CONECTE #004: a violência como prática de um mal radical e redutor da humanidade

Bem vindo: precisamos conversar sobre coisas muito importantes…


Não é difícil admitir que saltou aos nossos olhos presos no cotidiano dois fatos de características horríveis: o estupro coletivo de uma adolescente de 16 anos no Rio de Janeiro e o crime de ódio — no nível de terrorismo doméstico — ocorrido na boate gay Pulse em Orlando. Dentro das últimas três semanas, reforço, esses foram os dois atos que tomaram as nossas rodas de conversa, mentes e noticiários. Logo as primeiras discussões vieram: cultura do estupro, feminismo, homofobia, terrorismo doméstico… e é com elas que vamos sintetizar esta viagem contextualizada sobre a semana.

Violência conecta de forma sólida os dois acontecimentos. Entendemos o porquê com esta definição propícia emitida pela Organização Mundial da Saúde (OMS):

“[…] o uso de força física ou poder, em ameaça ou na prática, contra si próprio, outra pessoa ou contra um grupo ou comunidade que resulte ou possa resultar em sofrimento, morte, dano psicológico, desenvolvimento prejudicado ou privação”

Logo, podemos entender tipologicamente a violência dentro das seguintes categorias: autodirigida; interpessoal; coletiva. Fica mais fácil se prendermos a atenção no quadro abaixo e entendermos suas naturezas:

Tipologia da violência

Trazendo este gráfico para nosso cotidiano, podemos tomar o caso do Rio de Janeiro como emblemático. A adolescente, estuprada por vários homens, foi amputada uma violência categoricamente interpessoal, de uma comunidade formada por estranhos e/ou conhecidos, de natureza sexual, física e psicológica. Foi danoso, assim como no caso de Orlando, em qual a violência foi de categoria coletiva, focada no social — um grupo social minoritário ou determinada localidade que abarque a presença de um grupo social em específico -, ou seja: um crime de ódio. Ficou mais fácil entender, né?

É irrefutável, perante as duas ocasiões, a intencionalidade dos atores de infligir um ato violento perante seus alvos. Entretanto, além da homofobia aparente no crime de ódio ou do relativismo moral que provavelmente envolvia os estupradores, dois pontos se destacam em meio a tanto horror:

  1. O desrespeito a dignidade e direitos que todo humano tem assegurado para si — ou necessariamente deveria ter.
  2. A ausência de reflexão dos atores das violências que cometeram — das consequências de seus atos — , além da inexistência da razão como espaço ético das nossas ações.

Tomando como ponto de partida essa minha intuição, os principais países do mundo tem (?) por base para as suas sociedades o artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos — na verdade o que ocorre é a Declaração em sua totalidade, como documento, influenciar e servir de “[…] fundamento para um crescente número de tratados internacionais e leis nacionais, bem como para organizações internacionais, regionais, nacionais e locais na promoção e proteção dos direitos humanos” — :

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.

Válida tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos da América, a citação destaca o sujeito em dever de obediência as leis,com a capacidade de legislar tanto para os outros quanto para si. O humano deveria naturalmente ter tais postulados ou axiomas para si.

Se buscarmos na filosofia, Sócrates — ao concluir que Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida — nos alerta e ensina o valor que a reflexão tem. Enquanto colocarmos a nossa alma para operar e conversar conosco, ao usarmos a razão para refletir sobre aquilo que desvela nossa ignorância e burrice, nos tensiona, nos cerca, nos desperta curiosidade, mais difícil será a possibilidade de errarmos cotidianamente e de ferir algo ou alguma coisa.

A Alteridade, que significa considerar o outro como igual e irmão de espécie, deveria ser um axioma ético — para além da utilidade do Outro, logo ressalto, espera, vou explicar de maneira mais direta:

O ser humano só se define nesta condição quando reconhece a existência do outro. Assim, devemos respeitar o nosso próximo.

