Crianças precisam ser crianças, porra!

Deixem seus filhos em paz.

deu ruim!

Me lembro de poucas coisas dos meus sete, oito anos. A maior parte das lembranças são coisas cotidianas, daquelas que marcam a vida sem ter um porque específico e caso eu venha a discorrer sobre elas, você aí lendo corre o sério risco de cair no sono.

Pra sintetizar cito aqui três coisas: eu tinha inveja de um moleque, o Marcos, porque ele batia uma bola bonita, de um jeito que eu jamais conseguiria; eu ficava puto quando a minha mãe não me deixava ir sozinho no McDonalds, que era bem na frente de casa; e, principalmente, eu morria de inveja de uma mina que tinha um Game Boy color com câmera. Acredito que o leitor de classe média nos seus vinte e poucos anos partilhe de frustrações semelhantes.

Hoje, 20 anos mais tarde, eu já posso ir a qualquer McDonalds sozinho, mas ainda não sei jogar bola e nem tive um Game Boy color com câmera. Posso dizer que soube lidar com isso. Apesar de, constantemente, procurar preços de Game Boys antigos no Mercado Livre. “Alô, é da terapia?”

Também hoje sou um orgulhoso pai de uma garota de três anos, o que me leva forçosamente a não só conviver, mas também interagir com outros pais absolutamente diferentes de mim. Os que sabem jogar bola, os que tiveram Game Boys, os que podiam ir ao McDonalds e uma série de outros tipos de pessoas, legais ou nem tanto.

E foi por isso que, recentemente, me chamou a atenção um caso bastante particular, de uma criança de uma cidade pequena, contando com cinco ou seis anos, com alguns milhares de seguidores no Instagram. Ok, celebridades mirins existem há um tempo, mas o buraco é mais embaixo. A criança em questão não é atriz mirim. Provavelmente quer ser e para isso contratou uma pessoa, que se intitula “assessora”, pra que esta gerencie sua “carreira”. Nada de novo, até agora.

O problema é a estratégia utilizada pela tal assessora, que pra mim, é bastante questionável, pra não dizer nojenta. Likes pagos, fotos erotizadas, excesso de maquiagem e aquelas legendas com frases vazias atribuídas a grandes pensadores. Sim, uma criança, postando fotos de gatinha, num perfil público (aparentemente não é só a Melody, há centenas dessas).

Eu poderia apostar aqui que em algum lugar dessa internet grande, cheia de coisa estranha, um bando de doentes pervertidos são fãs do trabalho da assessora. O mesmo tipo de cara nojento que assiste “pequenas misses”. O mesmo tipo de cara que eu, você e todo mundo, até ele mesmo, tem asco.

É obvio que isso não partiu da garota. Como também é obvio que a assessora não bateu na porta dela falando: “Oi, quero tirar umas fotos da sua filha de cinco anos, toda maquiada, de salto alto, mini saia e top, com o dedo na boca, tudo bem pra você”. Claro que são os pais dessas crianças que procuram esse tipo de “ajuda” para suprir suas próprias frustrações e/ou ostentar alguma coisa que eu não saquei direito.

E isso é, evidentemente, ridículo, além de extremamente prejudicial para a garota, pois, por mais que as coisas estejam indo aparentemente bem, há um grande risco aí. Principalmente porque cria-se essa fama passageira, superficial e vazia que os pais idolatram, e caso ela chegue a um fim, ou não dê um retorno esperado, teremos aí um pequeno frustrado, muito mais frustrado do aquele que não teve um Game Boy color, ou simplesmente não jogava bola direito. E se, num primeiro momento, der certo, cria-se ai um possível “Macaulay Culkin”. E cá entre nós, apesar de “Esqueceram de Mim” ser uma bela franquia, ninguém quer ser Macaulay Culkin.

“Foda-se, cada um cria os filhos como julga melhor” vai pensar alguém. Mas não é assim não amiguinho. Crianças são esponjas. É a velha máxima do “macaco vê, macaco faz” que minha vó sempre falou. E uma criança fazendo esse pseudo sucesso com suas fotos de extremo mal gosto, gera uma onda de aspiração à essa suposta fama nas crianças em seu entorno. Isso obviamente cria uma dezena de contas no Instagram, com ou sem assessoria, de crianças tentando se valer dos mesmos artifícios da “famosa” sem sequer saber o porque estão fazendo isso.

Aí começa a bola de neve da frustração, dando inicio a uma competição infantil bizarra: quem tem mais seguidores, quem tira as melhores fotos, quem é a mais bonita etc, etc. E a assessora ganha mais e mais clientes, dispostos a pagar algo entre 300 e 2.000 reais por mês para verem as fotos despropositadas de seus filhos receberem likes de milhares de desconhecidos (incluindo aquele tipo nojento), ou simplesmente para que essas crianças não sofram algum tipo de bullying na escola por não serem “bem sucedidos”. Aos 5 anos.

E o que isso gera? Uma geração de crianças com frustrações que, apesar de fúteis, são “adultas”. Uma série de candidatos à terapia, com valores totalmente deturpados e perfeitamente alinhados com essa “ditadura da beleza/magreza” que vão passar a vida buscando uma popularidade líquida e vazia. Os futuros compradores de Rivotril. “Um bando de babaca”, como dizem na minha terra.

Não é pra ser um “caga-regra”, mas… caralho! Uma criança tem que brincar, se machucar, tomar bronca por falar palavrão. Tem que ser criança, porra! É mesquinho depositar frustrações adultas em uma criança. É criminoso expor seus filhos de maneira sensualizada, aos 5, 6, 7 anos, esperando obter algum reconhecimento por isso. É imoral criar uma competição vazia e fútil no ambiente infantil porque você é feio, mas teve um filho bonito.

Por isso, não seja um babaca e proteja seus filhos, cara! Proteja-os dos outros e, principalmente, proteja-os de você mesmo. E deixem as crianças fazendo criancices. O mundo, um dia, vai te agradecer.

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