Vamos Corromper a Juventude!

A exposição de crianças na internet pode revelar uma angustia da nossa sociedade

Sócrates no século V a.C foi acusado por Meleto de “corromper a juventude”. Ele instigava os jovens a pensar, a questionar todos os preceitos morais e a julgar todas as condutas que a vida adulta iria lhes impor.

O pensador de outrora realmente corrompia a juventude, já que ela estava embutida numa moralidade de submissão social a toda a autoridade e a uma concordância social. Sócrates propôs uma nova moralidade que estava dentro da própria alma, algo que poderia ser visto como uma aspiração à perfeição espiritual. Onde a perfeição é vista como um objeto de vida e o segredo da felicidade, logo, a ação não pode ser governada por nenhum código de regras que venha do exterior.

A juventude atual, em especial nossas crianças (não numa totalidade, mas numa parcela em ascensão), estão longe de estarem corrompidas. A busca por uma normatização, por um padrão, por estarem e se sentirem iguais paira entre crianças que expõe-se na internet. Meninas de nove, dez, onze anos que acham que a estética é o fundamental para o alcance da felicidade. Meninos de nove, dez, onze anos que tem que demonstrar força e masculinidade. A juventude está doente, a sociedade está doente.

O Youtube é responsável por abrir uma porta e nos mostrar a intimidade de crianças inseguras com sua estética. Elas publicam vídeos perguntando sobre o que os outros acham dela, o que eles pensam sobre sua aparência, se elas “estão bonitas” ou afirmando como “estão feias”. Essa insegurança da vida privada delas está sendo exposta em sua vida pública, crianças doentes que veem no elogio uma forma de aceitação social.

Videos desse tipo nos mostram uma realidade que mescla o público e o privado e os transforma em um espelho de uma realidade ao mesmo tempo coletiva e inquietante. Coletiva, pois os jovens compartilham entre si suas inseguranças, pedem dicas e elogios, acabam criando uma rede de relações que não se obtinha no “mundo real”. Inquietante, pois nos mostra jovens angustiados e preocupados com sua beleza, expõe como a pressão social é prejudicial aos jovens que antes sofriam calados, hoje publicam vídeos no Youtube.

Cresce no Youtube canais de maquiagem, canais voltados ao estético, voltados aos padrões de beleza da sociedade. Crianças de nove, dez, onze anos não tem ainda a reflexão que eu ou você temos, elas não entendem como a sociedade padroniza corpos e cria idealizações de pessoas a serem seguidas. As crianças olharão o vídeo e absorverão aquilo como verdade. Usar tal maquiagem para ficar bonita, ter cabelo liso, ter isso e aquilo. Canais desse tipo imputam na mentalidade dos jovens os padrões estabelecidos pela sociedade, canais desse tipo normatizam seus corpos para estarem de acordo de como a sociedade os quer, como a moral impõe. Canais desse tipo fazem tudo o que Sócrates combatia, tudo o que Sócrates rejeitava, temos que corromper os jovens.

Corromper a juventude, para que ela aspire a perfeição espiritual e se aceite sem ficar se forçando a entrar num padrão que geralmente é prejudicial para a saúde mental dela. A menina negra que alisa o cabelo, a menina branca que não consegue emagrecer por questões de saúde, o menino que não é muito forte.

A sociedade impõe regras que quando crianças queremos, consciente ou inconscientemente, adentrar e nos encaixar para se sentir parte do todo. Fazer as crianças questionarem preceitos morais e a julgar todas as condutas para que elas cresçam sem medos, sem inseguranças e sem angustias. Isso é corromper a juventude.