Isso tende a evitar e levar as relações para além de toda homofobia, islamofobia, cristofobia, lesbofobia, heterofobia, transfobia ou qualquer palavra com o sufixo -fobia que reduza ou não reconheça o outro. Proponho, assim, a Alteridade como axioma, postulado ou princípio ético de equidade a nível ontológico — portanto, universal. Logo, a necessária presença da violência no estupro coletivo no Rio e no crime de ódio na boate Pulse, por fim, implica automaticamente numa falta de Alteridade.

Todavia, como se procederia para a ausência parcial ou total de Alteridade, onde uma redução ou não reconhecimento — principalmente — do Outro e/ou do Eu nos levaria a agir de maneira violenta? Como é possível chegar a violência como metodologia de redução ou extinção do Outro e/ou do Eu? Considerando os dois fatos aqui destacados e dados como exemplos, suspeito que a ausência parcial ou total de um constante exame reflexivo da própria vida e da vida do outro, somado a uma ou mais crenças frágeis ou errôneas consideradas pelo sujeito como bem justificadas, resultaria em uma ou mais falhas de caráter. Assim, cometer determinada ação vista como violenta não seria motivo para abortá-la como meio ou finalidade do agir, sendo a violência pseudoexistente, justificada ou irrelevante — um caráter bem elaborado impediria a si mesmo e a um outro o reconhecer dessa falha no agir.

Começo remexendo no caso de estupro coletivo no Rio de Janeiro. Além da cultura do estupro, outro ponto elencado de um ponto de vista feminista foi a frase todo homem é um estuprador em potencial. Apenas — repito: apenas — pegando esta frase da forma como está, sem tudo aquilo que a teoria feminista elenca para sustentá-lo — ou seja: tomando a frase como um imperativo, sem justificação, em vez de um argumento baseado em duas ou mais premissas — , é inferido/observado/imputado em todo e qualquer homem a potencialidade de estuprar, de agir ou iniciar uma ação de característica violenta entendida como estupro. Ora: essa confusão é perigosíssima e deve ser evitada a todo custo, pois ao imputar no homem — apenas (?) no de sexo masculino — a ação do estupro como irretirável parte de sua essência e para além da construção de seu caráter, abre-se espaço para ações que visem afastar, retirar ou excluir o homem da elaboração de uma sociedade com equidade entre os sexos. Esta frase, como imperativo e considerando a ocasião em que a possibilidade é entendida como conceito de potencialidade, serve de justificativa para exercer um poder que reduz o Outro — o homem não tem lugar de fala(?), não pode sugerir pautas(?) nas lutas do movimento etc.

Posso ter sido raso no geral e específico quanto ao que falei no parágrafo anterior. Todavia, não consegui ignorar essa inicial contraposição deste imperativo com o axioma ético que proponho nesse texto — quem sabe tal frase fique melhor com a seguinte construção: todo homem pode ser um estuprador em potencial. Por mais que o feminismo de alguma maneira leve em conta a estrita correlação ou causa entre construção social e machismo, a construção social possivelmente não dá integral conta de explicar ou diagnosticar a desigualdade entre pessoas do sexo masculino ou feminino.

Perigosíssimo assim pensar! Além de uma gritante falta de empatia, é flagrante a falta de alteridade por se permitir pensar em coisas que no fim reduzem o Outro — principalmente a sua humanidade. Fora o processo de vitimização secundária dentro da Crença do Mundo Justo, onde partindo do princípio de que somos responsáveis pelo que de ruim acontece conosco, atribuímos culpa a vítima por aquilo que ela sofreu. Mais do que não fazer com os outros aquilo que não desejamos sofrer, permitir que tais pensamentos , conclusões ou crenças perpassem a mente pode significar coisa pior.

