Cuidado com os aplicativos de paquera

Tudo aconteceu no adote um cara. A dinâmica do aplicativo: o homem joga um charme e a mulher, se tiver interesse no ‘produto’ (sim, elas mandam), libera o canal de comunicação.

Um charme aqui, outro charme ali. Conheci uma dúzia de pessoas legais, muitas das vezes com objetivo de construir alguma amizade. O aplicativo se tornou uma espécie de passatempo para dias de tédio.

Eis que três dias atrás uma moça responde a um charme e, logo de cara, demonstra grande interesse. Em amizade, namoro, casamento. Estranho, no mínimo. Não tô afim, pensei.

Mas entrei na onda. Conversa vai, conversa vem, descubro que a moça era mega complicada. Contraditória. Me expulsou três vezes. Nas três, não me deixou ir embora.

Entre a segunda e a terceira, veio a primeira informação absurda: a avó havia morrido. Paramos de nos falar. Ela parecia triste. Disse que dessa vez seria um adeus.

Hoje, por volta das 13hs, recebo uma mensagem de uma moça. Não joguei nenhum charme nela. Desconfiei, mas entrei na onda.

Elogiei as fotos. Ela pergunta se estou gostando de alguém. Mais estranho. Digo ‘não a menos de 200km de distância’ (existe uma pessoinha sim, mas isso não vem ao caso).

“E a FULANA?”, ela perguntou. Pronto, metade do quebra-cabeças resolvido. Hipótese: ela acaba de criar uma conta para me incriminar.

Entrei na onda.

Mas ela joga bem. A história vocês já sabem (ou imaginam). É a amiga que mora na cidade vizinha e resolveu, a pedido da FULANA, testar o rapaz promissor.

Depois de algum tempo de longas explicações, a segunda informação absurda: o pai havia falecido. Isso mesmo, num acidente de carro enquanto dirigia para o enterro da avó.

Entrei na onda. Mas, dessa vez, entrei de cabeça. Estava disposto a ganhar.

No final das contas, a terceira informação absurda (vou poupar vocês dos detalhes das longas conversas com a FULANA e com a AMIGA): a FULANA morreu.

Sim, suicídio. A amiga em desespero. Ninguém teve culpa. Supostamente uma depressiva.

Mais uma info absurda: a mãe pega o telefone de FULANA e diz que nada fará para ajudar a moça. Sim, a mãe não a ama.

Entrei na onda. Entrei em desespero. Nada poderia ser feito. Percebi que a piada tinha chegado ao fim. Afinal de contas, não voltaria a falar com a amiga, por completa falta de interesse, e FULANA já não existia.

Segundo a AMIGA, o irmão de FULANA a levou para o hospital, contra a vontade da mãe. Chegou sem vida.

Fim da história.

Mas deixei uma info perturbadora: iria guardar a conversa como prova de que nada tive com o suicídio. Prints.

Terminamos a conversa via app. Nesse momento, senti um misto de alegria e alívio. Sabia que não era sério, que era algum louco pregado peças. Mas também não podia simplesmente ignorar. Vai que era verdade. Como eu disse, FULANA joga bem.

Eis que uma solicitação de amizade surge no Facebook. Uma tal Tatiane Sousa aparece. Aceito. “Obrigado”, ela manda no chat. “Quem é você?”, perguntei.

Minutos antes da solicitação, havia postado na minha linha do tempo “Das duas uma: ou estou sendo trolado em um nível ninja, ou o mundo é mesmo um negócio muito imprevisível.”

A isca. Ela mordeu. Curtiu. Não sei dizer se a tal Tatiana é real ou se é mais uma FULANA. “Preciso te contar uma coisa”. Disse que ficou tão mal que teve que vir se explicar.

Entrei na onda. Disse que a polícia estava investigando o suicídio e que eu levaria até as autoridades as novas informações. Um golpe. Cadeia. Processo.

Pediu perdão, disse que não era caso de polícia. Já era, falei. Perdeu.

Apagou a conta no Facebook.

Moral da história: tenho exatamente 1632 contatos no Facebook. E ando me perguntando quantos são reais.

*Relato do dia 12 de junho

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