Como ser um professor melhor sem precisar aprender neurociências

Na era das neurocoisas, é fácil esquecer o princípio mais poderoso da aprendizagem.

Henrique Souza
Dec 30, 2016 · 4 min read

Aprender é um processo complexo pra caramba, com um monte de partezinhas que dependem umas das outras. É como um relógio daqueles bem vintage — engrenagens de madeira e tudo mais — que só um mestre-relojoeiro entende de verdade.

Essa complexidade assusta os alunos, os pais e os professores também. A cada dia a gente descobre uma nova peça do relógio: a neurociência da aprendizagem, as inteligências múltiplas, a neuropsicologia… E todo mundo entra em pânico. Será que o segredo pra ensinar melhor é virar um expert do cérebro?

Aprender neurociência ajuda. Aprender antropologia ajuda. Mas pra mim, existe um princípio da aprendizagem que é a base de todos os outros. Como um copo d’água é composto de moléculas de H2O, o processo de aprender é composto de ciclos — e saber disso pode transformar seu jeito de ensinar.

Engrenagens de um relógio astronômico antigo. Imagina fazer a manutenção disso.

A criança curiosa encosta a mão na grelha quente. A superfície queima, a dor incomoda e a mão se afasta: a criança aprendeu que encostar a mão na chapa é ruim. Tempo total de um ciclo.

A moça experimenta contar uma piada pro moço e ele ri. Um ciclo. No meio da conversa, ela conta mais uma e ele se gargalha todo. Dois ciclos. No fim da noite, ela faz um trocadilho e o moço ri feito criança. Três ciclos e a moça aprendeu que “o moço ri das minhas piadas”.

Lucas escreve a sua décima redação do ano. Duas semanas depois, ele recebe a correção e vê que tirou C, a mesma nota das últimas 9 redações. Em 10 ciclos, Lucas ainda não aprendeu a escrever melhor.


Um ciclo é uma ação no mundo seguida de uma reação. É a receita universal da aprendizagem, programada na mente dos ratos, gatos, cachorros, ostras, baleias, humanos e tudo que tem entre eles. Tudo que você aprendeu até hoje pode ser quebrado em ciclos, desde engatinhar até pilotar um avião.

Dar a patinha (ação) => Receber carinho (reação)

Mas como as moléculas, nem todos os ciclos são iguais. Você já sentiu um professor fazer o conteúdo simplesmente fluir pra dentro da sua cabeça? E uma hora depois, sentiu o contrário daquilo com o próximo? Por que isso acontece? Pra mim, tem tudo a ver com a segunda parte do ciclo: a reação.

Lembra da criança encostando na chapa quente? A reação (sentir dor) acontece em tempo real; por isso, a aprendizagem é instantânea. Na história da moça é parecido. O sorriso acontece logo depois da piada e em 3 ciclos a mágica tá feita. O ciclo é rápido.

O exemplo da redação é bem o contrário. A ação (escrever o texto) acontece e a reação (receber corrigido) só vem duas semanas depois. O problema é que quanto mais demora a reação, menos impacto ela causa no próximo ciclo e maior a chance de continuar tudo igual. É como tentar recompensar o seu cachorro hoje por ter dado a patinha um mês atrás. O ciclo é lento.

Um exemplo de ciclo rápido: a reação (acertar o alvo) vem imediatamente depois da ação (chutar).

Bons professores são mestres em duas coisas: inventar ciclos rápidos e quebrar ciclos lentos em partes menores.

Para o professor, um dos ciclos mais lentos é o ciclo da avaliação, ou seja, dar a matéria (ação) e descobrir se a turma aprendeu (reação). O jeito tradicional é passar várias semanas dando conteúdo e depois fazer uma prova que avalia tudo junto e responde à dúvida mortal “será que a turma dominou a matéria?”.

Professores espertos tentam responder essa pergunta em tempo real, usando ciclos rápidos. Em vez de só falar, falar e falar, eles testam o conhecimento da turma criando perguntas rápidas (“Quem pode explicar a função das organelas?”), aplicando mini provas mais vezes (não só uma no final) e incentivando que qualquer dúvida seja dita na hora, mesmo que pareça boba. Nessas aulas, a interação professor-aluno é intensa. Ciclos rápidos, aprendizagem rápida.


Uma aula focada em ciclos rápidos deixa todo mundo empolgado, especialmente os alunos. E isso não acontece só porque a aula fica mais parecida com o mundo da tecnologia (pensa na velocidade do ciclo “postar foto — receber curtidas”), nem só porque os alunos participam mais em vez de dormir.

Ela empolga porque, como um violino numa orquestra, ela está em harmonia com o jeito como nosso cérebro aprende. Porque ela respeita o princípio dos ciclos rápidos, todas as outras partes do relógio funcionam melhor. A aprendizagem acontece, como a chuva acontece, como a respiração acontece.

E assim o professor consegue, sem ser mestre-relojoeiro, psicólogo ou neurocientista, fazer girar a aprendizagem — o relógio mais complexo e bonito do mundo.

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Henrique Souza

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Psicologia, tecnologia, educação.

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