Sobre silêncios, pesos e levezas

Rodrigo Goldacker
Jul 5 · 6 min read
Photo by Mark Daynes on Unsplash

Uma mulher fantasma era atravessada pelo tiro que um aterrorizado policial disparara.

Era esta a primeira cena que lembro de alguma historinha minha, toscamente ilustrada por mim quando tinha uns cinco ou seis anos e com o texto redigido por minha mãe, de acordo com minha narração. Era uma aventurinha boba. Na infância, vivia criando coisinhas assim. Até os enredos de minhas brincadeiras com bonecos envolviam grandes amizades, momentos para piadas, intrigas políticas, guerras grandiosas e complexas redes de relacionamento: o macaco laranja era o melhor amigo do garotinho de plástico; o robô com cara de mau fora derrotado e se tornara um aliado arrependido. Depois, quando comecei a escrever no computador, já na pré-adolescência dos 11 ou 12 anos, gostava de cenas violentas, tarantinescas. E foi ainda mais tarde, quando enfim comecei a solidificar meus estilos, lá pelos 15 ou 16, que criei uma cisão: de um lado, textos absurdos e bem-humorados, cínicos, que fazia para divertir amigos. De outro, produzia fantasiosos romances, com um quê de realidade idealizada e utopia (como este, chamado Três Garotas, que escrevi aos 16 anos, no comecinho de 2012, e que agora estou revisando e postando aqui no Medium).

Os textos de humor apelativo nunca levei a sério: perderam-se no tempo e a voz se calou. Já às fantasias românticas decidi reagir violentamente com meu primeiro livro, no qual as subvertia todas em uma narrativa repleta de dor. Daí para frente, sempre preferi destilar sofreres. Durante alguns anos da minha juventude, enquanto obcecado com solidificar minhas técnicas e estilos, pouco me importei de estar usando destes todos para o mais fácil: falar de dor. Era, mais ainda, uma necessidade daqueles tempos. Meus textos sangravam, meus sentimentos caíam sem muito esforço nas palavras.

Depois de uns anos assim, foi um amigo meu que lia muito do que eu escrevia quem finalmente apontou minha quimera. Constatou como, contrastada com meus processos todos de reinvenção de mim, minha voz textual permanecia quase sempre monótona, alienada em amargor. Alguns livros escritos mais tarde, era a única insistente constante remanescente de meu antigo eu, teimosamente ainda lá mesmo quando decidi me virar todo do avesso.

Não sabia como resolver isso, portanto simplesmente me calei por um certo intervalo. Esperei a quimera definhar por falta de migalhas de atenção. Deu certo e, quando voltei a bater dedos contra teclas, percebi que as sementinhas de novas vozes começavam a irromper do adubo da minha inconsciência. Dali para frente, os silêncios se tornaram muito úteis conforme fui aprendendo a utilizá-los como ferramentas sempre que acreditava ter caído na mesmice. Entendo agora que o passar do tempo serve para fermentar minhas palavras com coisas novas. Desse jeito, podia ainda falar sobre dores; mas também me descobri, cada vez mais, trazendo leveza para as frases. Meu último livro era mais divertido, com alguns momentinhos bobos. Meus novos poemas brincavam mais com as belezas do céu.

Foi um esforço construído e consciente regar e ver crescer estas alegrias. Queria explorar outros sentimentos: não só o arrependimento, mas o perdão; não só a dor, mas o prazer; não só a lágrima, mas o riso. Quis trazer algo de sereno que via em mim e no mundo para o que produzia. Parecia para mim mais maduro, menos óbvio e igualmente necessário porque, em tempos de paranoia e desassossego, achei importante valorizar os deleites banais. Até a tristeza escrita se tornou menos estética, mais honesta: quando vinha, não precisava mais me censurar ou controlar para agradar as expectativas mitológicas de ninguém sobre como apresentar fragilidades e precariedades.

Rir de mim e do mundo foi, também, um processo para desinchar minha autoimagem de qualquer importância trágica. Percebi-me cada vez mais como comédia e meu papel cada vez menos como de protagonista heroico. Na peça da vida, consegui me ver muitas vezes como alívio cômico e, afinal, entendi a importância das catarses positivas, dos arzinhos soprados pelas narinas.

Tanta beleza, vi tanta beleza! Quis cada vez mais compartilhá-la. Nunca deixei de apontar para o que via de terrível, mas desisti da ilusão convicta de que só existisse isso. Para um pessimista ressentido, a certeza ilusória no predomínio do ruim é um acalento reconfortante: resolve a incerteza de simplesmente não controlar os destinos, definindo que tudo é simplesmente como terrível para escapar da caótica arbitrariedade da fortuna.

