Comunicação Não-Violenta

Que tal aprender a se comunicar melhor?

(ilustração por Karenina Marzulo | contato: kmarzulo@gmail.com)

Dia desses li a seguinte citação: “A maior distância entre duas pessoas é o mal-entendido”. Não sei de quem é a frase (vocês sabem?), mas fiquei pensativa. Quanto mais leio, estudo, reflito e converso sobre comunicação, mais impressionante me parece o fato de que as pessoas conseguem fazer o básico de se comunicar umas com as outras. A impressão que dá é que tem muito mais a dar errado do que dar certo. Mesmo assim, a gente se comunica e, na maior parte do tempo, se entende — mas só na maior parte do tempo. Porque há vezes, especialmente em situações de conflito, em que nada parece funcionar. E, muitas vezes, pessoas que se amam, se valorizam, se importam uma com a outra, se distanciam exatamente por isso: má comunicação.

Foi pensando nisso que lembrei da Comunicação Não-Violenta, tópico que tenho estudado desde o início do ano — o que não significa que consigo pôr em prática, mas já ajuda bastante a ficar tentando e a tratar da teoria.

Para falar sobre Comunicação Não-Violenta precisamos primeiro definir o que estamos entendendo por violência. A maioria de nós não se considera violenta na maneira de se comunicar, pois, no senso comum, entendemos violência como agressão física ou, no mínimo, insultos. Acontece que podemos ser violentos de diversas formas. Nossas palavras frequentemente provocam dores e mágoas que não intencionamos provocar.

Tem uma citação que gosto muito, de um texto acadêmico do antropólogo indiano Asif Agha: “Eventos que duram segundos podem ter efeitos que duram por anos.” A gente nunca sabe quais serão os efeitos daquilo que dizemos. Arun Gandhi, que escreve o prefácio do livro Comunicação Não-Violenta, do psicólogo Marshall Rosenberg, afirma que a violência passiva é mais perigosa que a violência física, pois é mais insidiosa.

Normalmente, nos achamos muito claros no que dizemos, como se qualquer mal entendido fosse culpa dos outros, que não processaram direito o que quisemos dizer. Não é nem uma coisa nem outra. A comunicação requer cooperação e tem esses dois lados: aquele que toma cuidado para se expressar de maneira clara e não-agressiva e aquele que toma cuidado para interpretar o que escuta de maneira clara e não-agressiva também.

Pensando sobre algumas coisas que ouvi no curso introdutório sobre Comunicação Não-Violenta que fiz aqui no Rio, me lembrei do filme argentino Medianeras, com a seguinte imagem e frase:

Depois desse filme, nunca mais vi as imagens de Onde está Wally? da mesma forma. Me sinto angustiada pensando naquele monte de gente se esbarrando por aí, sem se conectar com ninguém. Todo mundo se sentindo sozinho, todo mundo compartilhando a mesma angústia, mas raramente se movimentando para mudar isso, ou até tentando, mas não de maneira eficaz.

No tal do curso, no primeiro dia, uma moça perguntou ao palestrante (não sei se esse é o melhor termo), Dominic Barter, se o curso ajudaria a comunicação com pessoas que não querem se conectar. Ele respondeu: “Eu não sei se vai ajudar nisso, porque eu nunca conheci uma pessoa que não quisesse se conectar.” A mensagem que fica é: todo mundo quer se conectar, mas as pessoas usam estratégias diferentes para conseguir isso, de modo que nem sempre compreendemos os outros e nem sempre somos compreendidos. O problema está no próprio uso da linguagem. Temos o hábito de usar a linguagem menos clara possível para comunicar nossos sentimentos e necessidades. Sendo assim, é até esperado que sejamos incompreendidos e que tenhamos dificuldade para entender os outros também.

Os quatro componentes da CNV são: observação, sentimento, necessidade e pedido. Gosto de começar falando sobre necessidade, porque acho que é aí que encontramos o terreno comum para criar a conexão. Por exemplo, antes de dar continuidade à leitura, responda a si mesmo/a: pra você, o que é mais importante na vida?

A pergunta foi feita durante o curso. Lembro de ter pensado em autonomia e equilíbrio de cara. Ambas as palavras foram ditas por outras pessoas e 100% das palavras restantes — que preencheram uma folha inteira em um cavalete — representavam algo que também é importante pra mim, variando o grau de prioridade. Essas palavras que surgem em listas do que é mais importante na vida são comuns a todo mundo. A ordem na lista varia, mas, em geral, podemos afirmar e generalizar que se tratam de necessidades humanas básicas. E há também as palavras que são diferentes, mas representam conceitos que se relacionam. Autonomia não é tão diferente de independência ou até de liberdade, assim como comunidade e pertencimento não são tão diferentes de família.

