Como sobreviver ao futuro

O conhecimento, as habilidades e a Inteligência Artificial

Cena do filme Hidden Figures (“Estrelas além do tempo”)

Sendo bem direta: “em 2030, os alunos irão aprender com robôs na Internet, 10 vezes mais rápido do que aprendem hoje”.

Essa previsão é de Thomas Frey, futurista da DaVinci Institute. De acordo com ele, adeus professores e adeus cursos presenciais — mesmo os de graduação estariam ameaçados. Em entrevista à Business Insider, Frey afirmou que, até 2030, as maiores empresas na Internet serão empresas educacionais, das quais ainda sequer ouvimos falar.

De acordo com o futurista, parece que a bola de cristal do progresso aponta valendo para o domínio da Inteligência Artificial em muitas áreas da nossa vida, e a educação vai figurar entre as mais “afetadas”, por assim dizer.

Por mais que dê aquela bambeada nas pernas, no fundinho sabemos que é para essa direção que o mundo caminha. Não é difícil analisar mentalmente o salto tecnológico e o seu impacto na nossa própria vida nos últimos… hum, 15 anos. Mas, se assim como eu, você também não é um estudioso da Inteligência Artificial, ainda é um pouco difícil imaginar o que mais, senhor, vai rolar daqui para a frente.

No filmão Hidden Figures (“Estrelas Além do Tempo”), que está nos cinemas, é contada a história de três mulheres negras absolutamente incríveis que tocavam o terror na Nasa durante o pré-histórico mundo sem computadores, quando seres humanos faziam na mão todos os cálculos necessários para criar coisas tipo foguetes espaciais.

Katherine Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monae) eram simplesmente lacradoras no assunto calcular e foram protagonistas de um importante passo, tanto da história dos EUA quanto da história do mundo: o de levar um homem ao espaço.

[Choca que essa história só esteja sendo contada agora, né, não?]

Em Hidden Figures, Dorothy Vaughn era supervisora [não oficialmente reconhecida] das “matemáticas de cor”: um grupo de trabalhadoras negras da Nasa que passavam os dias fazendo cálculos infinitos de nível avançado em uma sala separada — porque ainda estávamos num período deprimente da história humana em que havia segregação racial nos EUA.

Quando o primeiro IBM aterrissou na Nasa, Vaugh percebeu que o seu emprego e o emprego de todas as outras matemáticas estava ameaçado por essa máquina desconhecida, que prometia fazer em quantidade e em velocidade até então inconcebíveis, os cálculos que até então eram feitos no braço. Era preciso adaptar-se. E foi a partir desse insight que ela se tornou a primeira pessoa capaz de programar o computador da Nasa. Isso em 1961, olha só a proporção que a coisa tomou até aqui.

Li um texto no Medium esses dias que achei muito interessante e acalentou meu coração diante das previsões frias (eu acho frias) do Thomas Frey. Nesse texto (We don’t need to teach our kids to code, we need to teach them how to dream), Tom Goodwin elenca cinco habilidades que seriam essenciais no mercado de trabalho do futuro, ou seja, essenciais às crianças de hoje em dia, que são quem efetivamente vai estar comandando a porr* toda.

Segundo ele, ainda é pensar com a cabeça do presente esse negócio de achar que programar computador é a grande sacada para se dar bem profissionalmente daqui em diante. Nada impede que, logo menos, máquinas estejam programando máquinas, por exemplo. O que serviu até agora muito provavelmente não vai servir com a mesma intensidade daqui a 20 anos.

O que resta ao ser humano, então, diante deste cenário esquisito?

Bom, assim como as Hidden Figures da Nasa, teremos que nos adaptar. E, como bem pontua Goodwin e sinaliza Thomas Frey, já estaremos até às favas de conhecimento e de novas formas de adquirir mais conhecimento e de maneiras mais rápidas de aprender qualquer coisa que a gente quiser com o auxílio de robôs e de algorítimos personalizados. O mundo já vai ser outro, não sei se você entendeu. Conhecimento, por si só, possivelmente deixe de ser um diferencial, portanto.

Mas então? O que vai interessar?

Bom, Goodwin acredita que existem cinco habilidades-chave a serem desenvolvidas, as quais “formariam” pessoas robustas, felizes e equilibradas, aptas a abraçar a idade moderna. Segundo ele, vai ser preciso uma guinada radical (talvez até radical demais, ok, mas ainda assim interessante de se pensar). Em suas palavras — e numa tradução minha:

“Priorizamos a aquisição de conhecimento em torno do que supomos que a sociedade julgaria mais "digno". Durante grande parte da história, o conhecimento estava enraizado na teologia: era explicar o mundo de uma maneira sobrenatural, ver a bondade como um princípio. A Revolução Industrial priorizou formas de maximizar o retorno sobre o investimento em um ambiente centrado na produção.
Nos últimos anos, consideramos matemática, leitura e escrita como os blocos básicos para a sobrevivência; as melhores alavancas para o nosso trabalho para produzir valor.
Esse valor, no entanto, vem sendo corroído ao longo dos anos.
As empresas queixam-se das poucas habilidades dos alunos que saem da escola e, a partir disso, assumimos que o caminho a seguir é garantir que mais pessoas estudem por mais tempo. Eu acho que o mundo em mudança significa que precisamos preparar as crianças de uma maneira totalmente diferente. Uma criança de 5 anos de idade hoje, por exemplo, entrará em um mundo de trabalho, em 2030, que é tão incompreensível que precisamos de uma re-imaginação existencial do próprio fundamento da educação.”