O filósofo Kant fala de um Mal Radical. Ele quer dizer de um mal que vem da raiz, do profundo da alma, como diz a sabedoria popular. Este mal é totalmente contrário a Alteridade, aquela atitude de considerar o outro. O Mal Radical corresponde mais aquilo que ocorreu na boate Pulse, pois a intenção final da violência foi reduzir o Outro ao não-ser absoluto, a inexistência do direito a vida do humano. Aqui o lobo solitário, em algum momento, deixou não somente de pensar no Outro como reduziu este até torná-lo supérfluo, descartável, — se toda ação que inicio através da minha intenção foi anteriormente escolhida baseada no cálculo que fiz, em algum momento a sua mente iniciou o processo de redução e extermínio do Outro, seja como resultado de alguma inferência provida por uma experiência, conhecimento ou crença para ele justificada. O Mal Banal se caracterizaria pela ausência de reflexão da pessoa que o exerce, pois o autor do mal — e, de forma correlacionada, da violência — realiza a ação maldosa/violenta sem considerar nos cálculos que a operação ética necessita uma intenção imoral, refletindo em uma ação de inexistente alteridade.

Frank: onde está a política na CONECTE de hoje? Você vai entender ao ler o parágrafo abaixo extraído do texto do Portal Ciência & Vida:

Para Aristóteles, o Homem é um “animal político”, pois somente ele possui a linguagem e esta é o fundamento da comunicação entre os seres humanos. Segundo seu ponto de vista, os demais animais só exprimem dor e prazer, mas o Homem utiliza a palavra (logos) e com isso sua capacidade de julgamento entre o bem e o mal, o certo e o errado. Na busca de interpretação da realidade social, devemos levar em consideração também a capacidade de atuação do Homem sobre a natureza e a sua consequente criação de novas condições de existência, como fundamentais para compreendermos o desenvolvimento da comunicação na sociedade.

Seguem os links de leituras recomendadas para o apoio desta contextualização:

“ Depois que você terminar de ler este texto e tomar um cafezinho, um jovem negro terá sido morto no Brasil. É este o país que salta do relatório final da CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens, que será divulgado esta semana em Brasília: todo ano, 23.100 jovens negros de 15 a 29 anos são assassinados. São 63 por dia. Um a cada 23 minutos”.

Região é a que mais recorre à Corte de Haia para resolver problemas de demarcação entre países. Tensões são mais retóricas e jurídicas do que militares

“Em 2006, Connor MacGrath publicou um interessante artigo intitulado “The ideal lobbyist”. Nesse artigo, ele apresentou os resultados de uma pesquisa que havia realizado com 60 profissionais de relações governamentais que operavam em Washington, Londres e Bruxelas. Seu objetivo foi apreender quais eram as mais importantes características pessoais que um profissional de relações governamentais deveria possuir para ter sucesso em seu trabalho”.

“Há muito tempo a indústria nacional pleiteia junto ao Governo (em todas as esferas) mudanças legislativas que promovam a produtividade e a inovação tecnológica no Brasil”.

“O brasileiro é racista e privilegia candidatos brancos ao votar. Políticos corruptos se mantêm no poder porque o eleitor é ignorante. Quem recebe Bolsa Família é conivente com o governo. ONGs são um ralo de dinheiro público no Brasil. Será?”

Estudantes apelidados de pinguins por causa do uniforme composto por terno e gravata protagonizaram as maiores marchas desde o fim da ditadura Pinochet, em 2006. Influência do movimento se faz sentir ainda hoje no Brasil

“De costas para um armário de madeira e usando um fone de ouvido como microfone, o arquiteto Clóvis Smith Hays Júnior, de 28 anos, grava em sua casa em São Paulo mais um dos vídeos que costuma compartilhar com seus 34 mil seguidores no Facebook, onde ele se apresenta como um ‘gay de direta’”

Em 76 e 77, Departamento de Estado liberou US$ 661 mi em créditos para compras de armas pelos militares; para embaixador, dinheiro não fomentava “práticas repressivas”

Publicitárias denunciam abusos de que são vítimas no trabalho e afirmam: os anúncios que indignam as mulheres nascem da cultura interna das próprias agências