Como traduzir palavras que não têm tradução

Marco Neves
Aug 5, 2014 · 7 min read

“Onze Palavras Intraduzíveis”

Há alguns meses, o meu irmão Diogo enviou-me o link para um artigo sobre línguas. “Vais adorar!” Como sou um geek das línguas e trabalho em tradução, seria mais do que normal que eu adorasse o artigo. Mas mal olhei para o título, disparei: “Please! Dá para ver que é um artigo parvo só pelo título…” Diga-se, em minha defesa, que estava um pouco irritadiço nesse dia.

O meu irmão lá me convenceu a deixar de ser casmurro e a ler o artigo com a mente aberta, que é aquilo que eu digo que devemos fazer sempre.

O artigo é este e o título “parvo”, traduzido à letra, é: Onze palavras intraduzíveis de outras culturas (11 Untranslatable Words From Other Cultures). Tinha a certeza, mesmo antes de começar a ler, que o artigo haveria de incluir as traduções das palavras supostamente intraduzíveis. Comecei a ler e, claro, lá estavam as tais palavras intraduzíveis com as traduções escarrapachadas ao lado. *suspiro*

(Um parêntesis: este é o drama de quem trabalha em tradução: de segunda a quarta, toda a gente acha que aquilo que fazemos é fácil; de quinta a domingo, toda a gente acha que aquilo que fazemos é impossível. A verdade é esta: a tradução nunca é impossível, mas é quase sempre difícil.)

Adiante. Vejam, então, as traduções das palavras “intraduzíveis”:

  • “Waldeinsamkeit” — tradução: “a sensação de estarmos sozinhos na floresta”.
  • Culaccino”—tradução: “a marca deixada por um copo frio no tampo duma mesa”.
  • Pochemuchka”—tradução: “uma pessoa que faz muitas perguntas” (ou “metediço”).
  • E por aí fora…

Podem ser traduções um pouco palavrosas, mas são traduções…

Uma das palavras “intraduzíveis” com a tradução inglesa por baixo. http://blog.maptia.com/posts/untranslatable-words-from-other-cultures

Depois de ler o artigo, foi este o diálogo com o meu irmão:

  • Marco: “Estás a ver, a autora traduz as palavras. Não são intraduzíveis!”
  • Diogo: “Sim, mas talvez ela quisesse dizer ‘palavras que não são traduzíveis por uma só palavra’.”
  • Marco: “Então porque não chamou ao artigo Palavras que não são traduzíveis por uma só palavra?
  • Diogo: “Porque ninguém ia ler um artigo com um título desses!”

Bem, ele tinha alguma razão. Seja como for, a autora acertou: as estatísticas do artigo mostram que foi muito lido. Além disso, os desenhos são interessantes—e as palavras são, de facto, estranhas e parecem intraduzíveis mesmo quando estamos a ler as traduções. É um bom artigo, de certa maneira.

Mas, se alguém está mesmo interessado em saber se existem palavras intraduzíveis, pode começar por ler este post do blog de linguística Language Log. É só um ponto de partida, claro está.

As palavras intraduzíveis são impossíveis

A minha posição actual sobre esta questão é esta: as palavras intraduzíveis são uma impossibilidade. Digam-me uma palavra estrangeira qualquer que não possa ser traduzida. Expliquem o seu significado em português. Aí têm uma possível tradução. Sim, é também uma definição e não a palavra em si, mas a tradução nunca é uma substituição palavra por palavra. O tradutor trabalha ao nível do texto. Se uma palavra tem alguma função num texto (o que acontece quase sempre), os tradutores podem usar uma só palavra para a traduzir ou então um conjunto de palavras. Pode até acontecer que o tradutor opte por eliminar a palavra, pois a omissão, na língua de chegada, poderá significar (ou fazer) a mesma coisa que a palavra original.

Sim, há muitas palavras que não podemos traduzir usando uma só palavra. Mas isso significa quase nada. As línguas são, de facto, diferentes—mas é só isso. Não são barreiras inultrapassáveis.

Palavras e conceitos

É mais fácil perceber este ponto se compreendermos este facto: os conceitos não são palavras. O pensamento não é feito de palavras, apesar de ser comum identificar pensamento com linguagem. Sim, nós usamos palavras quando estamos a pensar, mas nem sempre. Basta imaginar um quadrado e aí têm um pensamento visual. Lembrem-se ainda dos momentos em que queremos dizer alguma coisa e não nos aparecem as palavras certas: nós estamos a pensar naquilo que queremos dizer. Mas não conseguimos encontrar as palavras. Ou seja, o pensamento e a linguagem são coisas diferentes. (Se não fosse assim, a tradução seria impossível, porque nada sobreviveria à transferência entre uma língua e outra. Aliás, não haveria nada para transferir.)

