Cultura da Aprovação

(Google images)

É natural, como seres humanos, pertencermos a um grupo. Faz parte das nossas configurações internas. Mas não só pertencer. Constantemente, buscamos também a aprovação daqueles que nos rodeiam. E hoje, com diversos meios tecnológicos de valorização da própria imagem, criou-se um preocupante cenário: a cultura da aprovação.

Quando publicamos nas redes sociais, aguardamos ansiosamente por aprovações. Se os números de likes são expressivos, o coração se alegra, e partimos para mais uma tentativa similar. Caso contrário, o abatimento é irreparável, e tendemos a desistir rapidamente.

Parece que estamos num reality show onde quem dita às regras são as curtidas.

De pessoas próximas, já presenciei lamentações de vídeos (pessoais) que atingiram mais visualizações do que curtidas. Ora, o que a pessoa queria expor já foi visto, e isso não vale nada?

“Não vou me dedicar a textos mais profundos, longos, porque ninguém lê e nem garante curtidas”, ouvi certa vez. Onde está o sucesso desse cidadão, dentro ou fora? (Tudo bem que para determinadas pessoas likes e views preservam as contas mensais. Mas, será que é só isso que estamos tratando hoje em dia?). Será que não caímos num padrão e estamos deixando de explorar nossas melhores virtudes?

Por volta de 1860, Paris era o centro do mundo da arte. Tudo acontecia lá. A arte era reconhecidamente importante na vida cultural do país. E grandes pintores que desejassem um lugar ainda mais próximo ao sol, deveriam submeter suas obras a uma banca examinadora de especialistas. O prazo de envio era sempre até primeiro de abril. Viam-se, portanto, pelas ruas e calçadas, artistas do mundo inteiro, empurrando carrinhos com suas telas até o prazo determinado. Depois disso, seis semanas de ansiedade para se encontrarem com as decisões dos jurados. Todas as telas ficavam expostas num grande salão, e as obras com a letra em vermelha “R” eram as rejeitadas.

Ser rejeitado era aterrorizador para a grande maioria. Não só pela vergonha em ver o trabalho desprezado, mas também pelas regalias financeiras que poderiam cobrar no futuro pelas suas obras. Só que o medo da rejeição era tanta que em 1866, o artista Jules Holtzapffel, se matou. Em sua carta de suicídio encontrada posteriormente, dizia que por ter sido rejeitado pelos membros da comissão, não tinha nenhum talento.

Ser aceito pelo órgão julgador, no entanto, exigiam certos padrões que deixava um grupo de pintores desgostosos com a arte. Sabiam também que, para serem aprovados, deviam usar as técnicas que agradassem os críticos. E para eles, aquilo que constituía a verdadeira arte, era uma ideia completamente diferente daquele jogo de aprovação. Consideraram, então, que o padrão exigido na época estava sendo limitador do ponto de vista artístico. Por assim definirem, passaram a expor, de forma independente, suas obras num pacato café da cidade — com limitado investimento inicial. E suas telas, por vezes até chocantes, aos poucos, começaram a atrair os olhares da grande massa consumidora de arte. Em pouco tempo, mudaram a história da cultura da aprovação em Paris. Hoje, esses pintores são conhecidos por terem inventado a arte moderna com o movimento conhecido como impressionismo.

Parece que os impressionistas estavam certos, afinal, seus quadros são expostos em todos os grandes museus de arte do mundo. E assim como outrora, nós também estamos vivendo o dilema da escolha. No entanto, cabe a nós, imersos nesse emaranhado de informações, decidirmos o lugar que queremos ficar: no salão de Paris, em 1860, ou num pacato café francês? Dentro de uma curtida, em 2016, ou por tempo indeterminado no coração das pessoas?