Cultura da (des)aprovação

Essa semana, li o texto intrigante de Guilherme Ramos, da TRENDR, falando sobre a crescente cultura da aprovação — i.e. uma expectativa exagerada de aprovação daqueles à nossa volta, que muitas vezes resulta em uma limitação das nossas ações e da nossa criatividade.

Por Dan Carlson

Nessa leitura recomendadíssima, Guilherme faz um paralelo entre a cultura da aprovação e, como resistência à ela, o surgimento do movimento impressionista, no século XIX, em Paris.

Refletindo sobre o texto, vi uma conexão imediata entre os problemas oriundos dessa dita “cultura da aprovação” com um dos grandes desafios que temos no Coletividad, que é, além de tantas coisas, agregar pessoas resilientes que saibam ser criticadas, criticar e somar, podendo assim crescer.

Pensando na minha experiência profissional, percebi que as situações em que eu fui severamente criticado foram, além de marcantes, os grandes pontos de inflexão na minha curva de aprimoramento pessoal. Foram esses momentos de vergonha (e até constrangimento) que me fizeram com que eu refletisse sobre as minhas deficiências, e tentasse compreender porque aquela pessoa não estava satisfeita com o meu trabalho — e como eu poderia (deveria!) melhorar.

Saber como encarar uma reprovação é importante. A gente nunca esquece. E aprendemos muito assim.

Nessa linha, os integrantes do Coletividad enviaram uma história de desaprovação que os fez crescer profissionalmente ou pessoalmente. Além disso, em seu texto, Julio Fontes fala sobre como isso é importante no mundo competitivo no qual vivemos.

Os relatos serão apresentados abaixo.

Se você também quer contar algo similar, adicione na sessão de respostas. Não tenha vergonha (nós não tivemos!). Vai que a gente consegue filmar a nossa versão de Whiplash no futuro.

(Parece que a desaprovação, aliás, é uma marca registrada da ascenção dos grandes músicos. Outra história similar é contada no filme Shine.)

Não existem duas palavras na língua inglesa mais danosas do que “good job”.

Relato 1, por Camilo Salvador

Eu estava trabalhando no desenvolvimento de produtos em uma empresa de montagens industriais (similar a uma construtura). O meu chefe era um grande engenheiro, imigrante da antiga Tchecoslováquia. Ele tinha mais de 50 anos de experiência na área. Estávamos trabalhando em um projeto de patente de painéis modulares, que serviam para diversas utilidades — e.g. para formar a parede de um cômodo, ou para uma divisória de trabalho, etc.
Nós tínhamos trabalhado no projeto em CAD (virtual) por mais de 6 meses, eu conhecia muito bem as peças, e a ansiedade para montar os painéis e testá-los era grande. Na semana em que recebemos os materiais, meu chefe estava de férias (eram só 10 dias), e eu tive a ideia de fazer uma surpresa para ele, deixando os painéis todos montados até a sua volta. Eu e uma equipe de 5 pessoas trabalhamos a semana inteira nisso.
Apesar de surpreso, ele ficou um pouco desconfiado da montagem. Depois de alguns testes preliminares (que eu seguramente também tinha feito), pegou um balde de água e jogou neles. A água entrou toda no cômodo, por uma fresta bem na base dos painéis (detalhe que eu tinha testado todas as junções, mas não testei os painéis isoladamente).
Ele ficou muito decepcionado. Para ele era óbvio que deveríamos ter usado algum material de vedação nos encaixes (apesar de não estar no projeto), porque uma chuva com vento iria causar esse tipo de infiltração nos cômodos. Para mim (e para a equipe) isso não era tão óbvio assim.
Todos os painéis foram desmontados e montados novamente, com a massa, que fui incluída no projeto. Naquela semana, meu chefe fez questão de derrubar água no chão, bem próximo dos meus pés, algumas vezes. Eu não sabia muito bem o que fazer, ou como lidar com a situação.
Depois dessa grande frustração eu aprendi que todos somos responsáveis pelas decisões tomadas em um projeto. Não importa se eu decidi montar os painéis prematuramente, ou se o desenhista não incluiu a massa no desenho. Ninguém consegue trabalhar com os pés molhados.