As palavras são atalhos para um determinado conceito e esse conceito pode ser pensado por qualquer pessoa, independentemente da língua que a pessoa fala. Se não houver um atalho em determinada língua, os falantes têm de fazer o caminho completo, ou seja, têm de descrever o conceito (poderão estar a criar esse conceito na mente do ouvinte). Se a determinado conceito corresponder uma só palavra em determinada língua, é muito provável que isso signifique que a cultura associada a essa língua dá muita importância a esse conceito determinado (mas também pode acontecer que tenha sido algo acidental). No entanto, se uma outra cultura começar a usar o conceito, a língua dessa cultura rapidamente criará (ou importará) uma palavra para servir de atalho para esse conceito. Estamos sempre a criar novas palavras, a mudar o significado às palavras antigas e a fazer uma série de malfeitorias para adaptar a nossa língua ao nosso mundo conceptual. O nosso mundo está sempre a mudar e precisamos de novos atalhos para os conceitos necessários para lidar com essa mudança.

Basta pensar na palavra “computador”. Quando foi criada, começou a espalhar-se pelas línguas. Todas as línguas sempre tiveram forma de descrever o que é um computador, mas acabaram por sentir necessidade de criar um atalho (uma só palavra) para deixar de usar uma descrição sempre que era preciso referir o conceito de “computador”. Imaginem o que seria chegar à loja e pedir: “Queria uma dessas máquinas que permitem fazer cálculos de forma rápida e automatizada. O último modelo, já agora.”

Atalhos especializados: a terminologia

Isto também é verdade dentro de cada uma das línguas: os especialistas numa área irão usar atalhos especializados dessa área. É o que chamamos de terminologia. Quando é preciso explicar determinado termo técnico ou científico a um não especialista, o cientista ou técnico irá usar uma definição completa—o atalho de que falava há pouco não está disponível para o não especialista (que pode, seja como for, aprendê-lo rapidamente; é normal encontrar em livros de divulgação científica termos que passamos a conhecer ao terminar o livro).

Se determinado conceito técnico ou científico começar a ser útil para mais pessoas, o atalho (ou seja, a palavra) começará a tornar-se comum para todos os falantes—e poderá até invadir outras línguas e culturas.

(Por vezes, uma palavra é um atalho para um conceito vago, que se torna mais claro ao longo do tempo. Um cientista poderá dizer que descobriu X. No entanto, não sabe ainda descrever com exactidão o que é X. Mas pode criar uma palavra de imediato, para descrever esse conceito vago. Desta forma, evita ter de estar a dizer constantemente “algo que não sei muito bem o que é, mas…” À medida que o conceito se torna menos vago, a palavra pode permanecer.)


Em resposta ao título deste artigo: para traduzir uma palavra intraduzível, basta compreender o conceito para o qual a palavra aponta e explicar esse conceito na nossa língua.

Como não há conceitos que não possam ser explicados numa qualquer língua, tudo o que podemos dizer numa língua pode ser traduzido para qualquer língua.

O que não se pode dizer não se pode traduzir

Depois deste solilóquio todo, tenho de vos dizer agora que há muita coisa que não é possível traduzir. Quando oiço determinada palavra na minha língua, aparecem na minha cabeça uma série de imagens e sinto no corpo todo uma série de emoções que não consigo, de facto, traduzir noutras palavras. É por isso que algumas pessoas dizem que determinada palavra é intraduzível. Mas, reparem, não só não conseguimos traduzir esse estado emocional para outra língua, como nem sequer o conseguimos descrever na nossa própria língua. Seja o que for que não conseguimos traduzir, também não conseguimos dizer. Por outro lado, tudo o que conseguirmos dizer, também conseguimos traduzir.

O talento dos escritores está em conseguir dizer aquilo que, aos olhos dos outros, parece impossível de pôr em palavras. O talento dos tradutores está em conseguir traduzir aquilo que, aos olhos dos outros, parece impossível traduzir.

Há um livro magnífico que explica este assunto de forma clara: procurem Is That a Fish in Your Ear: Translation and the Meaning of Everything.

Por isso, podemos dizer que nada do que sentimos pode ser realmente traduzido. Porquê? Porque as minhas experiências são muito diferentes das experiências do meu vizinho. Mas se o meu vizinho for talentoso o suficiente para escrever o que está a sentir, haverá certamente tradutores capazes de traduzir para qualquer língua humana aquilo que ele escreveu de forma tão talentosa.

Ou seja: o que não se consegue traduzir também não se consegue dizer. Mas o que dois gémeos dizem um ao outro no seu gemeolecto particular pode ser traduzido para qualquer língua. Em suma: tudo o que alguém consegue dizer numa língua pode ser dito em qualquer outra língua.

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Thanks to Cassius Gonçalves

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    Author. Translator. Teacher. Father. There's something else I can't remember. www.certaspalavras.net/marconeves

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