Construindo um caso a favor de “Os Últimos Jedi”

Porque esse foi o Star Wars mais relevante dos últimos tempos

Agora que já estreou há algum tempo, talvez seja possível conversar sobre Os Últimos Jedi com menos carga dramática e mais objetividade. O filme dividiu águas, e só esse detalhe já me faz gostar dele mais do que a grande maioria dos Star Wars. Não é um filme seguro, redondinho, sem arestas. Não é um filme cuja única pretensão é vender boneco de Porg ou conter uma cena facilmente adaptável para algum game.

Esse é um filme corajoso. Aviso desde já: se você não viu ainda o filme, não leia o texto. Eu não vou conseguir evitar spoilers.

Os fãs (ah, sempre eles) torceram o nariz para essa obra. Segundo eles, “este não é nosso Luke”. Eu me surpreendi justamente por isso. Pra começo de conversa, Ryan Johnson arrancou a melhor atuação de Mark Hammil de toda a saga. Desconstruiu metade dos símbolos de Star Wars. E fincou a saga nos tempos atuais. Não é pouco.

O Despertar da Força foi o filme certo na hora certa. Emulou Episódio IV em tudo que conseguiu. Inseriu os novos personagens e fez o público se importar com eles. Deu um fim digno a um dos personagens mais queridos do público. Mas não foi exatamente um primor de originalidade. Pelo contrário, cheirava parecido demais com o passado.

Sentado na cadeira de diretor, Ryan Johnson resolveu fazer tudo ao contrário. Desde a primeira cena, onde Luke trata seu Sabre de Luz sem nenhuma reverência (e chega a chamá-lo de espada laser), e continua pelo filme todo diminuindo a sacralidade de tudo que a nerdaiada venera. O climax do filme é um anticlímax. Deve ter irritado mesmo.

Alguns fãs se sentiram traídos. Eu, no entanto, vi no filme o distanciamento necessário para ser entendido como uma obra própria, e uma obra que existe no tempo do agora, não em 1977. Algumas coisas me fazem pensar dessa forma.

Star Wars, o original, assim como boa parte da produção cinematográfica de sua época, é um produto de Baby Boomers. Catzo, Lucas, Spielberg, Scorcese e companhia limitada são a verdadeira definição do termo.

Não sou nenhum biógrafo, mas para mim, Star Wars é a versão espacial das aventuras de guerra que Lucas ouvia, sei lá, do seu pai, avô ou tios. Por isso as naves e uniformes são todas baseadas em modelos da Segunda Guerra. Por isso o Império sempre foi uma alegoria do Nazismo.

Essa iconografia funcionou bem demais em 1977, num mundo que achava que estava livre da guerra, mas que estava enfrentando uma nova, que não tinha pedido. Um país que precisava de alguma motivação para o momento.

Mas tudo isso ficou muito para trás, e o mundo não é mais aquele. Os meninos de meninas de hoje nem sabem exatamente o que foi a Segunda Guerra. Não conhecem nem convivem com ex-combatentes. A guerra de hoje foi fetichizada pelos video games, transformada em produto, vendida como moda.

Darth Vader era o vilão perfeito para os anos 70. Frio, robótico, autoritário, querendo colocar ordem na maluquice da época. Tudo que a molecada queria odiar estava representado em Vader. Inclusive na revelação de que, na verdade, ele representava o seu pai.

Nos anos 2010, no entanto, esse não é o mal que vemos nas ruas. O mal de hoje não é organizado e metódico. É caótico, mimado e explosivo como Kylo Ren. É imprevisível e poderoso, mas perde a paciência em dois tempos. O mal de hoje é meio parecido com todo mundo. Os mocinhos de hoje usam as mesmas armas que os bandidos, vendidas pela mesma indústria.

Não é só isso. O diretor parece entender como poucos o momento atual. Luke diz que suas aventuras fizeram dele uma lenda. E sendo lenda, carregou mais jovens para aventuras que não deram em nada, haja visto que a Primeira Ordem estava aí, de volta. Para mim, isso faz eco como os “velhos rebeldes”, que inspiram uma geração atual que ainda se porta como se fossem guerrilheiros dos anos 60, combatendo um inimigo que já não é mais o mesmo.

É de Yoda, que pra mim simboliza nossos avós já mortos, o recado: joguem fora o manual, queimem os textos sagrados. Não é assim que o mal vai ser vencido. Vocês, jovens, já tem tudo que precisam dentro de si. É só agir com o coração. A “força” é maior que todos vocês. Não é de propriedade de ninguém, mas todos podem usar.

O filme termina de forma inspiradora, mostrando o que une as duas gerações. Seja inspirado em Luke ou em Rey, sempre vai ter uma criança fingindo que sua vassoura é um Sabre de Luz. E ela é, de verdade, a Nova Esperança.

Nunca vai existir um Star Wars como Império Contra-Ataca. Porque não vai haver um novo Vader, e não vai existir um novo “eu sou seu pai” te pegando de surpresa. O diretor entende isso tão profundamente, que o anti-clímax que comentei no início do texto é justamente a revelação de que os pais de Rey não são ninguém. Ao invés de fechar a saga, deixando-a restrita à família Skywalker, Johnson a amplia, fazendo com que ela possa ser a saga de todos.

Acho uma pena que vários fãs tenham ido no cinema para ver Império 2. O filme me pegou de guarda baixa, e eu tive alguns dos melhores momentos vendo um Star Wars da minha vida.