Partindo desse pressuposto, Goodwin apresenta as cinco habilidades, que são as seguintes:

  1. Habilidade de relacionar com as pessoas: a educação para o futuro precisaria se concentrar em maneiras de garantir que as pessoas possam construir relações humanas duradouras e confiáveis. Precisamos reaprender a ouvir e a conversar novamente, a despeito de toda a tecnologia que já temos hoje e que, ao mesmo tempo em que nos aproxima, nos afasta brutalmente do mundo real.
  2. Habilidade da curiosidade: quando os smartphones se tornam capazes de responder a todas as perguntas, o que estimula o nosso pensamento é a curiosidade. Devemos abraçar essa sede inata por querer saber mais.
  3. Habilidade da “agilidade” (entendo mais como resiliência): diante de um futuro provavelmente distinto de tudo que já conhecemos, as pessoas terão de ser cada vez mais maleáveis e capazes de se adaptar a mudanças. Flexibilidade, portanto, será (ainda mais) um pré-requisito.
  4. Habilidade da criatividade: o poder de uma ideia é a maior alavanca que já conhecemos.
  5. Habilidade da empatia: precisaremos definitivamente nos abrir para o diferente e aprender a nos colocar no lugar do outro. Mais do que nunca, teremos de saber construir pontes entre as pessoas, e não muros. A empatia será a ferramenta necessária para isso.

Talvez não seja nem tanto ao céu, nem tanto à Terra. Talvez não seja bem assim. Talvez professores continuem existindo em 2030 e saber mandarim siga sendo pré-requisito no mercado de trabalho do futuro. Não acredito que vá existir um mundo no qual o conhecimento seja dispensável, tal qual sugere Goodwin. Sempre estaremos em busca, sempre haverá algo a aprender, alguma coisa a descobrir, necessidades novas de saber, pré-requisitos a cumprir.

Mas, de fato, o mundo já dá fortes sinais de saturação desse modelo que vigorou por décadas. E acumulam-se pessoas com canudos universitários e títulos debaixo do braço andando às cegas, infelizes com o modelo que ainda está imposto. De fato também, a Inteligência Artificial vem ganhando cada vez mais espaço nas mais diversas áreas, e acompanhamos um massivo crescimento dos cursos a distância ou mistos — ainda com professores humanos, diga-se. Também é um fato que o mercado de trabalho já vem buscando diferenciais em seus profissionais. Diferenciais de comportamento, inclusive. Isso tudo no presente, aqui no ano de 2017.

Mas calma: Thomas Frey nos dá um certo tempo, explicando que a Inteligência Artificial ainda está se debatendo com seu grande obstáculo, que é o de ensinar aos robôs as sutilezas da linguagem, do pensamento e da razão. Eles ainda não conseguem nos substituir em tudo o que pretendem e não é possível precisar em que pé a coisa toda estará em 13 anos.

Além do que, concordo com Goodwin que não precisamos mudar tudo agora. Mas seria inteligente de nossa parte começar a nos preparar e a preparar as nossas crianças para este mundo futuro desconhecido e cada vez mais tecnológico. Com os bots, talvez não possamos competir em muitos quesitos. Teremos fatalmente de nos adaptar a eles. Mas há uma habilidade que nos blinda, e é nela que devemos nos aperfeiçoar: a nossa humanidade. É essa a condição que nos manterá de pé, esteja o mundo como estiver.


O mundo tem tecnologia suficiente
Se os antigos preconceito e a estupidez pudessem ser abandonados
Nós poderíamos fazer do mundo um paraíso, nada está faltando
Se podemos alcançar a lua
Se podemos criar tanto poder destrutivo
O mesmo poder pode ser transferido à criatividade

Você é um convidado
Deixe esta Terra um pouco mais bonita
Para os demais convidados que vão chegar depois de você
Ninguém pertence a este lugar
Mas por ora estamos aqui
E temos de tornar este momento o mais bonito possível

Onde quer que você esteja, será aqui e agora
Viva intensa e completamente no agora
Caso contrário, a vida escorrerá por suas mãos como a água
Até que você fique de mãos vazias
E encontrar a morte de mãos vazias, é um completo fracasso.

[Osho]