Como salvar alguém que não parece estar se afogando

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Nos dias após a morte de um famoso ator global nas águas do Rio São Francisco, surgiram milhares de textos sobre o assunto. Comovidos, furiosos, poéticos, conformados. Mas um dele me chamou a atenção por falar sobre como o afogamento, essa causa de morte mais comum do que se imagina, é retratado de maneira irreal e até irresponsável na ficção.

Fomos ensinados a identificar o pânico, o barulho, os gritos e os membros frenéticos espalhando a água que só existe dentro das telas de tv e cinema, num estúdio aquecido onde nada além de uma toalha felpuda aguarda o ator ou atriz que morria na cena violenta há dois minutos atrás.

Já na vida real, diz o texto, o afogamento é mais silencioso e repentino do que poderíamos adivinhar. Em um segundo, seu amigo, seu filho, seu namorado ou vizinho estão ao seu lado, nadando felizes, e no outro, a corrente é mais forte, a água cobre seu nariz e muitas vezes ele não conseguirá sequer bater os braços para se salvar ou mesmo gritar por ajuda, graças a uma reação automática do corpo que paralisa o que não é essencial para sobrevivência naquele momento. É então, uma morte tranquila e rápida, sendo assim muito mais perigosa do que anos de novela das oito nos fizeram crer.

De uma maneira muito semelhante, conviver com alguém com depressão é como testemunhar um afogamento: procura-se pelos sinais evidentes de que algo está errado, as pernas batendo e os gritos de socorro de quem parece não estar conseguindo tocar o pé no fundo da piscina, mas são as pessoas que se calam e somem de repente que deveriam ganhar nossa atenção.

Quando a notícia dos suicídios de comediantes como Robin Williams e Fausto Fanti chegaram na mídia, o choque do público foi evidente. Como pessoas que ganharam a vida fazendo os outros chorarem de rir poderiam ter ido encontrar a morte por vontade própria?

Espera-se que o depressivo se encaixe no perfil esperado. Que ele não saia da cama nunca, que não consiga levar uma vida ativa ou sentir felicidade, até mesmo fazer outras pessoas felizes. Se a tristeza não for óbvia demais, se não saltar aos olhos em todos os minutos possíveis, então não deve ser verdadeira. Pacientemente, esperamos o pedido de ajuda e o desespero para começarmos a nos preocuparmos, sem saber que quem afoga-se em si mesmo o faz silenciosa e lentamente, dia após dia escorregando um milímetro para o fundo até finalmente perder para a correnteza.

Para ser um salva-vidas nesses casos, não são necessárias longas horas comprovadas de nado em mar aberto e revolto ou uma capacidade respiratória invejável para segurar o fôlego por longos minutos.

Muitas vezes quem se vê com os pulmões submersos só precisa de um par de olhos atentos, prontos para identificar no seu silêncio um grito que não está lá e levantar seu rosto para fora da linha d’água.

Bons amigos já nascem vigilantes, prontos para pular de suas cadeiras de pernas compridas direto na água caso você precise, mas essa também é uma habilidade a ser explorada ao longo da vida.