Gosto de uma analogia que Dominic Barter fez no curso com aquele ditado: “onde há fumaça, há fogo”. O que ele diz é que onde há sentimento, há necessidade. Isto é, quando estamos irritados e fazemos uma reclamação, o sentimento que leva a isso está sendo provocado por alguma necessidade nossa que não está sendo atendida. E o mesmo para todas as outras pessoas. Por exemplo, você chega em casa e sua mãe/marido/namorada reclama que você não tirou os sapatos e pisou no tapete limpo com os calçados sujos. Você tem a escolha entre entender isso como uma reclamação, um ataque pessoal, e responder de forma agressiva, ou tentar se conectar com os sentimentos e necessidades daquela pessoa. Pode ser que ela se sinta frustrada pois tem necessidade de harmonia e o tapete limpo lhe passa essa sensação. Pode ser que ela se sinta sozinha, porque já te falou várias vezes para não fazer isso e ela tem necessidade de se sentir ouvida.

Para tentar se conectar com os sentimentos e necessidades de outra pessoa, a sugestão, dentro da CNV, é fazer perguntas por meio de paráfrases: “Você se sente ________, porque tem necessidade de ________?”. Veja bem, na pergunta, está claro que o sentimento é causado pela necessidade daquele indivíduo que não está sendo atendida, e não porque você esqueceu de tirar os sapatos. O mesmo tipo de estrutura é usado para tentarmos comunicar aos outros nossos sentimentos e necessidades: “Eu me sinto ________, porque tenho necessidade de _______.” As ações dos outros são apenas estímulo, nunca a causa dos nossos sentimentos. De acordo com nossas necessidades pessoais, a exata mesma atitude pode estimular diferentes sentimentos em indivíduos diferentes. Não existe uma relação de causa e efeito entre ação e sentimento alheio.

É importante aprender a diferenciar observação de avaliação. Se digo “você é um porco!”, estou expressando meu julgamento sobre sua atitude, isto é, estou misturando a simples observação do fato de que você não tirou os sapatos antes de pisar no tapete com minha opinião sobre não tirar os sapatos antes de pisar no tapete.

O problema de misturar observação e avaliação é que nossos comentários são ouvidos como críticas. Temos muito menos chances de sermos ouvidos se nos expressarmos por meio de críticas e julgamentos. As respostas mais comuns a comentários desse tipo são agressividade, má vontade ou uma mudança de atitude que é motivada por culpa e vergonha, não entendimento e bom grado (o que não traz bons resultados pra ninguém a médio prazo). Quando nos comunicamos de maneira compassiva, temos muito mais chances de receber compaixão de volta.

Quando ouvimos um comentário que consideramos agressivo, temos quatro formas de reagir:

  1. Culpar-se (“eu sou uma pessoa horrível, nunca faço nada certo”);
  2. Culpar o outro (“ela é uma pessoa horrível, nunca está satisfeita com nada”);
  3. Ouvir nossos próprios sentimentos e necessidades (focar antes de mais nada no que nós sentimos e necessitamos naquele momento);
  4. Ouvir os sentimentos e necessidades do outro (começar dando atenção ao que aquela pessoa está sentindo e necessitando que a leva a se comunicar daquela maneira).

Se optamos por qualquer uma das três primeiras opções, dificultamos a conexão, logo, dificultamos a comunicação. Quando optamos por ouvir os sentimentos e necessidade do outro, é como se enviássemos um sinal de wi-fi. Sem esse envio, não há comunicação, pois as interações acabam se dando de forma superficial. A partir do momento em que conseguimos estabelecer uma conexão, isto é, nos damos a chance de entender o que se passa com o outro e deixá-lo entender o que se passa conosco, conseguimos nos comunicar de maneira muito mais leve e efetiva.

Em suma, a CNV consiste em duas partes:

  1. expressar-se honestamente por meio dos quatro componentes e
  2. receber com empatia por meio dos quatro componentes.

Sobre o primeiro item, podemos tentar formular frases como “quando observo isso, sinto isso, pois tenho necessidade disso, então gostaria que você fizesse aquilo”. Seguindo a mesma linha, no segundo item tentamos formular frases como: “quando observa isso, você sente isso, pois tem necessidade disso e então gostaria que eu fizesse aquilo?” Ok, já está parecendo papo de maluco. As coisas raramente parecem tão simples no dia a dia, em especial quando estamos no momento da irritação. Além disso, nem sempre sabemos o que exatamente estamos sentindo e necessitando e nem sempre temos palpites sobre o que os outros estão sentindo e necessitando. Ainda assim, só a tentativa já conta muito. A comunicação parece milagrosa de tão fácil quando as pessoas se sentem ouvidas.

Uma pergunta frequente sobre a CNV é se dá pra usá-la com pessoas que não conhecem nada sobre CNV. Ora, não faria sentido nenhum desenvolver uma forma de comunicação para a qual fosse necessário que todos conhecessem técnicas específicas. O grande lance da CNV é nos convidar a tentar ouvir — a nós mesmos e aos outros. Quando enviamos o sinal para estabelecer uma conexão, damos início, damos movimento a essa comunicação não-violenta que buscamos. É clichê, mas é verdade: empatia gera empatia. Para recebermos compaixão, precisamos primeiro oferecê-la.

Gosto muito de uma citação do poeta sufi Rumi (que está no livro):

“Para além das ideias de certo e errado, existe um campo. Eu me encontrarei com você lá.”

É quando nos preocupamos em lembrar que existe um campo comum, onde podemos nos encontrar — pois estamos todos buscando a mesma coisa — , que conseguimos de fato nos comunicar sem violência.