Relato 2, por Ana Carolina Magalhães

Um dos meus papéis como organizadora de concurso é avaliar os projetos enviados. Devo dizer que essa atividade foi muito importante para o meu crescimento profissional e para desenvolver uma aceitação pessoal. Isso porque, como em uma competição, nem todo mundo ganha.
Pra mim sempre foi (e ainda é!) difícil criticar algo, pois via como uma forma de desdém ao trabalho alheio. Hoje, vejo que você decide o que a crítica vai ser: um motivo para melhorar ou para ser derrotado.
Recentemente, fiz a avaliação de projetos que foram enviados para o concurso. Alguns participantes se queixaram das considerações, mas o que me chamou a atenção foi uma participante em especial que se disse desapontada com as críticas, que queria desistir de participar pois se sentira menosprezada pela comissão julgadora e que, pasmem, todos da faculdade dela (engenheiros, arquitetos e marceneiros) tinha achado a ideia inovadora, viável e simples (a tal da aprovação externa) e ficou decepcionada porque nós não falamos o mesmo. O detalhe curioso é que ela mesma admitiu que seu projeto não seguiu muito bem o tema proposto, mas que mesmo assim havia se decepcionado com a avaliação.
Logicamente, ela ainda está começando sua vida profissional. Receber críticas é muito difícil quando você ainda tem o sonho de que vai sair da faculdade trabalhando numa agência foda, com todos os seus projetos saindo do papel. Eles não entendem, ainda, que a faculdade é a hora certa de errar. De receber críticas, de falhar e começar de novo.
Querem que tudo seja perfeito, tudo seja aprovado. Tudo tem que receber os likes. Senão, é em vão. Se esquecem da aprendizagem, se esquecem da experiência. Isso deveria ser relevante para eles (e para todos nós).
Nesse dia, o meu trabalho foi reprovado porque eu reprovei aquele trabalho. Confuso, talvez. Mas é importante inverter a situação: mostrar que não, não é ruim errar. Vale mais a pena deixar o orgulho de lado e somar à sua educação, à sua experiência e à sua vida.

Relato 3, por Liliane Junqueira Antunes

Eu já estava há mais de um ano trabalhando como gerente de uma determinada categoria de produtos — conhecia bastante sobre o assunto — quando entrou um novo diretor na empresa. Naturalmente, eu recebi a incumbência de apresentar para ele o panorama da categoria e da marca que eu gerenciava, bem como a estratégia que tínhamos planejado para aquele ano para contextualizá-lo. Acontece antes de entrar na empresa que eu trabalhava, esse diretor era o principal executivo da marca líder de mercado, e a pressão para apresentar algo que o impressionasse era grande.
Pois foi aí que eu me enrolei… na ansiedade de mostrar tudo o que era possível sobre a categoria de produtos, sobre a marca que eu gerenciava e sobre a estratégia para o futuro, passei muito tempo buscando novas informações, investigando novas coisas, certificando-me que a estratégia que tínhamos era de fato a melhor estratégia… enfim, bateu a insegurança e tudo o que eu consegui fazer foi uma sequência de slides pífios, com um monte de informação amontoada, desordenada e, pior de tudo, desalinhada com o resto do time (agora é fácil perceber!). Na ansiedade de fazer algo perfeito, esqueci de focar no que eu já sabia (pitada de insegurança aqui) e de pedir ajuda para o time (pitada de arrogância acolá).
Hoje é fácil ler a situação toda. Eu devia ter alinhado expectativas antes de começar a produzir. Eu devia ter confiado mais em mim. Eu devia ter compartilhado o material antes… simples. Mas, na época, foi tudo muito traumático para mim… Ter um material recusado minutos antes dele ser usado era, no mínimo, uma falta de respeito com o meu trabalho. Eu achei até que era uma crueldade proposital por parte da minha chefe, que ignorou todo o investimento que fiz para produzi-lo (!). E esse monte de emoções negativas me impediu de perceber que o material era, simplesmente, inadequado!

Relato 4, por Julio Fontes

Acredito muito no empreendedorismo, que ele é sinônimo de inovação e que inovação é decorrência de diversidade, talento e tolerância.
Então, me incomoda muito pensar nas inúmeras pessoas que falam de inovação, rede, colaboração, comunidade, design, empreendedorismo mas não a vivem.
Me incomoda porque o diálogo, a crítica, a troca em busca das inovações, que seria o básico, se torna um desafio diário e cansativo! Enquanto essas pessoas, supostamente imbuídas do espírito das suas profissões, compartilham links, dicas e notícias, verbetes e discorrem com entusiasmo, sobre o quão mágico é o Vale do Silício enquanto ilustram o quão ruim é o Brasil.
Essa inabilidade só ilustra a fragilidade e imaturidade de uma ‘comunidade’. Ilustram a incapacidade de entender que não há comunidade sem feedback, sem participação. E sem Comunidade não existe relevância e reconhecimento profissional.
Se o exemplo a ser seguido é o Vale do Silício, por que não replicam o mais básico, a abertura e diálogo que lá existe, ao invés de tentar descobrir as últimas e milagrosas metodologias, os termos e jargões da moda?
Infelizmente contribuir, comentar e criticar é raro, quando deveria ser básico. Você não contará com a perspectiva de quem poderia contribuir enormemente com a sua trajetória por (supostamente) já ter trilhado seu caminho. Até certo ponto, você está sozinho, meu amigo.

Depois dos relatos, gostaria de falar mais uma coisa. As pessoas hoje aclamadas como bem sucedidas, em algum momento, foram duramente criticadas. Ainda sobre essa temática, recomendo uma das melhores TED talks da história, “The power of vulnerability”, de Brené Brown. Afinal, até as coisas ruins tem um lado bom.