Eu, que nunca quis lograr com dogmas e desisti de controlar qualquer coisa, não me importava em tentar taxar definições absolutas, positivas ou negativas, fosse sobre mim ou fosse sobre o mundo. Lá fora tem coisas bem terríveis acontecendo em algum lugar, agorinha, tanto quanto também agora acontecem diversas pequenas graças da vida. É essa a ironia: a vida, como eu a observo, não se permite jamais delimitar numa coisa só. Tem quem não aceite isso e acabe sempre construindo recortes. Sempre busquei aceitar a indefinível abrangência.

Falei muito sobre solidão, mas agora falo também das felicidades dos momentos divertidos com amigos e com a mulher que amo. Sempre falei dos traumas, mas hoje falo também das curas que encontrei para muito do que sofri. Sempre falei de nostalgias e saudades, ou de expectativas pelo futuro, mas hoje procuro falar também daquilo que tem de bom no que estou vivendo aqui e agora.

Hoje, eu caminhei de manhã até o trabalho cantarolando com voz fininha uma música que não ouvia há anos. O céu, que desde sempre foi um dos focos da minha admiração maravilhada pelo viver, estava outra vez muito bonito. Uma senhora me viu passar e sorriu da minha cara de bobo. Ontem, eu fiz uma dancinha desajeitada para comemorar um trabalho que deu certo. Não tem um dia sequer onde eu não viva pelo menos um momentinho doce. Na minha vida toda, estas levezas de instantes sempre estiveram lá. Durante certas fases, somente tinha deixado de observá-las com atenção.

Não preciso romancear como já fiz, nem me alienar na utopia. Tem um casalzinho ali abraçado, sim, e na esquina de baixo também tem um mendigo fumando no cachimbo de vidro. Há uma família na qual os avós sem alfabetização conseguiram colocar netos na universidade, que grande conquista, mas há também o desperdício de jovens sem perspectiva nenhuma de vencer o desemprego (ou os subempregos degradantes). Esse momento em que você me lê deve ser o mais feliz da vida de algum fulano, o mais infeliz da vida de outro e alguma coisa no meio, entre o simplesmente banal e o completamente irrelevante, para mais centenas de milhares de pessoas. Nada disso se invalida. Tudo coexiste.

Porque mergulhei na pesada e mórbida reflexão sobre a morte, também, consigo hoje sorrir com mais leveza e valor por estar vivo. Consigo me sentir grato por coisinhas tão singelas. Existe uma sabedoria particular e até uma técnica nessa contemplação contente: é preciso espremer os olhos para ver a alegria nos detalhes. Quando posso, sempre tento apontar para os outros as rimas leves que vejo. Escolhi trazer para minha vida mais pessoas, como minha companheira, que muitas vezes também apontam isso para mim quando sou eu quem não vê.

Tem tanta poesia por aí. A vida de ninguém é de um gênero só. Já vi até os mendigos mais miseráveis brincando e gargalhando. Já vi crianças de rua abraçando cachorros vira-latas com rabinhos abanando. Já vi gatinhos conquistando o afeto e o afago de senhorinhas idosas com a expressão enrugada de quem já viu universos ruindo. Já vi florzinhas coloridas brotarem frágeis entre blocos de concreto sujos de poluição.

Já vi covinhas, já vi brilhos nos olhinhos. Já vi um beija-flor passar pela janela enquanto tomava café da manhã. Já vi maravilhas singelas escapando intrometidos de tudo quanto é lugar onde teoricamente não devia estar.

Eu recuperei a voz do meu humor que, pela vergonha e forma imatura, por muito tempo calara. Agora levo a graça a sério. Quando quero, mesmo nos meus piores dias sou capaz de encontrar alguma beleza. Fico satisfeito de ter treinado meus olhos e espírito para perceber este tom do mundo. Sem ver também o sublime no modesto, acredito que permanecemos cegos. Não estou falando sobre aquela alegria plástica e afetada, a euforia publicitária de um mundo feito só de prazeres. Longe disso: acho que me encanto com alegrias mais sutis, mais humildes e simples, mais comuns, acessíveis e bobas, daquelas que inclusive rimam mais com a dor.

Não é que tudo sejam flores, mas tem tanta felicidade espalhada por aí, sabe? Eu me tornei um bocadinho mais feliz quando aprendi a exercitar este olhar. A vida vai passando e, pouco a pouco, vou aprendendo a chorar e a sorrir melhor.

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Rodrigo Goldacker

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Termos e silêncios alternados.

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