respeito pelo outro. Sim, o egoísmo também é uma doença. E muitas vezes é quando estamos no “auge” de uma falsa autoestima, é que perdemos a coragem de se importar.

Isso porque em algum momento, começamos a ser apenas vítimas passivas de toda a tralha que o mundo nos despeja, enquanto aumenta-se a insegurança, por meio de anseios e bloqueios.

Sem perceber, passamos a nos afogar em todas essas emoções, repetidas e repetidas vezes. E pior do que isso, fingimos que nada está acontecendo para não demonstrar fragilidade. Por mecanismo de proteção, tenta-se tapar o Sol com a peneira.

Assim as frustrações mais profundas se deslocam em superficialidades na busca de manter uma autoimagem imaginária. Muitas vezes, apenas evidenciando ainda mais os problemas que são muito mais fáceis de serem percebidos pelos outros do que por nós mesmos.

Em psicologia, essa prática é conhecida como compensação. Ou seja, qualquer tipo de extremismo e compulsão de uma pessoa em determinado sentido, representa que ela está “compensando” um vazio emocional de outra área afetada.

Para alguns, é a comida para compensar a ansiedade. Para outros, a busca pela popularidade para compensar a baixa autoestima.

Em geral, as compulsões são a causa mortis do nosso afogamento. E quanto maior o desespero, maiores são os esforços para tapar o buraco.

Nos esquecemos de nossa capacidade inata de ao menos boiar quando não se sabe exatamente o que fazer. Porque não há um dia sequer que não se vive alguma espécie de culpa ou medo. A busca é sem fim. A sensação é de que nunca está completo, há sempre algo faltando e que precisamos preencher. O presente nunca é o bastante.

Então, a primeira reação óbvia é a do esforço no sentido contrário. Basicamente se a vida te der um tapa, você revida com um soco.

Até que…você desiste de tentar.

E neste momento, algo diferente acontece.

Você atinge consciência. Mesmo que não saiba porque e como foi parar neste estado repetitivo. Conforme se torna consciente, descobre que é possível se debater menos.

Ao se deparar com seu desespero enquanto uma ativação da mente e das emoções fora de controle, uma nova lógica começa a tomar forma.

Porém, em um primeiro momento, esse desespero também precisa ser acolhido e não deveria ser julgado, nem por você e nem por ninguém. Afinal, foram muitos gatilhos que te levaram a se sentir assim.

A vida não vem com manual de instrução.

Mas exatamente a partir deste ponto, começa a ficar tudo bem. Afinal, a água da piscina sempre esteve flexível a seus movimentos. E mesmo que você ainda não esteja dando um show de natação, a ideia de que não precisa mais se afogar, já soa um tanto libertadora.

E é por isso que está tudo bem mesmo não estando. Ainda que não pareça.

Ironicamente, a gente só consegue sentir que está tudo bem, quando tem a capacidade de admitir que não está. Esta é a percepção que no mínimo, te permite desenvolver clareza.

Trazer seus maiores medos emocionais do subconsciente para o consciente representa meio caminho andado, porque é impossível combater o inimigo que você não consegue enxergar.

O que eu chamo de boiar, outros também reconhecem como a habilidade da resiliência.

De acordo com o autor Gustavo Razzeti, no texto: “Resilience: How to Rescue Yourself from Adversity” (Resiliência: como resgatar a si mesmo da adversidade), ela é uma capacidade que pode ser moldada:

Este é o paradoxo da resiliência, para superar a adversidade, você precisa se resgatar primeiro. Sua forma de pensar, não o evento, definem se você será resgatado ou não.

Resiliência é menos sobre quem você é e mais sobre como você pensa.

No fim, entender que está tudo sempre bem não significa que as coisas estão no lugar que você gostaria que elas estivessem. Não significa nem mesmo que você está se sentindo feliz agora.

Entender que está tudo sempre bem é perceber que independente das situações você sempre terá a possibilidade de nadar, se afogar ou ao menos permanecer “flutuando" enquanto talvez o próprio vento e o movimento das águas, te levem até as bordas da piscina, sem tanto esforço assim.

NEW ORDER

Produção colaborativa de histórias e tendências para instigar você. Somos a primeira e maior publicação brasileira no Medium, vamos juntos?

Thanks to New Order - Redação

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade