Contra a fé, não há fatos

Bons candidatos manipulam ideias, excelentes candidatos manipulam emoções.

Se você não paga para usar, você é o produto.

Gostamos de acreditar na existência de uma realidade com fatos puros e simples, que a nossa razão é capaz de interpretar. Se alguém discorda da forma como pensamos, é porque precisa ter acesso aos fatos que nós temos — ou talvez à razão que nós temos.

Vez ou outra, especialmente no período das eleições, percebemos que essa realidade inquestionável tem certos problemas — milhões de pessoas, com acesso aos mesmos fatos e que, para outras questões, demonstram o mesmo nível de razão, tomam decisões completamente opostas.

Os seus vizinhos, que fazem 90% das coisas exatamente como você, começam a discutir sobre Lula e Bolsonaro, quando você tem certeza de que vai votar nulo esse ano.

Onde estão seus fatos agora?

Acontece que algumas decisões em nossa vida — e escolher um candidato é uma delas — são tomadas de forma emocional, e só depois encontramos justificativas racionais para elas.

Nós pensamos que um ser humano, normal e saudável, sempre faz compras onde encontra o melhor preço.

A verdade é que todos nós estamos dispostos a desembolsar alguns centavos ou reais a mais quando temos confiança em uma marca ou simpatia pelo dono do mercado, por exemplo. Por outro lado, se esse dinheiro for fazer muita falta, compramos o mais barato por medo de deixar a nossa família em necessidade.

Emoções governam e tornam complexa uma decisão aparentemente simples e lógica — e poucas escolhas que parecem racionais envolvem tantas emoções quanto uma votação, ainda mais se envolve cargo único: prefeito, governador ou presidente.

Temos medo que o candidato errado acabe com a economia, corte verbas da educação ou complique a situação das minorias.

Esperança de que o candidato certo gere mais empregos, construa hospitais ou aprove direitos civis avançados. Raiva quando um deles diz que os problemas com os quais nos preocupamos não importam muito. Simpatia quando falam algo com o que concordamos. Tédio ao ouvir aqueles que repetem a mesma história a cada quatro anos. Orgulho de acreditar que tomamos a decisão ideal

O que excelentes candidatos fazem é conduzir essa maré de emoções numa direção que favoreça as suas candidaturas.

Me refiro aos candidatos como excelentes por serem bons puxadores de voto — não quero dizer que eles serão excelentes governantes, e é importante esclarecer a diferença!

Um exemplo notável é a utilização do medo apontado para acontecimentos; reais ou hipotéticos; combinado à segurança que o próprio candidato oferece contra eles.

Algumas vezes os candidatos precisam enfraquecer algum adversário e suas políticas em particular, e direcionam o medo dos seus eleitores contra ele, misturado à uma certa dose de raiva: um motivo para votar em Bolsonaro é evitar que Lula (ou o PT) retorne, enquanto um motivo para votar em Lula (ou outro petista) é impedir que Bolsonaro governe o país.

Claro, quando esses candidatos ou seus apoiadores apontam um ao outro, estão direcionando medos que são reais para grande parte da população — um governo corrupto, o retrocesso social, o aumento da violência e assim por diante.

Os outros candidatos utilizam medos comuns, que até dialogam com grandes camadas da população, mas não conseguem oferecer segurança e se firmar como os mais capazes para resolver esses problemas, por isso ficam em segundo plano, sem tanto espaço na mente dos eleitores quanto quem pode impedir os “bandidos petistas” ou os “fascistas apoiadores da ditadura”.

Entender essa relação entre emoções e candidatos é uma forma de reduzir o peso dos sentimentos e conseguir tomar uma decisão com mais racionalidade — e até mesmo de convencer alguém a mudar o próprio voto, se isso fizer parte dos seus planos nessa eleição.

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