Consciência política num sistema complexo

Falando do Brasil…

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Muitos de nós na última década, tem se “aproximado” da vivência de uma experiência política. A grande maioria ainda inconscientes do que é a verdadeira política que cada um precisa exercer.

A noção de que as eleições promovem essa consciência vem por um pressentimento, em que muitos ainda estão carentes de uma compreensão mais realista sobre o que se desenrola nas múltiplas facetas deste sistema complexo. E o primeiro ponto a se dizer é isso: é um sistema complexo.

Como tal, tem mais de um melhor caminho em relação às opções disponíveis. Um caminho que pareça o melhor pra você, obviamente não será para outra pessoa que está em outro contexto e história individual. Uma outra opção, diferente da que você calculou e concluiu ser a melhor, do ponto de vista de outro sujeito será, também por calculo, lógica e conclusão, a melhor opção dentre todas as outras.

Um sistema complexo, como tal, traz para o seu contexto individual e da sua perspectiva uma melhor alternativa em relação às demais. Mas de igual forma apresenta de outro contexto e perspectiva outra melhor alternativa sob outro olhar.

Grosso modo, todas as opções simultaneamente parecerão boas para uma quantidade razoável de pessoas, que é o que espelha o resultado percentual das eleições. Se há, por exemplo, oito candidatos, haverão muitas pessoas para cada um destes oito candidatos que os enxergará como o melhor caminho dentre todos os demais.

Ninguém poderá, contudo, afirmar de fato qual será a melhor opção, pois essa resposta não é exatamente previsível. É um sistema complexo. Não cabe, portanto, nossa lógica linear. Ela mostra-se limitada. E por mais que se confunda a escolha com a prática (“este candidato vai fazer isso…” “fulano aquilo…”), fazemos uma escolha sobre uma promessa. Querer provar para alguém que sua opção é melhor que a dela, muito provavelmente não dará certo, não estará certo e não provará nada.

Então quando alguém oprime a escolha do outro pretendendo converter a escolha alheia naquilo que julga melhor do seu próprio ponto de vista passa frequentemente duas mensagens: Uma, a de que o contexto do outro e sua história de vida é pouco importante. A segunda mensagem que transmite pressupõe não ter, este outro, fundamentos na sua escolha, e de certo modo diz que este outro não conhece tanto quanto você, cabendo-lhe então a tarefa de o “corrigir”, como se fosse uma criança que precisa de “corretivo”, como antigamente faziam, às vezes na base do sermão, na base do xingo, na base do grito, ou de coisa pior. É como subestimar sua inteligência, de forma subliminar.

Mas pode ser ainda pior: Quando alguém diverge sem convergir, quando se rompe uma amizade, um laço, uma relação, ou quando alguém briga, ofende, agride pela imposição de uma opinião, da maneira que for, afeta de certo modo a coesão social, fundamental a se manter para os que verdadeiramente se preocupem em melhorar (e não piorar) um país a partir de sua nação.

Erra, assim, sem perceber, por não se dar conta que o papel político efetivamente se faz na interação social, nas conversas que busquem as convergências e não as divergências. Pois para conversar pode-se divertir, mas é importante que se busquem as convergências. Ninguém muda o pensamento de ninguém. Apenas é capaz de o influenciar quando há empatia.

Discussões inúteis fazem muitos gastarem energia que custa caro para a nação. “A emoção é o fundamento da razão”, como diz o neurobiólogo chileno Humberto Maturana. Significa isso que suas reações emocionais afetam suas reflexões racionais. Quer dizer, o preço dessas discussões “tóxicas” que tanto ocorreram nessas eleições é abdicar de uma melhor compreensão das perspectivas políticas que são múltiplas ao nosso redor e que nos possibilitam ampliar o nosso próprio ponto de vista ao conhecer um pouco do ponto de vista do outro, por o ouvir verdadeiramente no exercício do “conversar”. Abdicam muitos, assim, de ter verdadeiramente uma “experiência” política, uma “experienciação” da política real que a nação tanto precisa, no convívio com tanta diversidade, que é aquilo que abre a mente porque nos permite conhecer perspectivas, razões e forma de pensar que será inegavelmente inédita pra você e pra qualquer um, uma vez que o terreno do outro é único.

Quanto menos uma nação é capaz de refletir sobre seus momentos políticos, menos conhecedora de si mesma ela é. Logo, menos consciente. Tantos apontaram para o outro acusando inconsciência não se dando conta de que este, por si só, foi o gesto mais inconsciente de suas próprias ações. Quanto mais formos capazes e estarmos abertos a refletir diante ideias adversas, mais expandiremos nossa perspectiva e capacidade de influência. Pois é também lógico: Aquele que consegue conhecer aspectos do pensamento do outro desenvolve maior habilidade de criar empatia.

Ao não se ter feito isso, muitos abdicaram de adquirir efetivamente mais consciência política durante o exercício de toda a encenação eletiva que assistimos, ao qual muitos creem ser a maior expressão do poder popular, quando na realidade é o voto o menor de nossos poderes. Maior é o poder da convivência e da interação social, que reflete junto e repensa junto nossa própria história e faz aí a efetiva política.

Passadas as eleições, reflita sobre suas atitudes nesta que se foi e se preciso for, mude o que for preciso mudar para verdadeiramente cumprir bem seu papel político, seu papel com a sua nação, seu papel social, e não apenas de 4 em 4 anos, mas todos os dias.