Leo Nunes
Leo Nunes
Sep 12 · 2 min read
Pietà de Michelangelo

Eu fico pensando se algum dia verei seu corpo morto. Penso que isso ocorrerá em um futuro distante, quilômetros em um horizonte longínquo. Seu corpo morto é uma ideia sem sentido, sem vida. Penso nos corpos que verei mortos, não só o seu, os dos outros também. Cada novo amigo, cada nova conhecida, cada novo amor é um corpo a mais na lista.

Talvez será você a ver o meu corpo morto. O meu corpo morto, sem alma, sem espírito, essas duas coisas que podem ser uma só, que podem não existir. Você poderá ver meu corpo sem consciência e ainda com vida, ou eu poderei velar o seu corpo feito pedra em uma cama. Possibilidades de um futuro que, não nego, pode ser próximo.

É essa carne a liga, a conexão. Pela pele toco seus cabelos, sua barba, seus seios, seus corpos. É por esse corpo a ligação, o encontro. Pela pele experimento o mundo, essa fronteira de células que carregam sentidos. E pelos seus sentidos você observa a minha presença, as ondas de som criadas pela minha voz, os fótons rebatidos pela luz em minha pele, as cores traduzidas pelas suas retinas ao cérebro. A biologia das coisas misturada aos parâmetros físicos da matéria.

Outro dia ouvi dizer, pode isso tudo ser uma ilusão. Uma simulação controlada por computadores, por pensadores externos, maiores, melhores. E esse seu corpo, essas suas células, das mitocôndrias aos núcleos, tudo seria formado por bits de informação. Você não existe, nem eu, nem as nuvens, nem as ilhas. A areia que toca meus pés é sensação, não física, apenas informática. Então seu corpo não teria mais peso real, não teria mais presença, nem poderia se tornar ausência.

Como seria lindo não me preocupar mais. Não existirmos para fora dessa caixa controlada, desse deus externo, desse ser supremo. Não termos nenhum comando. O destino seguindo em desatino.

E é esse outro que dá contorno, limite. É esse corpo externo, alado de ideias e intenções, aliado a uma consciência não minha que me define. Sou o processo do conjunto de percepções alheias. Sou tudo que pensam os outros. Só existo porque você me vê.

Não é lindo entender a necessidade do coletivo para a própria existência e permanência. Eu sou o que sou, igual a deus, que só é o que é porque só há isso para ser. E se sou e estou aqui, fico porque te amo.

Meu amor também define, também limita e o faz de forma contrária. Desenha as paredes por fora, delimita o espaço positivo, permitido. É o amor a cartografia da alma ou do espírito, essas duas coisas que podem não existir, que podem ser uma só. E que podem se resumir ao amor.

NEW ORDER

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biologicamente vulnerável às terças

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